Em linhas ofuscas, riscos e rabiscos de nosso incógnito passar
Insólito dramaturgo é a vida, e sua teimosa mania de escrever vidas
E o que será dela senão um tenro ensaio de amor?
Cada ríspido conflito, cada abraço rejeitado, cada beijo na testa...
Alegra-se; berra silenciosamente ao encontrar-se com aqueles olhinhos manhosos, que trazem consigo toda a altivez da beleza
Apaixona-se cansativamente com seu carinho e sua carência
Chora a insônia refletiva de sua ausência
(...)
Frutas no chão. Na sala, a cadela chafurda sapatos esquecidos
Conversas embaixo dos lençóis com seu rosto adormecido
Transpira cuidado, sonha afeto. De tanto que quis ser, vai ser...
Como é bom contemplar o otimismo do que me espera!
Enxergar como minha juventude ainda não era
Nunca fui bobo, já fui boêmio
Embriaguei-me no esplendor desse encanto
Entôo a melodia de um novo canto
Em minhas orações, peço a Deus para que este seja
Meu infindável tenro ensaio de amor.
(Flávio Pinheiro)
sexta-feira, 19 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
Longe de mim
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A crise política no RN
O assunto do momento é a crise política nacional, sendo que para um bom observador do assunto um problema mais grave pode ser observado: a crise na classe política do Rio Grande do Norte. De fato, não foi apenas aqui que se iniciou o escândalo das passagens aéreas com o nosso deputado global, mas aqui também há problemas que se agravam numa densidade bem forte.
Do macro para o micro: o RN foi o Estado que teve o menor número de projetos apresentados e aprovados no Senado; o Estado perdeu seu posto de maior exportador de frutas por falta de investimento e compromisso; a nossa capital se encontra numa infindável crise de saúde sem perspectivas de melhora; nós temos o município de Taipu com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil, e o restante dos municípios, apesar de alegarem falta de dinheiro, não buscam outras soluções que não a de chorar suas mágoas, tanto que se esqueceram de cumprir com os requisitos do bolsa família e tiveram os repasses dos benefícios suspensos nos últimos dias. Isso tudo tem de significar alguma coisa, não pode ser tudo culpa da crise financeira ou fruto de coincidências! É muito problema para pouca atitude.
Não adianta falar que o processo político é mais do que apenas apresentar e aprovar projetos: um político completo que queira fazer valer os votos de confiança que lhes foi dado deve dividir seu tempo entre a defesa institucional de nossos interesses, a realização de obras e a aquisição de vantagens concretas para o nosso Estado; também não cabe culpar as gestões anteriores, já que são quase sempre as mesmas figuras que se revezam nos mesmos cargos, se fiscalizando e administrando conjuntamente, e pouco muda; em relação à afirmação municipal de falta de dinheiro, esta é até contraditória quando comparada à quantidade de riquezas que possuímos e ao excesso de gastos e abusos perpetrados. Para os que acharam um absurdo o episódio das farras das passagens, apresento o correspondente municipal: a farra da gasolina. Ou ninguém nunca ouviu falar de vereadores dos interiores que usam verbas públicas para passeios particulares e até para encher o tanque de amigos? Acresça-se um adjetivo ao parágrafo anterior: é pouca atitude e muita imoralidade!
Alguns podem dizer que o nosso Estado tem apresentado progressos, como na questão da auto-suficiência energética que obteve destaque internacional na CNN há poucos dias, por exemplo. A essas pessoas eu gostaria de responder: a energia seria muito mais positiva se fosse absorvida pelos nossos políticos no exercício dos seus respectivos mandatos. Vamos melhorar os nossos votos!!!
Eduardo Sousa Dantas
Bacharel em Direito pela UFRN
Assessor do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas
Do macro para o micro: o RN foi o Estado que teve o menor número de projetos apresentados e aprovados no Senado; o Estado perdeu seu posto de maior exportador de frutas por falta de investimento e compromisso; a nossa capital se encontra numa infindável crise de saúde sem perspectivas de melhora; nós temos o município de Taipu com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil, e o restante dos municípios, apesar de alegarem falta de dinheiro, não buscam outras soluções que não a de chorar suas mágoas, tanto que se esqueceram de cumprir com os requisitos do bolsa família e tiveram os repasses dos benefícios suspensos nos últimos dias. Isso tudo tem de significar alguma coisa, não pode ser tudo culpa da crise financeira ou fruto de coincidências! É muito problema para pouca atitude.
Não adianta falar que o processo político é mais do que apenas apresentar e aprovar projetos: um político completo que queira fazer valer os votos de confiança que lhes foi dado deve dividir seu tempo entre a defesa institucional de nossos interesses, a realização de obras e a aquisição de vantagens concretas para o nosso Estado; também não cabe culpar as gestões anteriores, já que são quase sempre as mesmas figuras que se revezam nos mesmos cargos, se fiscalizando e administrando conjuntamente, e pouco muda; em relação à afirmação municipal de falta de dinheiro, esta é até contraditória quando comparada à quantidade de riquezas que possuímos e ao excesso de gastos e abusos perpetrados. Para os que acharam um absurdo o episódio das farras das passagens, apresento o correspondente municipal: a farra da gasolina. Ou ninguém nunca ouviu falar de vereadores dos interiores que usam verbas públicas para passeios particulares e até para encher o tanque de amigos? Acresça-se um adjetivo ao parágrafo anterior: é pouca atitude e muita imoralidade!
Alguns podem dizer que o nosso Estado tem apresentado progressos, como na questão da auto-suficiência energética que obteve destaque internacional na CNN há poucos dias, por exemplo. A essas pessoas eu gostaria de responder: a energia seria muito mais positiva se fosse absorvida pelos nossos políticos no exercício dos seus respectivos mandatos. Vamos melhorar os nossos votos!!!
Eduardo Sousa Dantas
Bacharel em Direito pela UFRN
Assessor do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas
*Artigo publicado no Jornal de Hoje de sexta-feira, dia 15 de maio de 2009.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Uma visão crítica sobre uma falácia social
Semana passada, o delegado de Polícia responsável pela apuração do homicídio do turista sueco Gert Björk afirmou que uma das principais causas da insegurança pública do RN é o problema-chavão de que “A Polícia prende e o Judiciário solta”; aliás, essa desculpa está sendo invocada muito freqüentemente nos últimos tempos e parece estar se solidificando no senso comum de nosso povo. Eu entendo a preocupação de nossos cidadãos em ver bandidos soltos na rua, porém o problema transcende à essa simples razão.
Não é por falta de preguiça, de competência ou de boa-vontade que o Judiciário atua dessa maneira. O problema da “soltura” dos acusados é maior e decorre do princípio constitucional da presunção de inocência. Está previsto de forma clara e irretratável na Constituição: a prisão antes da sentença final somente pode se dá em casos excepcionais, ou seja, a liberdade é a regra e o cidadão é inocente até que se prove o contrário, porque como se ensina na faculdade de Direito e da vida, é melhor manter livre dez condenados do que permitir que seja preso um inocente. Esse sistema é conquista instituída em favor de todos nós, afinal de contas, quem não gostaria de ser considerado inocente no caso de uma eventual e indevida acusação? É para garantir nossos direitos que o sistema não possui exceção.
Ao contrário do que dizem, a existência da presunção da inocência não é a causa principal dos níveis inaceitáveis de insegurança, violência e criminalidade que nós sofremos. A aplicação de uma legislação mais rigorosa seria apenas um mecanismo de repressão relativamente eficaz, porém insuficiente!!! Como todos nós sabemos, para eliminar um mal é preciso cortá-lo pela raiz, e no nosso caso a raiz do problema está na fome, na miséria, na falta de educação, nos problemas sociais, na corrupção e no desvio de verbas públicas que deveriam atender os anseios da população miserável. Enquanto essas causas não forem resolvidas, os bandidos famintos e os que se alimentam da fome continuarão dominando nossas ruas e ameaçando nossas vidas e nosso patrimônio.
Lei severa e ausência de direitos e garantias somente serviram de instrumentos eficazes para se queimar mulheres na fogueira e legitimar os atos da ditadura brasileira. Portanto, cidadão, quando escutar novamente essa desculpa, não se engane, o problema da violência não está numa presunção!!!
Não é por falta de preguiça, de competência ou de boa-vontade que o Judiciário atua dessa maneira. O problema da “soltura” dos acusados é maior e decorre do princípio constitucional da presunção de inocência. Está previsto de forma clara e irretratável na Constituição: a prisão antes da sentença final somente pode se dá em casos excepcionais, ou seja, a liberdade é a regra e o cidadão é inocente até que se prove o contrário, porque como se ensina na faculdade de Direito e da vida, é melhor manter livre dez condenados do que permitir que seja preso um inocente. Esse sistema é conquista instituída em favor de todos nós, afinal de contas, quem não gostaria de ser considerado inocente no caso de uma eventual e indevida acusação? É para garantir nossos direitos que o sistema não possui exceção.
Ao contrário do que dizem, a existência da presunção da inocência não é a causa principal dos níveis inaceitáveis de insegurança, violência e criminalidade que nós sofremos. A aplicação de uma legislação mais rigorosa seria apenas um mecanismo de repressão relativamente eficaz, porém insuficiente!!! Como todos nós sabemos, para eliminar um mal é preciso cortá-lo pela raiz, e no nosso caso a raiz do problema está na fome, na miséria, na falta de educação, nos problemas sociais, na corrupção e no desvio de verbas públicas que deveriam atender os anseios da população miserável. Enquanto essas causas não forem resolvidas, os bandidos famintos e os que se alimentam da fome continuarão dominando nossas ruas e ameaçando nossas vidas e nosso patrimônio.
Lei severa e ausência de direitos e garantias somente serviram de instrumentos eficazes para se queimar mulheres na fogueira e legitimar os atos da ditadura brasileira. Portanto, cidadão, quando escutar novamente essa desculpa, não se engane, o problema da violência não está numa presunção!!!
Eduardo Dantas
Bacharel em Direito pela UFRN
*artigo publicado no Jornal de Hoje, edição de 12 de março de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Discurso orador formatura turma UFRN 2008.2
DISCURSO ORADOR FORMATURA – DIREITO 2008.2 – UFRN
Magníssimo Senhor Reitor da UFRN, Dr. Josê Ivonildo Rêgo, em nome de quem saúdo todas as demais autoridades que compõem essa ilustre mesa; ilustres mestres e mestras que aqui estão presentes; caros pais, mães, amigos e amigas, e, principalmente, caros colegas formandos: parabéns, a todos nós!
Hoje é dia da nossa conquista. Dia de celebração; dia de comemorar em família, entre amigos, amores, colegas. Dia que foi traçado, na cabeça de cada um de nós, em algum determinado momento do tempo e do espaço. Para uns, tenho certeza que a opção pela carreira jurídica deve ter nascido no berço, por influência dos pais, familiares, ou por pura vocação. Já outros, tiverem o seu momento de descobrimento, quem sabe às vésperas de encarar o tão temido vestibular da Universidade Federal, ou então após realizar um outro curso superior. O momento não importa. A partir de hoje, somos todos os mesmos: todos bacharéis em Direito recém-formados, satisfeitos e orgulhosos pela conquista alcançada, porém ávidos e ansiosos pela nova jornada que se inicia.
Para trás ficam sentimentos juvenis, convivência diária, debates, discussões, amizades, provas para estudar de véspera, horas para jogar conversa fora. São os momentos nos corredores; são as brincadeiras na cantina; são os churrascos e as confraternizações de fim de ano; é o espírito acadêmico; são os professores queridos, e as lembranças dos não tão queridos (e temidos, porém admirados!); são as memórias de um tão bom tempo que foi vivido, mas que se acaba agora!
Na Universidade, adquirimos nossa base, nossa direção, o nosso rumo, solidificamos a nossa formação como estudantes, pessoas e cidadãos. Desde as incipientes aulas de Introdução ao Estudo do Direito, até os mais complexos temas e teorias do processo civil ou direito tributário, fomos nos descobrindo e nos identificando uns com os outros, e com as matérias que estudamos.
Hoje paira entre nós o sentimento de gratidão familiar para com a Universidade Federal, instituição que, mesmo com todas as suas falhas e problemas, continua sendo a grande força produtora de juristas e operadores do Direito do Estado do Rio Grande do Norte.
A convivência diária com o Direito, com nossos grandes juristas e professores, a leitura dos grandes autores e os ensinamentos de ética, de moral, dedicação, disciplina e cidadania, nos imbuíram e nos fortificaram no sentimento de se estar escolhendo o caminho certo. Hoje já faz parte de nós.
O Direito é magnificamente grande; magnificamente apaixonante; está em toda parte; é obra da vida em sociedade.
