terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Em outros céus


O céu laranja esvaia-se apressado com o passar dos segundos, pelo menos isso parecia certo. A noite calada chegava rápido como se quisesse surpreender os mais reflexivos sentados à praia, como João.
Era um dia qualquer de janeiro em algum lugar da Oceania. Longe, muito longe de casa. João caminhava de volta para o hotel perseguido pelos mais diversos pensamentos, daqueles insistentes que nunca calam e vem acompanhados de desmedido estado de inquietude. Tinha como refúgio das suas próprias idéias inconclusas, a singela reflexão sobre a despretensiosa mudança sobrevinda a cada nova viagem. Tomou um susto quando uma voz terna exclamou não muito longe:
- Licença! Tem um minuto?
Era um velha senhora de aparência simples, suas vestimentas indicavam que mesmo não sendo indigente não tinha lá muitas condições. Mas seu olhar era doce, inofensivo e mesmo hesitante João caminhou em direção a ela.
- Pois não senhora.
Disse tomando uma certa distância que o fazia sentir-se mais seguro. A velha senhora de pronto respondeu:
- Notei que o jovem caminhava como se quisesse entender o mundo ou quem sabe que o mundo o entendesse, há tanta dúvida em seu olhar.
- Qual o seu nome rapaz?
Tudo aquilo era muito estranho para João, não fazia o menor sentido para ele ser abordado no meio da rua de um país longínquo, por uma senhora cujo interesse seria sabe lá Deus qual. Mas ainda assim respondeu em complacente tom:
- João, meu nome é João, senhora.
E assim, meio que por impulso e embaraço foi dando as costas e seguindo de volta seu caminho quando ouviu:
- Você gosta de poesia João?
João parou, aquilo soava ainda mais impróprio, voltou o olhar para a senhora que sorria o desarmando e