Nada causa maior admiração do que se constatar que não se passa sequer um dia, sem que se traga uma notícia, em qualquer jornal ou veículo de comunicação, de um assunto que esteja diretamente relacionado com a nossa profissão. Esse é o prazer de vivenciar essa ciência social.
E entre as formas de vivenciar essa ciência social, a Turma de 2008.2 já escolheu seu lema: Ética, Direito e Justiça. São esses os valores que escolhemos exaltar e pelos quais nos guiaremos durante todo o exercício de nossas carreiras; valores tão caros, hoje em dia, diante das notícias de escândalos e de corrupções que nos tomam os olhos e os ouvidos todos os dias; valores tão esquecidos ou relegados; valores pouco estudados, mas que não nos passaram em branco e que juraremos, hoje, cumprir e observar para sempre.
Nossa responsabilidade, se já era grande, agora aumenta. Nossos fardos serão maiores; a alegria pelo exercício das carreiras que nós escolhemos, contudo, tornará o peso em nossas costas mais ameno, porém, não nos poderá fazer com que nos esqueçamos de nossos novos deveres.
Primeiramente, temos o dever de retribuir o investimento que a sociedade brasileira fez em nós, e esse dever retribuiremos se provermos a sociedade com o conhecimento que nos foi dado de forma inteligente e renovadora, através de trabalhos, petições e decisões inteligentes e de operadores pensantes; retribuiremos sendo intérpretes e aplicadores do direito vivo e nascente, e não meros reprodutores. Retribuiremos fixando em nossas mentes, de hoje em diante, a imagem dos juristas que devemos ser: os juristas da constante renovação, da aplicação e observância dos princípios, da constitucionalização do direito, do repúdio aos absurdos dos literalismos. É a esse tipo de jurista a que se referia o professor Miguel Reale, ao, já nos primeiros anos de academia, ressaltar que o necessário é “teorizar a vida e viver a teoria, na unidade indissolúvel do pensamento e da ação”.
Retribuiremos, enfim, elaborando trabalhos acadêmicos e teorias, preparando novas almas e espíritos, inspirando novas pessoas e ajudando a formar novos cidadãos de caráter, inteligência e coração.
Este é, pois, o nosso primeiro dever.
Nosso segundo dever é se comprometer em fazer Justiça.
Justiça para todos, justiça democrática; Justiça ponderada, justiça equilibrada, justiça que se divide entre o peso da balança e a força protetora da espada; justiça “cega”, como Thémis, desvinculada de interesses externos, da politicagem ou do poder econômico; justiça que se resume no senso e sentimento de justo e que, conforme dizia Ulpiano, consiste em viver honestamente, dar a cada um o que é seu, e não lesionar ninguém, ou também, de acordo com o grande filósofo Platão, Justiça como a reunião da prudência, da fortaleza e da temperança.
Devemos, ainda, ser justos no sentido poetizado por Ésquilo, a quem aqui parodio no sentido de que o homem bom (no caso, o homem justo), deve ser mais ansioso em ser bom, (e em ser justo), do que em parecê-lo.
Eis, pois, o nosso segundo desafio. O desafio de se fazer Justiça.
Em terceiro lugar, temos a obrigação de nunca perder o nosso amor pela nossa profissão, amor esse que deve ser visto em sua plenitude, ou seja, como força pulsante e estado de espírito. É o Amor que nos faça lutar, que nos faça seguir; que não nos permita baixar a cabeça nas derrotas e decepções que tivermos, e que nos encha o coração ao alcançar um objetivo e celebrarmos nossas vitórias. Ao mesmo tempo, o amor como forma de se encarar a vida e a profissão, como a menina dos olhos e com o sorriso leve, típicos de um eterno apaixonado. O amor nessas suas duas facetas.
O amor, pois, pela pela profissão, pelo direito, pela justiça, porque sem ele, os grandes juristas, líderes e filósofos, seriam apenas medíocres representantes e pensadores. Mais vale um bom jurista presente, disponível, apaixonante e cativante, do que um grande sábio frio, distante e ausente.
O amor, então, que não é complacente com os arrogantes, com os pedantes, com os indiferentes; o amor livre das “juizites”, seja aguda - no início de carreira, ou crônica, já imanente; o amor como paixão; o amor como chama ardente; o amor que nos impulsiona a seguir, sempre em frente, e nos permite levar às últimas conseqüências o exercício de nossas atribuições, mesmo quando possa por em risco a nossa própria existência como seres viventes.
É desse amor que falamos, o amor pela luta, o amor pelo Direito, tão bem posto e idealizado por Von Ihering, ao nos ensinar que “O direito não é uma pura teoria, mas uma força viva. Todos os direitos da humanidade foram conseguidos na luta”. É esse sentimento, pois, tão característico de espíritos jovens, como os nossos, que nos dá essa força e essa gana de trabalhar e nos esforçar por ideais e princípios que ainda estão tão vivos em nossos íntimos, e que dizem, se perde com o passar dos anos.
Só roguemos a Deus que não ocorra com nós; que se nos falte experiência, que compensemos com nosso excesso de vontade; que caso erremos, que nos seja permitido corrigir os nossos erros, e nos seja desculpado e reconhecido o nosso esforço. Roguemos, a Deus, ainda, para que ele nos permita superar todos os obstáculos, por mais difíceis e intransponíveis que pareçam.
Sobre essa prece, há um pequeno questionamento da física que poderá melhor ilustrar o nosso pedido, e que se resume no seguinte dilema: o que ocorre quando uma força irresistível se encontra com um objeto inamovível? Nada, pois as duas coisas não podem coexistir ao mesmo tempo.
Então, que Deus nos permita ser essa força irresistível, e que todos os obstáculos colocados em nossa frente sejam sempre removíveis. Nisso nos cremos, assim desejamos e faremos.
E que Deus nos permita também ter sempre o amor como estado de espírito, porque encarando a vida e a profissão com o ar de um eterno apaixonado, é provável que nunca percamos nossa força, nossa vontade, a paixão. Nessa segunda vertente da palavra amor, há uma estória também bastante elucidativa do Ministro Sepúlveda Pertence.
Conta-se que o Ministro Pertence, um dos mais renomados e respeitados Ministros do STF, pouco antes de se aposentar e, portanto, supostamente já cansado de uma vida inteira de trabalho, participou de uma de suas últimas sessões no Supremo, em que se deliberava acerca de um pedido da extradição de um norte-americano chamado Walker. A relatora era a Ministra Ellen Gracie, que chamou o processo a julgamento e relatou-o aos outros ministros. Após o relatório, veio a inusitada pergunta do Ministro Pertence, que questionou:
- Excelentíssima Senhora Ministra-Relatora, Vossa Excelência poderia, por favor, me dizer qual é o prenome do extraditando em questão? A pergunta causou estranheza na Ministra Ellen Gracie que, contudo, procurando e revirando suas anotações, respondeu ensofismada ao Ministro Pertence:
- Olha, Ministro Pertence, o prenome do extraditando Walker é Richard, Excelência, Richard Walker, mas por que a relevância ou o interesse da pergunta?!
- O Ministro, de pronto, respondeu:
- É Porque se ele se chamasse Johnny, Vossa Excelência, eu teria de me julgar suspeito por amizade íntima!
Esse é, pois, o segundo sentido do amor à profissão que devemos sempre ter em mente.
E para nos relembrarmos sempre dessas acepções do amor à profissão, não é preciso ir tão longe. Aqui mesmo, no Estado, há exemplos de profissionais e de juristas igualmente brilhantes ao Ministro Pertence, e igualmente apaixonados pelo que fazem. É o caso do inigualável Seabra Fagundes, ou do recém-aposentado Ministro José Delgado, tão homenageado no ano em que se despediu da magistratura após mais de 40 anos em exercício; ou até mesmo aqui, nessa noite, temos o exemplo do paraninfo da Turma, o ilustre mestre e exemplo para todos nós, professor Xisto Tiago de Medeiros Neto; Os nossos ilustres professores homenageados, Professora Darci Pinheiro, Professora Elaine Cardoso, Professor Luiz Alberto Dantas Filho, Professor e patrono da turma Morton de Medeiros, Professor Paulo Renato, Professor Paulo Leão, professor Virgílio Fernandes e professor Nilton Pires; e todos os demais ilustres professores que compõem o quadro de professores do Curso de Direito da UFRN.
Por último, para não mais me alongar nessas breves palavras, cumpre ressaltar apenas um nosso último dever, que é o de não nos esquecermos, nunca, quem nós somos e de onde viemos.
Esse então parece fácil, pois estará para sempre presente no laço invisível da confraternização, da amizade, do carinho, do respeito e das lembranças, que sempre nos unirá e que será facilmente perceptível através de um sorriso estampado, de um abraço apertado, da felicidade externada por um reencontro ocorrido, seja nos corredores dos fóruns, dos tribunais, nas universidades, nos órgãos públicos, nos escritórios.
Nós todos formamos um só. Somos, a partir de hoje, mas desde sempre, as novas vozes, os novos rostos, os novos representantes da comunidade jurídica da UFRN; não nos esqueçamos de nós mesmos e ajudemos e compreendamos nossos pares, pois não há nada pior do que a mágoa e o ressentimento entre irmãos.
O desafio é grande, a jornada apenas se inicia; temos, pela frente, inúmeras e inúmeras horas de estudo, de trabalho, de esforço e dedicação, suor e lágrimas, vitórias e derrotas, alegrias e frustrações.
A responsabilidade é enorme e o fardo é pesado; a batalha é incessante, e duradoura; muitos (e alguns também tão queridos) ficaram para trás; em alguns anos, teremos que estar atuando nos mais diversos órgãos, poderes e entidades que compõem o Estado Norte Rio-Grandense e o Estado Democrático de Direito Brasileiro; A nossa função será promover a guarda da Constituição, dos valores e princípios constitucionais e democráticos, e dos interesses de nossos futuros clientes, alunos, jurisdicionados.
Aos mestres, muito obrigado pelos exemplos e pelas lições, estas serão, para sempre, eternas e inabaláveis; aos pais, amigos, queridos e familiares, valeu pelo suporte e pela atenção dados; à Universidade, nossa querida casa, um breve adeus, e muitas saudades; à sociedade brasileira, contem conosco, nós retribuiremos, à altura, o investimento feito; e, por fim, a todos, fica aqui a mensagem final da turma de Direito 2008.2: QUE O NOSSO DESAFIO SEJA ÁRDUO, PORQUE NÓS ESTAMOS CHEGANDO E ESTAMOS PREPARADOS! Muito Obrigado.
Magníssimo Senhor Reitor da UFRN, Dr. Josê Ivonildo Rêgo, em nome de quem saúdo todas as demais autoridades que compõem essa ilustre mesa; ilustres mestres e mestras que aqui estão presentes; caros pais, mães, amigos e amigas, e, principalmente, caros colegas formandos: parabéns, a todos nós!
Hoje é dia da nossa conquista. Dia de celebração; dia de comemorar em família, entre amigos, amores, colegas. Dia que foi traçado, na cabeça de cada um de nós, em algum determinado momento do tempo e do espaço. Para uns, tenho certeza que a opção pela carreira jurídica deve ter nascido no berço, por influência dos pais, familiares, ou por pura vocação. Já outros, tiverem o seu momento de descobrimento, quem sabe às vésperas de encarar o tão temido vestibular da Universidade Federal, ou então após realizar um outro curso superior. O momento não importa. A partir de hoje, somos todos os mesmos: todos bacharéis em Direito recém-formados, satisfeitos e orgulhosos pela conquista alcançada, porém ávidos e ansiosos pela nova jornada que se inicia.
Para trás ficam sentimentos juvenis, convivência diária, debates, discussões, amizades, provas para estudar de véspera, horas para jogar conversa fora. São os momentos nos corredores; são as brincadeiras na cantina; são os churrascos e as confraternizações de fim de ano; é o espírito acadêmico; são os professores queridos, e as lembranças dos não tão queridos (e temidos, porém admirados!); são as memórias de um tão bom tempo que foi vivido, mas que se acaba agora!
Na Universidade, adquirimos nossa base, nossa direção, o nosso rumo, solidificamos a nossa formação como estudantes, pessoas e cidadãos. Desde as incipientes aulas de Introdução ao Estudo do Direito, até os mais complexos temas e teorias do processo civil ou direito tributário, fomos nos descobrindo e nos identificando uns com os outros, e com as matérias que estudamos.
Hoje paira entre nós o sentimento de gratidão familiar para com a Universidade Federal, instituição que, mesmo com todas as suas falhas e problemas, continua sendo a grande força produtora de juristas e operadores do Direito do Estado do Rio Grande do Norte.
A convivência diária com o Direito, com nossos grandes juristas e professores, a leitura dos grandes autores e os ensinamentos de ética, de moral, dedicação, disciplina e cidadania, nos imbuíram e nos fortificaram no sentimento de se estar escolhendo o caminho certo. Hoje já faz parte de nós.
O Direito é magnificamente grande; magnificamente apaixonante; está em toda parte; é obra da vida em sociedade.
Nada causa maior admiração do que se constatar que não se passa sequer um dia, sem que se traga uma notícia, em qualquer jornal ou veículo de comunicação, de um assunto que esteja diretamente relacionado com a nossa profissão. Esse é o prazer de vivenciar essa ciência social.
E entre as formas de vivenciar essa ciência social, a Turma de 2008.2 já escolheu seu lema: Ética, Direito e Justiça. São esses os valores que escolhemos exaltar e pelos quais nos guiaremos durante todo o exercício de nossas carreiras; valores tão caros, hoje em dia, diante das notícias de escândalos e de corrupções que nos tomam os olhos e os ouvidos todos os dias; valores tão esquecidos ou relegados; valores pouco estudados, mas que não nos passaram em branco e que juraremos, hoje, cumprir e observar para sempre.
Nossa responsabilidade, se já era grande, agora aumenta. Nossos fardos serão maiores; a alegria pelo exercício das carreiras que nós escolhemos, contudo, tornará o peso em nossas costas mais ameno, porém, não nos poderá fazer com que nos esqueçamos de nossos novos deveres.
Primeiramente, temos o dever de retribuir o investimento que a sociedade brasileira fez em nós, e esse dever retribuiremos se provermos a sociedade com o conhecimento que nos foi dado de forma inteligente e renovadora, através de trabalhos, petições e decisões inteligentes e de operadores pensantes; retribuiremos sendo intérpretes e aplicadores do direito vivo e nascente, e não meros reprodutores. Retribuiremos fixando em nossas mentes, de hoje em diante, a imagem dos juristas que devemos ser: os juristas da constante renovação, da aplicação e observância dos princípios, da constitucionalização do direito, do repúdio aos absurdos dos literalismos. É a esse tipo de jurista a que se referia o professor Miguel Reale, ao, já nos primeiros anos de academia, ressaltar que o necessário é “teorizar a vida e viver a teoria, na unidade indissolúvel do pensamento e da ação”.
Retribuiremos, enfim, elaborando trabalhos acadêmicos e teorias, preparando novas almas e espíritos, inspirando novas pessoas e ajudando a formar novos cidadãos de caráter, inteligência e coração.
Este é, pois, o nosso primeiro dever.
Nosso segundo dever é se comprometer em fazer Justiça.
Justiça para todos, justiça democrática; Justiça ponderada, justiça equilibrada, justiça que se divide entre o peso da balança e a força protetora da espada; justiça “cega”, como Thémis, desvinculada de interesses externos, da politicagem ou do poder econômico; justiça que se resume no senso e sentimento de justo e que, conforme dizia Ulpiano, consiste em viver honestamente, dar a cada um o que é seu, e não lesionar ninguém, ou também, de acordo com o grande filósofo Platão, Justiça como a reunião da prudência, da fortaleza e da temperança.
Devemos, ainda, ser justos no sentido poetizado por Ésquilo, a quem aqui parodio no sentido de que o homem bom (no caso, o homem justo), deve ser mais ansioso em ser bom, (e em ser justo), do que em parecê-lo.
Eis, pois, o nosso segundo desafio. O desafio de se fazer Justiça.
Em terceiro lugar, temos a obrigação de nunca perder o nosso amor pela nossa profissão, amor esse que deve ser visto em sua plenitude, ou seja, como força pulsante e estado de espírito. É o Amor que nos faça lutar, que nos faça seguir; que não nos permita baixar a cabeça nas derrotas e decepções que tivermos, e que nos encha o coração ao alcançar um objetivo e celebrarmos nossas vitórias. Ao mesmo tempo, o amor como forma de se encarar a vida e a profissão, como a menina dos olhos e com o sorriso leve, típicos de um eterno apaixonado. O amor nessas suas duas facetas.
O amor, pois, pela pela profissão, pelo direito, pela justiça, porque sem ele, os grandes juristas, líderes e filósofos, seriam apenas medíocres representantes e pensadores. Mais vale um bom jurista presente, disponível, apaixonante e cativante, do que um grande sábio frio, distante e ausente.
O amor, então, que não é complacente com os arrogantes, com os pedantes, com os indiferentes; o amor livre das “juizites”, seja aguda - no início de carreira, ou crônica, já imanente; o amor como paixão; o amor como chama ardente; o amor que nos impulsiona a seguir, sempre em frente, e nos permite levar às últimas conseqüências o exercício de nossas atribuições, mesmo quando possa por em risco a nossa própria existência como seres viventes.
É desse amor que falamos, o amor pela luta, o amor pelo Direito, tão bem posto e idealizado por Von Ihering, ao nos ensinar que “O direito não é uma pura teoria, mas uma força viva. Todos os direitos da humanidade foram conseguidos na luta”. É esse sentimento, pois, tão característico de espíritos jovens, como os nossos, que nos dá essa força e essa gana de trabalhar e nos esforçar por ideais e princípios que ainda estão tão vivos em nossos íntimos, e que dizem, se perde com o passar dos anos.
Só roguemos a Deus que não ocorra com nós; que se nos falte experiência, que compensemos com nosso excesso de vontade; que caso erremos, que nos seja permitido corrigir os nossos erros, e nos seja desculpado e reconhecido o nosso esforço. Roguemos, a Deus, ainda, para que ele nos permita superar todos os obstáculos, por mais difíceis e intransponíveis que pareçam.
Sobre essa prece, há um pequeno questionamento da física que poderá melhor ilustrar o nosso pedido, e que se resume no seguinte dilema: o que ocorre quando uma força irresistível se encontra com um objeto inamovível? Nada, pois as duas coisas não podem coexistir ao mesmo tempo.
Então, que Deus nos permita ser essa força irresistível, e que todos os obstáculos colocados em nossa frente sejam sempre removíveis. Nisso nos cremos, assim desejamos e faremos.
E que Deus nos permita também ter sempre o amor como estado de espírito, porque encarando a vida e a profissão com o ar de um eterno apaixonado, é provável que nunca percamos nossa força, nossa vontade, a paixão. Nessa segunda vertente da palavra amor, há uma estória também bastante elucidativa do Ministro Sepúlveda Pertence.
Conta-se que o Ministro Pertence, um dos mais renomados e respeitados Ministros do STF, pouco antes de se aposentar e, portanto, supostamente já cansado de uma vida inteira de trabalho, participou de uma de suas últimas sessões no Supremo, em que se deliberava acerca de um pedido da extradição de um norte-americano chamado Walker. A relatora era a Ministra Ellen Gracie, que chamou o processo a julgamento e relatou-o aos outros ministros. Após o relatório, veio a inusitada pergunta do Ministro Pertence, que questionou:
- Excelentíssima Senhora Ministra-Relatora, Vossa Excelência poderia, por favor, me dizer qual é o prenome do extraditando em questão? A pergunta causou estranheza na Ministra Ellen Gracie que, contudo, procurando e revirando suas anotações, respondeu ensofismada ao Ministro Pertence:
- Olha, Ministro Pertence, o prenome do extraditando Walker é Richard, Excelência, Richard Walker, mas por que a relevância ou o interesse da pergunta?!
- O Ministro, de pronto, respondeu:
- É Porque se ele se chamasse Johnny, Vossa Excelência, eu teria de me julgar suspeito por amizade íntima!
Esse é, pois, o segundo sentido do amor à profissão que devemos sempre ter em mente.
E para nos relembrarmos sempre dessas acepções do amor à profissão, não é preciso ir tão longe. Aqui mesmo, no Estado, há exemplos de profissionais e de juristas igualmente brilhantes ao Ministro Pertence, e igualmente apaixonados pelo que fazem. É o caso do inigualável Seabra Fagundes, ou do recém-aposentado Ministro José Delgado, tão homenageado no ano em que se despediu da magistratura após mais de 40 anos em exercício; ou até mesmo aqui, nessa noite, temos o exemplo do paraninfo da Turma, o ilustre mestre e exemplo para todos nós, professor Xisto Tiago de Medeiros Neto; Os nossos ilustres professores homenageados, Professora Darci Pinheiro, Professora Elaine Cardoso, Professor Luiz Alberto Dantas Filho, Professor e patrono da turma Morton de Medeiros, Professor Paulo Renato, Professor Paulo Leão, professor Virgílio Fernandes e professor Nilton Pires; e todos os demais ilustres professores que compõem o quadro de professores do Curso de Direito da UFRN.
Por último, para não mais me alongar nessas breves palavras, cumpre ressaltar apenas um nosso último dever, que é o de não nos esquecermos, nunca, quem nós somos e de onde viemos.
Esse então parece fácil, pois estará para sempre presente no laço invisível da confraternização, da amizade, do carinho, do respeito e das lembranças, que sempre nos unirá e que será facilmente perceptível através de um sorriso estampado, de um abraço apertado, da felicidade externada por um reencontro ocorrido, seja nos corredores dos fóruns, dos tribunais, nas universidades, nos órgãos públicos, nos escritórios.
Nós todos formamos um só. Somos, a partir de hoje, mas desde sempre, as novas vozes, os novos rostos, os novos representantes da comunidade jurídica da UFRN; não nos esqueçamos de nós mesmos e ajudemos e compreendamos nossos pares, pois não há nada pior do que a mágoa e o ressentimento entre irmãos.
O desafio é grande, a jornada apenas se inicia; temos, pela frente, inúmeras e inúmeras horas de estudo, de trabalho, de esforço e dedicação, suor e lágrimas, vitórias e derrotas, alegrias e frustrações.
A responsabilidade é enorme e o fardo é pesado; a batalha é incessante, e duradoura; muitos (e alguns também tão queridos) ficaram para trás; em alguns anos, teremos que estar atuando nos mais diversos órgãos, poderes e entidades que compõem o Estado Norte Rio-Grandense e o Estado Democrático de Direito Brasileiro; A nossa função será promover a guarda da Constituição, dos valores e princípios constitucionais e democráticos, e dos interesses de nossos futuros clientes, alunos, jurisdicionados.
Aos mestres, muito obrigado pelos exemplos e pelas lições, estas serão, para sempre, eternas e inabaláveis; aos pais, amigos, queridos e familiares, valeu pelo suporte e pela atenção dados; à Universidade, nossa querida casa, um breve adeus, e muitas saudades; à sociedade brasileira, contem conosco, nós retribuiremos, à altura, o investimento feito; e, por fim, a todos, fica aqui a mensagem final da turma de Direito 2008.2: QUE O NOSSO DESAFIO SEJA ÁRDUO, PORQUE NÓS ESTAMOS CHEGANDO E ESTAMOS PREPARADOS! Muito Obrigado.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Por uma propaganda eleitoral de qualidade
A temporada de propaganda eleitoral no rádio e na televisão chegou ao fim. Porém, os absurdos e horrores que foram presenciados pelos poucos que se submeteram à tortura de ver o programa não passaram despercebidos. Alguns conseguem achar motivos de graça e humor, como se política fosse pura brincadeira. Para outros, contudo, política deve ser coisa séria (a frase se apresenta de forma tão absurda em nossa realidade “politiqueira” que parece até irônica).
Observando a propaganda gratuita eleitoral pode constatar-se a existência de diversos tipos de propostas e candidatos: em primeiro lugar, encontra-se o clássico, o famoso candidato de discurso apelativo de “populacho”; logo em seguida, vem os de discursos de apoio, onde o candidato titular do tempo de propaganda quase não fala (ou realmente não fala!); há os candidatos que elaboram as promessas de “mundos e fundos”, sem qualquer aparente consideração com as questões orçamentárias ou com o respeito pela crença ou inteligência do eleitor; tem, também, os candidatos do voto de protesto, e uma nova espécie a pouco identificada, o candidato das promessas absolutamente impossíveis. Esses apresentam como carro-chefe da sua candidatura, a proposta de “fiscalizar a governadora e a execução dos projetos federais”, conclamando para si, a um só tempo, as atribuições de vereador municipal, deputado estadual e federal (vejam só que super-candidato!). E não são só os vereadores. Tem também candidato a prefeito dizendo que vai aumentar o salário dos médicos municipais, quando se sabe que quem tem a atribuição para aumentar os vencimentos dos cargos e empregos públicos é a Câmara Municipal, mediante lei.
Críticas pessoais e subjetivas à parte, a conclusão objetiva a que se pode chegar é uma só: a propaganda eleitoral no rádio e na televisão não serve a sua precípua finalidade de apresentar propostas sérias e ajudar na escolha de candidatos. Concordo que existem alguns candidatos que a encaram com seriedade e utilizam-na como base de sua campanha eleitoral, principalmente os que têm poucos recursos. Contudo, o que deveria ser regra é exceção (quase imperceptível).
Uma mudança de situação requereria atitude conjunta dos Poderes Públicos, Partidos Políticos e da Sociedade em geral. O alcance de resultados em curto prazo é de difícil realização.
Parece que a nossa recente democracia ainda tem um longo caminho de conscientização e amadurecimento político a percorrer. Mesmo assim, ainda fica aqui o imediato e desesperado apelo, afinal de contas, as eleições para o ano de 2010 já estão aí. Em pouquíssimo tempo, o “show de horrores” estará de volta. Por favor, alguém faça alguma coisa!!! Ninguém agüenta mais ver.
(Eduardo Sousa Dantas - concluinte do curso de Direito da UFRN e eleitor insatisfeito)
*artigo elaborado durante as eleições para os cargos de prefeito e vereador do Município de Natal
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Vermelho-roxo, Vermelho-morto

PARTE 1 – Da Aproximação
Vermelho encardido, vermelho-roxo. Assim era o amor entre André e Liz. Muito incomum. Pessoas completamente distintas. Se conheceram no Rio de Janeiro, cidade natal de ambos. Foi amor a primeira vista... e como foi! Até hoje André poderia descrever toda a cena. Festa de baile de carnaval no clube. André havia acabado de chegar, com seu típico estilo de playboy. Na opinião dele, “o playboy”. Do alto dos seus 1,85m de altura, vestia uma camisa florida, de estampa azul com flores verdes, combinada com bermudas e sandálias brancas. Mascava chiclete. Tinha o cabelo preto, escuro e liso, penteado completamente para trás, à base de muito gel Bozzano. Era esbelto, traços longos, porém afilados. Vestia uma colônia esportiva, não tão chique, porém marcante. Andava com um ar despretensioso e bacana pelo meio da pista de dança, meio que se amostrando para todos (e principalmente, para todas), meio que já analisando e escolhendo uma dentre tantas outras mulheres que já possuiu e possuíra. Encontrou e cumprimentou alguns amigos, viu e esnobou a Carmen, uma loira gostosa com quem já havia dormido, quando ela lhe disse:
- André, você por aqui! Vamos dançar! – disse insinuando-se e tentando agarrar André pelo pescoço.
- Agora não – respondeu, retirando rudemente suas mãos:
– Não tô afim. Estava bem, no controle da situação. Foi até o bar pegar uma cerveja, até que, enquanto virava-se dando um gole da bebida, viu aquela cena. Por um momento restou paralisado, como que atordoado pelo mais forte veneno que já existiu ou pela mais pura beleza que já viu. Suas pernas tremeram, sentiu um fogo que vinha de baixo e subia, mas não saia de seu corpo. Estava em um certo tipo de êxtase.
- Só pode ser um anjo – pensou. E era. Um anjo angelical, a mais bela de todas, o conceito de beleza, Liz! Cabelos grandes, castanhos e ondulados, sorriso largo, porém discreto. Traços afilados, pele sedosa como o leite, levemente bronzeada como o cobre e sem falhas... rosto limpo e perfeitamente liso, e macio. Olhos grandes, da cor de mel, esbelta e curvilínea. Dançava com agilidade e elegância, fantasiada de Diana. Dominava o salão e o ambiente. Tinha uma energia positiva e uma vibração que irradiava para todos a sua volta. Todos os homens do salão haviam reparado nela, e todos babavam por ela, sendo que a maioria estava intimidada. Uns pela beleza ofuscante e pela imponência daquela deusa. Outros, pela presença da alta e forte da figura ao seu lado, o seu à época amado Hércules, cuja fantasia de legionário romano já deixava transparecer toda a força e o perigo que corria aquele que se metesse em seu caminho. O problema é que André não era homem de se intimidar. Para ele, que se achava um “CasaNova” dos tempos modernos, uma nova espécie de “Don Juan de Marco”, não havia mulher nem obstáculo intransponível, tudo era uma questão de tempo e oportunidade. E quanto mais difícil a conquista, mais ele se interessava e se imergia naquele jogo de sedução. Se gabava das conquistas que havia feito, e dizia-se apaixonado incondicionalmente pela farra, bebida e mulheres. Nunca se contentava com apenas uma. Eram muitas, e ao mesmo tempo. Não conhecia a fidelidade. Dizia-se um boêmio inveterado e inconcertável Foi então que logo pensou:
- Ela vai ser minha! - E então o personagem galanteador e canastrão entrou em ação. Traçou um plano e uma estratégia que definiu como infalível. Esperou o momento certo, a hora que Hércules cochichou algo no ouvido de Liz e logo saiu em direção ao banheiro. Pegou “emprestada” uma câmera roleflex e um caderno de anotações de um dos fotógrafos da festa que havia se descuidado. Se aproximou de Liz e... flash! Sacou uma foto que cegou-lhe os olhos. Liz imediatamente reagiu e respondeu:
- O que é isso?!
- Olá, moça, sou o fotógrafo da festa, vi sua bela fantasia e resolvi tirar algumas fotos para publicá-las no jornal – disse André, já direcionando seu largo sorriso que considerava como arma primeira e mortal para uma conquista. Liz, ao voltar das trevas, se deparou com aquela bela figura olhando-a e sorrindo incontinentemente, e mesmo um pouco sem graça e sentindo-se levemente atraída por André, disse-lhe:
- Ah, tá bom, mas então espere meu namorado que vem vindo para tirarmos algumas fotos. Queria que me enviasse as fotos depois, tá?! - E André:
- Sim, mas é claro, é só anotar seu nome e seu endereço nesse caderninho - “Ela mordeu a isca”, pensou, enquanto a ingênua mulher anotava seu endereço e entregava seu destino ao cupido. Depois disso, Hércules se aproximou meio que desconfiado e disse:
- O que é isso, Liz?
- Ah, não é nada, é porque esse moço...
- André, por favor - interrompeu-lhe o rapaz, pois sabia que o anonimato era desconhecido do amor.
- André... sim – Disse Liz, reparando-lhe e olhando-o com um ar de admiração e encanto.
- O André tá querendo tirar algumas fotos nossas para publicar no jornal, complementou.
- Ah, que bom! – Disse o exibido Hércules,
- Vamos fazer algumas poses então – emendou, abraçando sua namorada e posando para a câmera. Era um verdadeiro show. Hércules abraçava Liz e posava, contraindo seus músculos, esquecendo de sua namorada e pensando só em como aquelas fotos ficariam boas no jornal! Liz abraçava Hércules e tentava buscar sua atenção para ver se tirava da cabeça e da mira dos olhos aquela bela figura do sorridente fotógrafo. E André fingia que tirava fotos do casal para o jornal, sendo que só focava em Liz, sorria e lhe enchia de elogios, do tipo “Tá linda!”, e “Que bela!”, enquanto, direcionando-lhe o olhar, percebia que era tímida e vergonhosamente correspondido.
“Me dei bem” – pensou então, enquanto esvaia-se o rolo de filme e aquela ardente noite de terça-feira de carnaval.
Parte 2 – Da Conquista
No mesmo dia em que voltou do baile carnavalesco, André, apesar de exaurido, foi logo revelar as fotos que havia sacado de sua amada em seu estúdio improvisado que havia montado na parte de trás de sua casa em Copacabana. O estúdio ficava após o corredor que dava na sala de Armas e troféus. André tinha o gosto muito apurado para diferente tipos de hobbies. Gostava de fotos e de armas, de caça e de atirar. Tão logo terminado o processo de revelação, pendurou as fotos de sua nova conquista em seu quarto, para que pudesse olhar, admirar e se inspirar sempre naquela estonteante beleza. Pendurou-as, tirou sua roupa, tomou um banho quente, colocou um roupão, e ainda que exaurido e todo quebrado, lembrou-se, antes de dormir, de pegar o caderno com o nome e endereço. Olhou mais uma vez o nome dela e suspirou mais uma vez para si mesmo... “Liiiizzzz”... e apagou. Ao despertar, começou imediatamente a desenvolver o seu plano. Escreveu a primeira carta para Liz, se dirigiu ao seu endereço, depositou na caixa de correios, e se foi. A carta dizia assim:
- “Por ‘amor’, se faz loucuras. Te vi, te quis, e não sabia o que fazer. Me disfarcei de fotógrafo... fiquei muito feliz em te conhecer. Me desculpe, Liz, mas não me culpe. O meu maior pecado foi te querer”. Liz, ao ler os pequenos versos, sentiu muita raiva, sentiu-se enganada, achou que André era um idiota, mas alguma parte daquilo lhe contentava e lhe excitava. Seria a audácia daquele homem? Ou sua bela figura e seu belo sorriso? Sentiu-se um pouco confusa, mas rasgou e jogou fora a carta enviada. Passou-se um dia, dois, três, uma semana, e nada de resposta. Ainda assim, André ostentava um largo sorriso estampado em seu rosto. Sabia que isso aconteceria, conhecia os jogos do amor. Sabia que a primeira reação seria o desprezo, mas sabia que a carte afetaria Liz. André não estava disposto a desistir, e não desistiria, pois sabia que a insistência, os elogios e a ousadia, acabariam por dobrar o desprezo de Liz e transformá-lo em paixão e desejo. Escreveu uma outra carta, e outras três mais durante três semanas seguidas, até que na quarta recebeu uma resposta: “Não me escreva mais, tenho namorado. Seus versos são muito bonitos, mas não servem para mim. Como você pode gostar de mim sem sequer me conhecer?”. Liz estava insegura, e André sentia. Seu namoro já não parecia tão bom. Seu namorado já não lhe reparava mais, não lhe cortejava. O amor já não era mais cultivado. Já não sentia mais desejo, já não via mais graça, pensava se deveria acabar ou não... e pensava em André. Ele tinha tudo que ela agora tanto queria, amor, desejo, paixão, novidade, excitação. Queria conhecê-lo, mas não queria dar o braço a torcer. E André sentia isso. Após algumas outras respostas em tom de rejeição, André escreveu-lhe mais uma carta, dando a Liz um suposto ultimato:
- “Se você realmente não me quer, por que me responde? Vou estar hoje à noite, às 23:00 horas, na beira da praia, em frente ao posto, esperando por você. Se você não aparecer, pode deixar que eu nunca mais vou lhe procurar, nem você vai mais vai ouvir falar de mim”.
Tudo mentira. Ele a procuraria ainda tantas vezes quantas fossem necessárias, pois acreditava que iria acontecer. Se arrumou todo, vestiu uma calça branca, dobrada até o início da canela, com uma camisa de botão da mesma cor. Colocou uma sandália, reforçou o perfume, ajeitou o cabelo com seu inseparável gel e saiu, esperançoso. Se posicionou em frente ao local combinado com uma única rosa vermelha na mão... e esperou. Era noite de lua cheia. 22:30h... nervosismo, será que ela vêm? Será que é pontual, ou costuma se atrasar? Até que horas devo esperar? E quando ela chegar, o que fazer? Dou-lhe diretamente um beijo de matar, ou faço doce, abraço-a, entrego a rosa e espero para ver? Todas essa perguntas martelavam a cabeça de André. Quando voltou desse turbilhão de pensamentos, André se deu conta de que já era 23:30h, e nada de Liz. Desapontou-se e enfraqueceram-se as esperanças. Teve raiva. Quis despedaçar a rosa, mas esperou... ainda tinha uma pontinha de confiança no seu taco. À exata meia-noite, desistiu. Olhou uma última vez para aquela praia e aquele mar, como a eterna lembrança de uma noite que nunca acontecera, deu as costas para a paisagem e começou a caminhar. Dois ou três passos depois, escutou uma voz rouca e fraca que vinha da direção esquerda:
- Andreée... Era Liz! À meia-noite, a gata borralheira virou princesa. Estava linda, com seus lindos cabelos soltos ao vento e o seu perfeito rosto iluminado pela luz da lua-cheia. Vestia um vestido longo e solto de renda branca, e tudo parecia que havia sido preparado nos mínimos detalhes pelo cupido. André jogou no chão a rosa que lhe havia trazido e correu com ferocidade em sua direção. Ela não resistiu e entregou-se ao seu amado. Deram o maior beijo que já se viu. Forte e ao mesmo tempo delicado, instintivo e ao mesmo tempo amoroso, uma mistura entre a animalesca vontade de se possuírem e o enorme sentimento de doçura, carinho e ternura que sentiam. Enquanto davam o primeiro e mais marcante beijo de suas histórias, escutaram uma bossa, à época famosa, que vinha de um bar em frente ao local onde estavam, e que dizia assim:
Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar; Ai, que bom que isso é, meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar; Mas se a luz dos olhos teus resiste aos olhos meus só pra me provocar; Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar; Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos meus já não pode esperar; Quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus sem mais larirurá; Pela luz dos olhos teus eu acho, meu amor e só se pode achar; Que a luz dos olhos meus precisa se casar(Vinícius de Moraes)
Aquela virou a música de André e Liz. Passearam por toda a praia, de mãos dadas, esbanjando uma alegria estampável e contagiante. Diz-se que, ainda depois de muitos anos, muitas pessoas que trabalhavam nos bares e freqüentavam aquela parte da praia continuavam a se lembrar e a comentar a estória e o provável destino daquele anônimo casal, que na madrugada de uma sexta-feira de lua cheia, protagonizou as mais belas cenas de amor e romance que já se vira por ali. Tudo era vermelho-paixão.
Parte 3 – Do Relacionamento
Passada a fase da conquista, tudo ia bem entre André e Liz. Jovens igualmente belos, inteligentes, divertidos, autênticos, formavam um par que reunia o melhor do que poderia existir em um homem e uma mulher. Em pouco tempo e na vanguarda de seu tempo, decidiram morar juntos, no apartamento de André, que possuía área suficiente para os dois. Destruiu-se a antiga sala de troféus e armas para aumentar o quarto e fazer uma enorme suíte. O antigo estúdio de fotografia havia se transformado em uma sala de cinema, onde passavam horas e horas abraçados, vendo diversos tipos de filmes, programas e outras coisas, na maioria das vezes comédias românticas ou escrachadas. No lugar havia agora um toque feminino que tornava-o ainda mais caloroso e aconchegante. André costumava acordar mais cedo para ir ao trabalho e frequentemente costumava deixar para Liz bilhetinhos românticos e bandejas com o desjejum (“Meia-alma reconhece quando encontra sua metade. Estou completo, já achei a minha metade!”). Juntos, eles planejavam e realizavam os mais diferentes tipos de programas. Mergulharam no Taiti, visitaram a Europa, andaram de bicicleta por Paris, fizeram amor em noite de lua na praia de Bora-Bora. Viviam um para o outro, grudados, o tempo todo juntos. Os amigos de André, principalmente Carlos, o mais radical, machista e egoísta de todos, caçoavam dele, chamavam-o de o ex-bohêmio, de dominado, e esses todos outros apelidos que os homens se tratam quando se deparam com um amigo que está apaixonado. A par disso, após seis meses de intensa paixão, André também sentia um pouco de falta de seus amigos, de conversar conversa de homem, tomar cerveja, falar putaria, trocar segredos, falar mal de quem quer ou do que quer que seja. Por mais que aquela mulher o tivesse fazendo feliz como nunca houvera sido em sua vida, começou a achar que havia mudado demais, que não se reconhecia. Pensou que isso não era correto. Assentou na sua cabeça a idéia de voltar atrás.
Vez ou outra, então, costumava tomar uma cerveja com os amigos. Primeiro avisava, depois passou a ir escondido, pois dava-lhe maior excitação e sensação de poder, liberdade e independência. Sempre dava alguma desculpa esfarrapada que Liz não comprava, mas que aceitava, porque até então ainda confiava no seu amado. Pouco tempo depois e André já havia desenvolvido uma dupla personalidade: por um lado, ainda se achava muito apaixonado, vinculado e agradecido à única mulher com quem ele conseguira ter tido um relacionamento de verdade. Amava-a, não tinha dúvidas que era a mulher da vida dele. Por outro lado, quando saia com seus amigos, despertava nele o espírito saudosista e aventureiro do antigo Don Juan de outrora. Queria aventuras, mais emoção, novas conquistas, novas mulheres, mais festas, mais bebidas, mais estórias para contar. Estava enfadado em se limitar apenas a tomar algumas cervejas e outros tragos de bebida com seus amigos, sendo que não sabia como levar a cabo o seu desejo sem ser pego ou percebido, afinal de contas, dentro do pequeno círculo da alta sociedade carioca de que participava todos se conheciam, e em reconhecendo-se o traidor, conhece-se da traição.
O plano ideal surgiu certo dia, quando André deixava a quadra de tênis do Jockey Clube do Rio de Janeiro, e veio inspirado naquilo que André conhecia melhor: as mulheres. André e seus amigos deixavam o clube quando, ao passar pela entrada, viram uma linda mulher, daquele estilo arrasa quarteirão. Era morena, de cabelos longos e pretos e vestia um vestido vermelho encardido e comprido, até os pés, que ressaltava suas perfeitas e voluptuosas curvas brasileiras. Seu batom era igualmente “rouge” e destacado, e delineava e toneava perfeitamente sua boca grande e seus carnudos lábios. Possuía tanta luz ao seu redor que todo o cenário parecia cinza, só se percebia aquela linda morena naquele destacado vestido vermelho. Ao passarem por ela, sentiram o aroma de perfumes florais. Todos seus amigos repararam na mulher e se limitaram a tecer inúmeros comentários clichês do tipo “que gostosa!”, "bixa boa"!. André, com seu olhar de caçador e mulherólogo, viu mais. Olhou para o homem que acompanhava tal mulher, pois achava que conhecendo o gosto de suas pretendentes e o estilo e as qualidades de seus concorrentes, poderia conhecer e se aperfeiçoar cada vez mais na arte de amar. Foi só bater os olhos no homem que a acompanhava que a idéia estalou. “Um gringo!”, disse André, em tom de surpresa e descoberta. O rapaz que acompanhava a bela morena era um típico estrangeiro milionário, daqueles que ninguém conhece de onde veio, nem sabe muito menos quem ele é. Sobre eles só se sabe que vêm com muito dinheiro e presentes, atraem as mulheres e possuem e têm o que querem. A partir desse estalo, consolidou-se em André a personalidade do farrista, que agora sobrepujava a do romântico apaixonado. Surgiu a figura do alter-ego perfeito; voltou-se à época do farrista e boêmio inveterado, sendo que com roupagem, sotaque e nome diferente. Diretamente dos Estados Unidos da América, surgiu o americano com a maior ginga e o melhor suingue que já se viu, “Mr. Wayne”! Para incorporar o personagem, André comprou algumas camisas de botão que vestia entreabertas sobre outros blazeres que também adquiriu. Lustrou seus sapatos, tirou do armário um velho chapéu e um par de óculos Ray-Ban. Vestia-se assim toda vida que queria farrear. É o plano era o seguinte: Carlos e seus outros amigos mulherengos faziam o papel de convidar as mais belas jovens que existia no Rio de Janeiro para uma festa fechada que acontecia em diferentes lugares da cidade. Diziam que a festa era de um milionário americano amigo deles. As reuniões ocorriam numa média de quinze dias. Em troca do trabalho de seus amigos, André custeava toda a festa, a bebida, os champagnes estourados, a música, decoração e bandas que tocavam nessas festas privadas. Duas ou três festas depois, Mr. Wayne já era o maior sucesso! Era o gringo mais brasileiro que se conhecia. Ele tinha intimidade com as mulheres, sabia fazer o jogo da sedução, era sensual, espontâneo, natural. Dançava muito bem, e falava um português tão perfeito que às vezes parecia brasileiro. Tudo isso, aliado à sua bela figura e largo sorriso, fez com que todas as mulheres se dobrassem aos seus pés. Ficou conhecido na cidade. Era uma espécie de celebridade America, um quase ator de Hollywood. Passou a colecionar mulheres, de todos os diferentes tipos: loiras, morenas, ruivas, mulatas, sempre se deitava com uma diferente e nessa hora pensava: - Isso é que é vida! Para André foram dias felizes. Achava que finalmente tinha encontrado um jeito de dosar o amor que sentia por Liz, com a paixão e a vontade incansável que tinha de farrear, beber e conhecer outras e cada vez mais mulheres. Tinha achado o equilíbrio, o meio termo, sendo que no coração e na cabeça de Liz não se passava a mesma impressão, senão o contrário. Sentia-se cada vez mais só. Assim como o seu antigo herói, Hércules, André também havia se transformado em vilão. Andava sempre cansado, de mau-humor, chateado, irritado. Não queria mais fazer programas a dois. Estava sempre sem dinheiro, e gastava tanto dinheiro não se sabia com o quê. Havia perdido a criatividade, a espontaneidade, a vivacidade que tanto encantara a Liz. Quando estavam juntos, era apenas um zumbi que pairava ao seu lado, morto de cansado pelas farras que fazia e vivo apenas para se recuperar e planejar a próxima aventura. Liz então começou a cobrar-lhe atenção. Sentia sua falta, mas André, embebecido pelo desejo despertado de farrear e fortificado na sua filosofia de vida desgarrada não notava, ou achava que era besteira. Liz remoia-se de ciúme, amargura, mal-amor, insegurança, sendo que não sabia do quê. No início achava que era melhor não procurar o que não queria saber. Certo dia, não agüentou mais.
Era mais uma sexta-feira. Nos tempos bons, seguro que iriam fazer algum ótimo programa a dois, como sair com outros casais – O Léo e a Valéria, por exemplo – ele amigo de infância de André e ela amiga de longas datas de Liz, para beber e se divertirem. Sendo que não era mais assim. As sextas-feiras, agora, eram sozinhas e solitárias, encarceradas naquela escura e sombria casa sem vida. André inventou que havia sido marcada uma reunião extraordinária com uns investidores americanos em um Hotel em uma cidadezinha próxima, e que por isso, teria que passar o final de semana fora. Prometeu recompensar a sua amada, sendo que antes de esperá-la responder ou “autorizá-lo” a ir, já foi logo pegando sua enorme mochila que carregava e foi saindo. Esqueceu até de dar em Liz um beijo de despedida, quando ela tentou agarrá-lo para se despedir. Saiu em disparada. Liz, no início, engoliu de forma seca aquela desculpa esfarrapada. Ao sentar-se no sofá, sentiu-se triste e miserável. Os seus lábios tremiam de nervosismo e solidão enquanto seus olhos já se enchiam de lágrimas. Sentiu-se a figura mais patética e neurótica do mundo. Não suportava mais aquela situação e o pior, não se suportava mais. Resolveu, então, encarar. Encarar o desconhecido, o que quer que fosse. Não agüentava mais. Tomou aquela decisão como que por impulso. Impulso que André tinha dado para que ela tivesse chegado à beira do abismo de um ataque de nervos. Tomou rapidamente as chaves do carro e saiu em disparada. Seguiu de perto André enquanto este caminhava pela orla. Observou quando ele pegou um táxi. Rodou meia cidade atrás dele, entrando e saindo por entre cantos que nunca havia imaginado estar. Viu quando André saltou em frente ao prédio de Carlos e como cumprimentaram-se felizes e animados, animados com por quê?! A enorme bolsa que André carregava ainda era o maior mistério para ela. André subiu e em questão de minutos voltou, com umas roupas estranhas, um ar bacana e um sorriso malicioso no rosto?!?! Ajeitou o blazer e saiu com Carlos. A perseguição continuava. Liz estava tão envolvida naquele jogo que sequer se deu conta que já nem mais sentia toda aquela angústia e ressentimento de tão pouco tempo atrás. Estava um pouco melhor por ter tido a coragem de ter feito algo, tomado uma atitude. Os dois amigos saíram no porsche conversível de André, que Liz não sabia o que fazia na casa de Carlos. Seguiu-se a brincadeira de gato e rato. Umas dois curvas a mais para direita, outras três esquerdas e pronto, pararam na porta de um moderno e novo clube que havia perto do apartamento de Carlos. Para Liz havia se passado uma eternidade. André e seu amigo desceram, o manobrista tomou-lhes logo o veículo. Havia uma multidão de gente esperando por eles?!?! Várias mulheres?!?! André entrava, fantasiado de gringo, enquanto as mulheres agarravam-no, e os homens o cumprimentavam. Para Liz, nada daquilo fazia sentido, e ao mesmo tempo, já fazia. No fundo do seu insubconsciente, na sua cabeça, ela já sabia do que se tratava, só o seu coração que não lhe permitia ver. Ela estacionou o carro para tirar a estória a limpo. Estava nervosa, coração a mil.
Parte 4 – Da Traição.
Liz entrou no clube, anônima e deslocada, já procurando por André. Passou por pessoas estranhas, vestidas de diferentes formas e dançando à um som frenético que não conhecia. Na caminhada de sua busca, dois estranhos tentaram agarrá-la, sendo que ela não lhes deu sequer o cabimento. Continuava focada no seu objetivo. Pouco após entrar, avistou André num canto escuro de um camarote que havia na parte de cima do clube, à esquerda. Ao tentar subir as escadas do camarote, porém, foi parada pelo segurança que lhe perguntou:
- Está com quem, com o “Mister” Wayne? - “Mr. Wayne?!?!”, pensou Liz sem entender direito.
- Sim, sou amiga do Mr. Wayne – respondeu rapidamente numa improvisação não perceptível.
- Pode subir, disse o armário preto, e Liz subiu. Aproximou-se lentamente de André... coração a mil, ansiedade, nervosismo, medo, alta dosagem de adrenalina. Estava com medo do que podia ver. Mil coisas se passaram pela cabeça dela naquele momento. Continuou aproximando-se, meio que sem jeito, ainda deslocada. Ao chegar mais perto, ouviu as risadas de umas quatro ou cinco mulheres que circulavam André e Carlos, o amigo machista. As mulheres pareciam um bando de abutres! Estavam em todos os cantos. Havia uma ao lado de André, que alisava-lhe o cabelo e dava-lhe algo pra beber; uma do lado de Carlos; uma escorada na parte de cima do sofá; uma sentada à beira de um mini-palco que havia dentro do camarote. Todas pareciam estar se divertindo... e muito! Carlos agarrava uma outra pelo pescoço, enquanto beijava-lhe o rosto incessantemente. André estava de costas. Liz chegou então numa tal distância - não tão perto porque se sentia ameaçada, e não tão longe que não pudesse ser vista e ouvida. Antes de falar, passou pela sua cabeça a idéia de desistir e voltar a sua antiga e depressiva vida, sendo que foi só uma reação involuntária de seu sistema nervoso. Já não havia mais volta. Tentou falar uma primeira vez, mas faltou-lhe a voz. Respirou fundo, usou todas as suas forças, sendo que o máximo que conseguiu foi um pequeno sussurro:
- Anddrréee. André levantou a cabeça e se virou sem sequer notar que alguém havia lhe chamado por seu verdadeiro nome. Ao virar o rosto, a mudança de reação: a um sorriso maroto e chapado que havia na sua cara sucedeu-se uma expressão de susto e aflição. Seus olhos se arregalaram. Seu chapéu caiu da cabeça. Havia uma listra de pó branco que emendava do nariz à perto de sua boca. Era mais um dos prazeres com que havia se acostumado, a cocaína. Apesar de chapado, ao ver Liz, de uma hora para outro estava sóbrio e lúcido, porém, parecia que havia visto um fantasma. Ficou tão branco como o pó que havia no seu rosto. Ele e ela permaneceram parados. Parecia que estavam em um certo tipo de transe. Não notaram mais nada do que estava ao redor, nem a música, nem as pessoas, nem a festa, e nem a imensa e densa névoa de fumaça e cheiro de cigarro que preenchia o ar que respiravam. Todos em volta repararam naquela cena e também se espantaram e se calaram. Carlos, o único que já sabia de toda a farsa e conhecia os personagens, passou a mão na cara e pensou consigo mesmo “Ih, deu merda!”. Liz continuava ali, paralisada, parada, inerte. Esperava alguma coisa, alguma explicação, por mais absurda que fosse, quem sabe até a idéia de que tudo aquilo era uma pegadinha, uma festa surpresa que tinha sido armada por André durante um forçoso e penoso trabalho de meses e meses de rejeição. Ainda queria se iludir, acreditar naquele seu amor antes inabalável. Ao voltar à realidade após o seu sonho na terra do nunca, começou a sentir raiva, angústia, abatimento. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela começava a dar os sinais de que iria chorar. Segurou o máximo que pôde, pois não queria se mostrar fraca e vulnerável na frente de outros. Era humilhação em dobro. Por um momento, sentiu muita raiva de André. Que falta de respeito! Que falta de consideração! Que traição! Queria chamá-lo de canalha, safado, cafajeste, canastrão, o que fosse, sendo que não tinha forças nem condições, não naquele momento. Ao perceber isso, voltou-lhe o abatimento, a depressão. Não segurou mais. Começou a chorar. Sua ação conseguiu despertar André de seu transe. Não disse nada, apenas pensou em ir à seu encontro. Quando André intentou se levantar, Liz se virou chorando e saiu correndo, fugindo daquela cena deplorável. Fez todo o trajeto de saída da boate chorando, desesperada e apavorada, não só com o que havia visto, mas com toda aquela cena gótica de centenas de pessoas em êxtase, com aquela música bate-estaca horrivelmente ensurdecedora, com aquelas luzes coloridas que lhe cegavam, com aquele bacanal que contrastava com sua miserabilidade e cara de choro. Ao menos extravasou. Chorou e chorou, empurrou as pessoas e lutou para sair daquele lugar que lhe dava arrepios de angústia. Voltou todo o caminho do carro chorando, dirigindo como uma louca e pensando em tudo que havia se passado, em toda a história deles. Passou-se um filme desordenado sobre os dois por dentro de sua cabeça. Buscou explicações, causas, motivos para o acontecimento daquilo tudo. Queria saber aonde é que tinha errado, o que precisava melhorar, aonde foi o seu pecado. Chegou em casa (na casa de André) exaurida. Não sabia o que fazer. Jogou as chaves do carro em cima do centro de mesa que ficava ao lado da porta, deitou-se do jeito que estava no sofá, encolheu-se toda, procurando conforto e consolação consigo mesmo e dormiu... se entregou ao cansaço. Ela não tinha para onde ir.
Parte 5 - Do Perdão e da Reincidência.
André chegou em casa ao meio-dia do dia seguinte ao ocorrido. Estava afoito, nervoso, inquieto. Não havia continuado farreando, e só não tinha chegado antes porque não sabia o que fazer e com que cara encarar Liz. Ao chegar, viu que Liz estava encaixotando suas coisas. Ao que parecia, estava saindo de casa. Desesperou-se:
- Aonde você vai?
- Estou indo embora, não está vendo? Vou voltar para a casa da minha mãe.
- Para a casa da sua mãe?!?! Não tem cabimento, Liz, você, uma mulher de 28 anos, voltar pra casa da sua mãe.
- O que não tem cabimento é você fazer o que fez comigo, André. Acabou - Aquela frase caiu como um raio no coração de Liz e de André. Em André porque sentiu que a situação estava muito ruim, e que podia ter perdido a mulher da vida dele por sua exclusiva culpa, e para Liz porque era a constatação de algo que ela não queria ver, estava despejando a frase que não queria que ter de falar.
- Como assim, acabou, você não vai nem conversar comigo?
- Não, a gente não tem nada pra conversar – disse Liz já se dirigindo à saída da casa com suas pequenas e poucas caixas e coisas. Ela aparentava portar uma força e uma frieza incríveis.
- Não, você não vai embora da minha vida assim – disse André, ao mesmo tempo que, com a mesma impulsividade que lhe levava a farrear e a fazer quase tudo na vida, trancou a porta da saída e jogou a chave pela janela.
- Seu louco! – Disse Liz. – Agora como é que eu faço pra sair daqui?!?! – completou.
- Essa é a idéia. Você só sai daqui quando a gente resolver o nosso problema, seja por bem ou por mal.
- A gente não tem mais problema, porque não tem mais nada. Você foi um cafajeste comigo, me traiu, escondeu tudo que tava passando de mim, me deixou sozinha, na lama, por tempo demais. Eu fiz de tudo por você e por nós dois, eu me esforcei para ser a namorada que você queria, escutei coisas que não queria, fingi me interessar por assuntos que não me interessavam, procurei lhe conhecer, conhecer sua família, me dei bem com todos seus amigos. Me dei e me dou bem com todo mundo. Todo mundo gosta de mim, diz que eu sou a mulher certa pra você. Que eu lhe coloco pra frente. Eu terminei um namoro por causa de você. E você, o que fez por mim? Me chifrou, me traiu, me abandonou, me magoou, só isso. Você é um filho da puta que só pensa em você. O ser humano mais egoísta que eu conheço, eu te odeio! - E então Liz, desenganada da última frase que disse, começou a chorar, e a chorar, e a chorar... Ruiu-se sua aparente força e frieza. Ela batia em André enquanto chorava, e ele abraçava-a, sentindo-se mal e sem saber o que fazer. Liz estava tão triste e tão cansada que desabou ao chão junto com André. Liz chorou por André em seus ombros. Ela não tinha mais ninguém, não tinha amigas, não falava mais dessas infantilidades do amor para os seus pais, André era seu único amigo. Horas e horas de choro depois, Liz dormiu nos ombros de André no chão da sala onde moravam. Enquanto dormia, André pensou muito e viu que não podia perder Liz, e que não deveria ter magoado-a tanto, e que estava muito errado, que iria melhorar e ser o bom companheiro que ela esperava e merecia. Estava certo e convencido de tudo que pensava e que iria dizer. Quando Liz despertou, ao olhar pra cima viu André, ainda abraçando-a e olhando para ela com uma paz e serenidade que lhe causou estranheza. Liz ameaçou falar, sendo que foi interrompida por André, que colocou-lhe o dedo sobre a boca e fez sinal para ela ficar quieta:
- Liz, meu amor, eu sei que errei com você, sei que fui infantil, imaturo, inconseqüente, impulsivo, e.t.c. Ainda assim, nunca duvide de meu amor por você. Eu sou um cara inteligente, e eu sei que se eu continuar assim, vou lhe perder para sempre, porém, eu acho que ainda não lhe perdi. Não diga que não me ama quando eu posso ver isso no seu olhar. Não diga que não vai sentir minha falta quando o que falta para nós dois é um ao outro. Não diga que quer me ver longe, quando eu sei que a sua felicidade é ao meu lado. Isso pode parecer demagogo, meloso, brega, mas é a forma que eu encontrei para tentar lhe mostrar que o nosso final não é agora. Deixe eu cuidar de você como um dia cuidei. Deixe eu tratar você como um dia lhe tratei... e não me deixe, eu sou só meio-homem sem você – Ao ouvir isso, Liz ficou um pouco surpresa, um pouco espantada, não esperava aquela reação, aquelas palavras lindas! Parecia estar de volta o cavaleiro andante e reluzente por quem Liz um dia se apaixonou. Ainda assim, ela estava muito magoada com tudo o que tinha acontecido. Não queria ir, mas também não queria dar o braço a torcer. Ela simplesmente não disse nada... e ficou.
Parte 6 – Onde a estória se inverte.
Passados os conflitos, tudo parecia estar bem entre Liz e André. André realmente se esforçou mais para ser um melhor companheiro. Estava mais atencioso, paciente, compreensivo, carinhoso. Estava fazendo o estilo do homem-perfeito. Liz estava satisfeita, sendo que nunca se esquecera do desenrolar dos fatos. Lá e cá sempre apontava um pouquinho de insegurança, de neura, sendo que André sempre fazia questão de acalmá-la e assegurá-la de que nada iria se repetir. Após a reconciliação e o medo da perda, a paixão voltou a bater à porta, sendo que com a estabilização das coisas, tudo ficou naquela velha e conhecida tranqüilidade-morosidade. André sabia o que havia prometido, mas a promessa já lhe parecia difícil demais de ser cumprida. Os amigos voltaram a chamá-lo para sair e farrear. No início André relutou, sendo que com um pouco mais de tempo de morosidade na relação e fogo no couro, não agüentava mais.
Como toda traição, começou no pensamento ocasional. Vez ou outra, André se pegava tentando bolar outro plano infalível, outra estratégia para conciliar seus dois amores: Liz e a Farra. Esses pensamentos ocasionais se tornaram mais freqüentes, de semanas passaram-se a dias, de minutos e segundos a horas, o tempo todo! Sempre se pegava pensando essas coisas, reparando outras mulheres, invejando jovens que passavam na rua bebendo e se divertindo. As mulheres pareciam mais bonitas, e como havia mulher bonita e solteira na cidade do Rio de Janeiro!!! Ao se acostumar e conviver com a idéia, o que antes era proibido já não parecia tão mal. Procurou argumentos para a idéia do diabo. Que isso é coisa de homem, é instintivo; que vez ou outra não faz mal; que é preciso para esquentar e manter uma relação. Toda noite André dormia com a farra que acontecia nos clubes e bares do Rio de Janeiro, que para ele se passava apenas no imaginário fértil de sua cabeça recostada no travesseiro. Ele se imaginava lá. Imaginava o que iria fazer, o que iria dizer, com quem ia ficar, o que iria beber, as estórias, as resenhas, os amigos, a música, jantares, risadas, mulheres. Esse turbilhão de pensamentos, pouco a pouco, se transformou em palavras e conversas com amigos. Voltaram as pequenas saídas e cervejadas. Liz relutou um pouco, no início, mas depois não insistiu. Aparentava confiar no companheiro. Com toda essa facilidade, não demorou para André voltar a trair, e em começando, não parou mais. Apesar de sair para farrear, André não descuidou de Liz, pois considerava ter sido seu maior erro na primeira vez em que foi pego. Continuou carinhoso, compreensivo, paciente. Achava que se proporcionasse tudo isso a Liz e não descuidasse nos detalhes, poderia realmente levar tudo no papo. A primeira farra que fez foi na casa de uns amigos. Bebeu muito e dormiu com a Carmen, a mesma loira gostosa de anos antes. Da primeira farra para a segunda teve um intervalo de dois meses. Da segunda para a terceira um mês. Da terceira em diante, quinze dias, dez dias, e a partir daí toda semana. Tudo voltou à mesma. Era o reinício de um ciclo, sendo que sem os blazeres brancos e o sotaque americano. Certo dia, após muitas e muitas semanas de farra, veio o deslize, inevitável quando se possui uma vida dupla. André deixou o celular à mostra e havia esquecido de apagar uma mensagem que recebera de Carmen e que dizia: “Foi muito gostoso passar a noite inteira com você”. Mensagem típica de biscate. Liz, em mais um de suas crises de insegurança, fuçou o celular de André e achou o que queria, ou o que não queria ver. Foi um escândalo! Baixaria, gritaria, briga, xingamentos, arremesso de copos e de pratos quebrados, e.t.c:
- Seu cachorro, você não toma jeito!!! – e lá se iam meia dúzia de copos e pratos.
- Você é um safado!!! Eu nunca mais quero olhar na sua cara de novo – Quebra o vaso do centro de mesa que haviam comprado juntos.
- Eu sou é muito burra de confiar num safado farrista como você!!! – lá se ia o cinzeiro.
- Eu ainda vou abandonar você, você vai ver – e... (silêncio) não se quebrou nada. Liz havia parado em frente a André, perto da porta. Não estava mais descontrolada, desequilibrada. Possuía feição e aspecto de fúria contida, de vingança guardada e já prometida. Não havia mais descontrole, só raiva canalizada. Não pareciam mais amantes, e sim inimigos. Após ameaçar André, Liz pegou sua bolsa e saiu de casa batendo forte a porta que ficava atrás. Nesse momento André sentiu muito medo. A promessa de sua amada não parecia obra do calor da emoção, mas de profecia anunciada. Sentiu-se só.
Parte 7 – Sonhos e segredos secretos
Ao desesperar-se, André fez novamente uso de sua infalível lábia, lágrimas e carinho. Liz voltou à casa na manhã do dia seguinte. André já havia preparado algumas surpresas e linhas infalíveis para conseguir o perdão de sua amada. Estava realmente arrependido. Não do que havia feito, mas por causa da sensação de perda e solidão que sentia. Estava inseguro pela imagem daquela última cena de sua amada ameaçando-lhe tão seriamente. Acreditou nas palavras que balbuciaram de sua boca, e tinha razão para tanto. Ao deparar-se com Liz, ela estava visivelmente chateada, porém estava calma e tranqüila, segura. Mal André começou a pronunciar o seu discurso de recuperação e ela já disse:
- Tá tudo bem, André, eu entendo e lhe perdôo e a gente vai resolver isso. André, como não era burro, não acreditou em nenhuma palavra que saíra da boca de sua amada, mas na sua concepção – como na maioria dos amantes, era melhor estar perto, ainda quando não querido, do que definitivamente longe e esquecido. Achava que com o tempo e com seus truques, com seu traquejo com as mulheres, poderia reconquistá-la. Ainda se confiava, sendo que Liz estava muito mudada. Já não ligava mais para as saídas de André, ou para as “reuniões” até tarde. Estava menos ciumenta. André procurou algumas vezes causar-lhe sensações de ciúme, para ver se abalava ou reacendia o fogo da paixão que ele via que andava quase apagado. Lá e cá dizia que alguma mulher tinha dado em cima dele, que tinham lhe elogiado, mas Liz não reagia, dizia-lhe apenas um simples:
- Foi mesmo?! Tome cuidado.
Ela continuou a portar o ar de indiferença que adquiriu naquela noite em que saiu de casa. Andava sempre com a sombra suspeita da vingança sobre sua cabeça. Não prestava mais atenção em André. Passou a descuidar dos cuidados da casa, que ficou um pouco abandonada. André, contudo, manteve-se no papel de marido-perfeito-atencioso e agora, caseiro. Ficava sempre em casa, preparando uma surpresa para sua mulher. Continuava a sentir-se ameaçado, mal-querido, só. Ligava muito para Liz, queria sua atenção, sendo que ela nem sempre atendia o celular. Quando demonstrava muita atenção, perguntava para onde André estava indo, e dava-lhe alguma recomendação do tipo “Não vá beber muito”, ou “Cuidado com a vida”, emendado por um chocho “Eu te amo”! André se animava com aquele pouco de misericórdia que lhe era dado. Era a esperança que necessitava para pensar que as coisas poderiam mudar. Pobre amante, como qualquer outro, somente enxerga o que quer ver.
No próximo passo, Liz não passou a sequer perguntar algo, e por fim, já não estava mais em casa quando André estava de saída. Havia arranjado um grupo de amigas para se divertir, ao invés de se limitar à antiga e velha rotina de ficar em casa preocupada e neurótica. Seu “grupo” geralmente se reunia nas “sextas-feira”. André só percebeu isso quando havia planejado um jantar romântico para o dia apontado. Chegou em casa do trabalho e chamou por Liz, sendo que ela já não mais estava lá:
- Liz... meu amor, eu já cheguei e tenho surpresas... (silêncio) Liz, cadê você?!... Ta se escondendo ou ta dormindo?!?! ... Liz?!... Lizinha... Amor da minha vida?!?!... Após inúmeros apelos, percebeu que todas as luzes – menos a do quarto – estavam apagadas. Ao se dirigir ao cômodo, viu por entre a frecha de claridade que saia da porta entreaberta do banheiro, que havia um monte de roupas reviradas em cima da cama. Ao que parecia, Liz havia passado a tarde procurando algo para vestir à noite. Ao constatar isso, André novamente sentiu-se desprezado. Parecia que não havia mais ninguém que se preocupasse com ele, que sentisse sua falta e lhe quisesse ao seu lado. Se morresse ali, naquele dia e naquela hora, era capaz que as pessoas só notassem sua falta dois ou três dias depois, quando o cheiro insuportável de carne putrefada mandasse o recado aos vizinhos. Sentiu-se mal, mas não desistia, iria até o fim.
O ritmo das saídas de Liz continuava a aumentar na mesma proporção em que diminuía a atenção e o carinho que dispensava à André. André começou a reparar que sempre que saía, bebia, e chegava em casa, no mínimo, um pouco alterada. Algumas vezes chegou em casa realmente bêbada, do tipo de que necessitava da ajuda de André para poder entrar em casa, tomar um banho e deitar na cama. André fez isso por ela todas às vezes. Tomava-lhe pelo braço e apoiava-lhe no ombro, dava-lhe um banho e deitava-lhe carinhosamente na cama, de robe, enquanto ela imergia num estado incrivelmente profundo dos seus sonhos e pesadelos secretos. No outro dia, André não lhe perguntava nada nem ela lhe esclarecia. Fingiam que nada havia acontecido. Certa vez, enquanto colocava a sua amada Liz para dormir, ela, num súbito e repentino surto de lucidez, puxou-lhe contra o seu corpo seminu, coberto apenas por seu robe, e disse-lhe:
- Venha, eu quero você!
André ficou surpreso e animado, pois fazia muito tempo que não transavam, e respondeu-lhe:
- Meu amor, Liz, eu também te quero, você vai ser para sempre ser a minha Liz, e eu, para sempre o seu André.
- André?! André, não, você não, André – emendou, empurrando o seu desafeto e imergindo em seu profundo sono, enquanto acordado, e triste e só, ainda restava um André. Tristeza.
Parte 8 – Tempos de solidão.
No dia 26 de abril do ano corrente André e Liz completariam cinco anos de relacionamento e desentendimentos. A data deveria ser especial para ambos, sendo que naquele momento, só a André importava. Era capaz de Liz nem sequer se lembrar, se não fosse as constantes lembranças e avisos por parte do seu ex-amado. André estava tentando a sua cartada final: havia programado uma viagem a dois para uma ilha deserta e paradisíaca na Tailândia; ia ser somente os dois, numa ilha deserta, durante o tempo necessário para resolverem os seus problemas e reacenderem-se os seus amores. Não seria possível que num local deserto, onde estivessem apenas os dois, que não conversassem. Nem que fosse primeiro para brigar, se matar, chorar, uma hora ou outra iam ter que se comunicar de verdade. Era isso ou a loucura, e era o plano de André. Conseguiu convencer Liz, a duras penas, a embarcar nessa furada. Já havia preparado e arrumado tudo, inclusive as malas. O avião saía à meia noite da virada do dia 25 para o dia 26. No dia do aniversário do casal, André havia planejado um jantar romântico na varanda do resort que dava de frente para a fantástica vista da praia. Havia sido combinado o seguinte: André sairia do trabalho às 19:00 horas, iria em casa rapidamente para pegar as malas do casal e se dirigiria ao aeroporto. Liz, que também trabalhava até tarde, apenas teria o trabalho de se encontrar com André no saguão, e depois disso, vôo.
André saiu um pouco mais cedo do trabalho, às 18:50h. Correu em casa, pegou as malas alegremente, chamou um táxi e saiu. Ostentava o mesmo sorriso de tempos atrás. Estava alegre e confiante em seu plano. Chegou ao aeroporto às 19:30, rapidamente tirou as malas, fez o check-in e às 20:20 estava tudo pronto... “pronto, agora é só esperar Liz”, pensou. 20:30... nada... André já estava ansioso, porém não preocupado... 21:00... “Cadê ela?! Deve ter se atrasado no trânsito”... 21:30... “Poxa, que demora da porra, eu acho q vou ligar”... 22:00h... não atendeu o telefone. “Não atendo o telefone, como assim?!?!”. André buscou se informar no aeroporto para ver se tinha acontecido algo, se havia um grande engarrafamento ou se bloquearam alguma rua... nada. 22:30... “Ela não vem!”... 23:00h, ele ligou novamente e nada dela atender, “O embarque já é agora!”. André se desesperou. Já previa o resultado dos acontecimentos. Mas porque ela não viria?! Porque?!
André se iludia e ainda não via o que estava o tempo todo escancarado à sua cara. Em um momento de lucidez, ou então de mais humilhação, teve a idéia de ligar para Liz de outro número. Poderia dar certo. Foi rapidamente à banca de jornais que havia no aeroporto, comprou algumas moedas e tentou. Primeiro toque... nada; segundo toque... não responde; Terceiro toque:
- (Muito barulho) Alô?! Alô?! – “Ela atendeu!!! Safada, não queria me atender! Rapariga! Puta!”. Só em seus pensamentos André proferia aqueles xingamentos que tanto queria dizer, pois sua boca ainda pronunciava as palavras de desespero e submissão de quem não queria perder aquela mulher e ainda por cima, ter de viajar só.
- Liz, cadê você, Liz?!?! Já está na hora do embarque... venha embora logo!!!
- (barulho e silêncio por alguns eternos- segundos)... Quem é?!?! (Voz alterada).
- É o Andr... (telefone desligado).
- Desligou?!?! Eu não acredito nessa rapariga, rampeira!!!! Sua puta safada e vazia!!! - Finalmente teve coragem de falar o que sentia, não para Liz, mas para o telefone mudo e fora do gancho, e para as dezenas de pessoas que passavam pelo telefone público e se espantavam com aquela cena de desequilíbrio e descontrole.
- Eu vou ligar para ela e vou dar uma mega esculhambação! – E ligou novamente... telefone desligado. André teve um acesso de raiva e loucura. Bateu o telefone no gancho, ligou outras vinte e cinco vezes, e em todas elas, ouviu a secretária dizer que “esse telefone está temporariamente desligado ou fora da área de serviço”. Depois da vigésima quinta vez, desistiu. Às 23:45 do dia 25 de abril do corrente ano, embarcou sozinho, puto da vida e doido para fazer algo. Se prometeu que quando chegasse lá iria tomar a maior cachaça que já havia tomado em sua vida, e que iria fazer a maior farra de todos os tempos, nem que para isso tivesse que gastar todo o seu dinheiro. Colocou na cabeça a idéia de que, quando voltasse, já iria ter esquecido Liz. Mais um pouco de tempo de espera e de vôo, e sua raiva e recente determinação já haviam passado. Sentou-se sozinho numa cadeira na janela, encolheu-se, recostou a cabeça no vidro do avião e ficou lá. Enquanto voava, sua vida inteira se passava pela sua cabeça... o que tinha feito, o que havia almejado e alcançado. Se lembrou da trajetória que havia elaborado para sua vida, e teve a infeliz constatação de que o rumo da sua vida havia se desvirtuado de seus planos. Em todos os seus pensamentos estava Liz, desde os mais remotos tempos de sua infância até a mais alta idade de sua velhice. Era como se ela fosse desde sempre um personagem que habitasse a sua vida e seus pensamentos. Suas vidas pareciam indissociáveis, e por mais que tentasse, não conseguia sentir raiva dela. Em várias oportunidades chorou, porém discretamente, para não ser percebido e notado. Queria manter a sua imagem de homem forte.
Ao chegar à ilha, a expressão de loucura e frenesi havia sido substituída por a de um homem deprimido e acabado. Já havia passado muito tempo pensando sobre si mesmo no avião. Quatorze horas de vôo. Estava cansado. Parecia um morto-vivo, não modificava a expressão de desânimo e pesar. Recolheu suas malas e saiu, carregando-as com aqueles braços esticados, aquela postura ereta e o seu olhar e sua expressão fugaz e fugitivo. Mirava sempre o horizonte, e nunca mirava nada. Ao chegar no resort, mal falou. Ao perguntarem-lhe pela reserva apenas disse: - André Camacho. Levaram-no até o quarto, e que suíte! Era uma mistura do moderno com o exótico. Ao entrar, podia-se ver uma sala de estar redonda, que ficava ao centro e abaixo do nível do restante do imóvel, toda coberta por plantas e flores tropicais. Um pouco à direita, uma enorme cama de casal feita toda em bambu e fibra de carnaúba, e ao seu lado, um enorme banheiro duplo de porta de vidro transparente, no qual na parte de trás havia uma sauna. Lembrava um pouco um quarto de motel. A vista da suíte era formada por uma enorme parede de vidro trabalhado e transparente, que emergia do chão e chegava até o teto. Do alto dessa enorme e imponente parede de vidro e do quarto do resort, que ficava sobre uma enorme falésia que existia, podia-se ver, lá embaixo, um agitado mar quebrando-se em ondas sobre as pedras, e a paisagem formada por pedras, falésias e vegetação nativa. Parecia-se estar diante de um precipício. Bem perto da janela de vidro, colocada a seu lado e de forma paralela, havia uma pequena mesa redonda feita de fibra de coqueiro trabalhada, e duas cadeiras ovais, do mesmo material, viradas uma de frente para a outra. Do lado esquerdo da cadeira esquerda havia um suporte metálico onde havia um balde de gelo e uma bela e grande garrafa de champagne Chadornay. Sob a toalha branca que cobria a mesa havia duas velas, já acesas, e dois pratos quentes e recém-chegados de massa e especiarias tailandesas. Ao ver toda aquela cena que havia ordenado, André largou as malas, tirou uma roupa e foi tomar um banho, com muita calma e serenidade. Parecia estar em um outro tipo de transe, mais forte do que o de anos atrás, permanente. Tomou seu banho e trocou a roupa. Colocou uma camisa branca de manga longa, listras finas azuis e gola armada, junto com uma calça jeans clássica e um sapato preto, combinando com o relógio que havia comprado. Sentou-se calmamente à mesa. Puxou a cadeira, sentou-se, recolocou-a em seu lugar, puxou o guardanapo que estava à frente e posicionou-lhe calmamente em seu colo. Estourou a garrafa de champagne e preencheu pela metade as duas taças que havia. Antes de apanhar seus talheres, tirou algo do bolso, uma caixinha preta e pequenina que havia guardado. Colocou-a de frente ao lugar vazio que havia no outro lado da mesa e abriu-a. Dentro, um lindo e enorme anel de brilhantes que direcionava o lugar vazio que não havia sido ocupado. André levantou sua taça, fez um brinde com o vazio, recolocou a taça em seu lugar, abaixou a cabeça e comeu, tranquilamente, mas sem parar sequer um segundo. Pairava no ambiente um silêncio sepulcral. Não se escutava nada, nem mesmo o barulho dos garfos se batendo ou das deglutições de André. Após terminar o jantar, bebeu toda a garrafa de champagne que havia pedido, e outras três mais que acabou por pedir. Bebeu até apagar, com roupa e tudo, na enorme cama que havia em seu quarto. Acordou no outro dia com calor – não havia ligado o ar condicionado. A claridade que entrava pela enorme janela incomodava-lhe os olhos e doía-lhe a cabeça – não havia fechado as cortinas. Sua boca estava seca e amarga. Estava todo suado. Sua pele e seus cabelos estavam oleosos. Estava com a maior ressaca e dor de cabeça que já havia experimentado. Sentia-se mal.
Parte 9 – Do final dessa estória.
A semana inteira que André passou na Tailândia não significou nada. Parecia sempre estar num estado de transe, num limbo constante aonde a vida não passava nem se acabava, era como o “nada”. Não conheceu nenhuma praia famosa, não visitou os pontos turísticos, não foi a festas, não mergulhou nem farreou o quanto queria. Não saiu do hotel, senão um dia em que se dirigiu ao maior e mais isolado monte que havia na ilha. Chegando lá, virou-se à direção onde mais ou menos achava que estava o Brasil, e de lá, sozinho, gritou como um louco
- “Raaaaapppaaaaarrrriiiiiiiiigaaaaaaaaaaa” - bateu no peito, como que querendo arrancar de dentro de si o seu coração podre e inservível, consumido pela angústia e pela dor. Chorou muito, soluçou tanto que chegou a engasgar-se. Sofreu e clamou todas as mágoas que guardava por sua doce inimiga. Cantou algumas músicas e declamou alguns versos em tons tão melancólicos que poderia fazer chorar e entristecer até a mais alegre alma que passasse por ali naquele momento. Voltou para o hotel quando já era bem tarde da noite. Desceu o caminho da serra, por entre a mata fechada e a estrada de barro, sozinho, somente acompanhado pelos vaga-lumes que iluminavam a noite e pelo barulho das cigarras que cantavam a sua marcha fúnebre. Ao chegar no hotel, já postava novamente o seu ar de desânimo e melancolia. Após Alguns dias, se socializou à noite e saiu para beber no bar, sendo que não falava nem respondia à ninguém, e geralmente, se embebedava até dormir, sozinho e deprimido, apoiado no balcão, sendo o último a sair, sempre carregado por funcionários do hotel. Na maioria das noites, se limitava a beber e curtir a sua dor sozinho, em seu quarto, bebia sempre até apagar. Não conheceu nenhuma mulher, a maioria achava estranho aquele homem sozinho e com cara de maluco, e as poucas que tentavam aproximação eram afastadas pela ignorância – no sentido de não falar. Muitos não se esqueceriam nunca daquele hóspede de estranha figura e olhar fugaz. O mais esquisito que já havia ido passar férias na Tailândia.
No vôo de volta, André já nem pensava mais nada, só vez ou outra que o nome e a imagem de Liz lhe vinham à cabeça, mas na maioria do tempo, estava com seus pensamentos vazios. Um pouco antes de chegar, quis mais uma vez se iludir, e pensou, “quem sabe ela vai estar lá no aeroporto, e vai me pegar?!”. Não estava. Não havia ninguém, como não queria supor. Ao chegar em casa, percebeu pela entrada que sua residência havia sido abandonada durante todo o tempo em que esteve viajando. Ao entrar, viu a grama da entrada alta e as plantas secas e murchas – não haviam sido regadas. Entrou na sala e estava quase tudo vazio. Os móveis maiores, o sofá, a poltrona, a estante, estavam lá, mas a decoração, as fotos, os presentes, os quadros, haviam sumido. Aquela sala estava tão vazia quanto a cabeça e o coração de André. Largou as malas, se dirigiu ao quarto. O guarda-roupa estava escancarado, e igualmente vazio. Liz havia levado tudo. Não havia deixado sequer uma camisa, uma calcinha, era seu sinal de que realmente havia ido para nunca mais voltar. A profecia então se cumpria. André não procurou saber notícias suas. Nunca realmente compreendeu o que ocorreu, e nem queria saber mais. O mais importante, já sabia. Vez ou outra, alguma notícia dela chegava até os seus ouvidos quando alguns de seus amigos lhe ligavam para animá-lo. De acordo com alguns, ela o havia traído com o mesmo Hércules de anos antes, que tinha voltado para dar o troco e fugir com Liz; outra versão é que Liz havia desenvolvido o vício pelas drogas e pelas festas, como seu ex-marido; outros, ainda, juravam que, por desilusão amorosa, Liz havia se revoltado e se prostituído. Juravam que a viam pela Avenida de Copacabana, toda emperiquitada e maquiada, transformada, irreconhecível. Liz virou uma lenda urbana, e sua estória com André se transformou, de um lindo romance, para o drama, e André nem sequer ligava mais. Não ligava para mais nada. Esqueceu o trabalho – havia mil e uma mensagens em sua secretária de seu escritório, mas não respondia. Os amigos ligavam, mas não, não queria sair, nem mais farrear. Sua casa estava uma bagunça, e à mesma medida que ela se deteriorava, o seu dono afundava junto. Parecia estar atolado numa areia movediça que puxava-o para baixo, e ele sequer reagia. Sua barba havia crescido, seu cabelo estava desgrenhado, desajeitado. Sua cabeça continuava vazia. Vez ou outra, bebia, e quando bebia demais, chorava, pensando na sua vida e numa outrora e já tão distante alegria. Carlos, seu amigo machista ligou certa vez, e lhe disse:
- Ô major, você tem que reagir, seja homem porra, mulher é assim, vai uma, vem outra, você pode pegar toda hora. Tentativa falha. Já não mais adiantava, não queria, e como já se dizia, “a cabeça vazia é a oficina do diabo”.
Certo dia, após meses e meses de depressão, acordou muito melancólico e saudosista. Já não tinha vontade de fazer mais nada, sua vida não valia. Era um lindo e ensolarado dia de verão, mas para ele, só mais um dia de trevas e escuridão. Resolveu beber logo cedo, pegou um velho whisky que ainda sobrara no seu bar já seco e desgarrado, e começou a beber, dose “cowboy”. Colocou uma cadeira de frente à porta de vidro que separava a sala da área de lazer e da piscina. Bebeu uma, duas, três doses, quando que pela fragilidade de seu fígado sempre etilizado, já estava bêbado. Pegou uma antiga caixa de cartas e lembranças do passado. Colocou sua antiga vitrola de vinil para tocar. Viu fotos do passado. Depois, passou a ler alguns papéis. Reconheceu-os. Eram as inúmeras cartas e poesias que havia escrito para Liz, sendo que agora, já não mais existiam cartas, versos e poesias de amor; eram apenas um amontoado de palavras sem qualquer significado, expressão ou sentimento. O que era eterno teve um fim, o infinito se acabou, como uma pequena e frágil chama. Sentiu-se triste mais uma vez ao se relembrar do amor que havia acabado de forma tão trágica. Tinha tudo para ser tão bonito. Se arrependeu mais uma vez, e amargamente, de não ter dado valor à sua mulher, de ter se entregado à farra, de ser assim. O seu jeito, a sua essência, havia sido sua tragédia e o seu coveiro. Lágrimas rolaram pelo seu rosto. Expressão de abatimento total. Pensamentos e expressão de loucura, desespero. Havia chegado ao seu limite, não agüentava mais tanta dor e tanto sofrimento por tanto tempo. Continuou a ver os documentos que havia. Deu outro gole na sua forte bebida e reparou a música que tocava. Ao ir passando os papéis, uma surpresa final: no fundo da caixa de presentes ainda havia uma antiga arma calibre .38 que guardara dos tempos em que se interessava por caça, armas e munição. Um impulso veio à sua mente. Abriu o tambor: havia apenas uma velha e corroída bala que provavelmente já não era mais servível. Se lembrou que havia guardado aquela arma para eventual necessidade, para segurança própria e de Liz. Fechou a arma, olhou-a por alguns segundos. Escutou algo que vinha da vitrola, uma música conhecida. Nesse momento, chorou forte, fez expressão de dor, posicionou a arma sobre a sua cabeça e disse, com a mesma expressão fugaz e fugitiva e o olhar fixo para o horizonte que já portava por tempo demais:
- Vamos ver que fim o destino reservou para mim. Disparou.
Por um momento, viu-se um enorme clarão e um ensurdecedor estrondo que preencheram toda aquela sala escura, protegida pelas cortinas e portas bem fechadas. Um segundo depois, silêncio... um corpo ao chão, e um rio de sangue. O néctar da vida esvaia-se do corpo semi-morto de André na mesma medida em que aquele rio de sangue se encorpava de seu líquido viscoso e vermelho-negro. O que antes era vermelho-roxo, vermelho-paixão, agora era vermelho-morto. Silêncio total... e ao fundo, apenas o baixo som de sua antiga vitrola que tocava uma música que dizia: “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar... Ai, que bom que isso é, Meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar... Mas se a luz dos olhos teus resiste aos olhos meus só pra me provocar... Meu amor, juro por deus me sinto incendiar...”
...
Dias depois, a morte de André foi anunciada aos seus vizinhos pelo cheiro podre e putrefato de sua carne em decomposição, como havia previsto anos antes. A polícia e os bombeiros foram chamados ao local. Uma nota saiu no jornal. Quilômetros e quilômetros de distância, em alguma parte do imenso Brasil, uma pessoa leu aquela pequena nota no jornal e não demonstrou qualquer tipo de reação. Nada sentiu. Era como se fosse um desconhecido.
FIM.
(Eduardo Dantas)
“Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais
Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar
Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar”
(Vinícius de Moraes)
“Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais
Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar
Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar”
(Vinícius de Moraes)
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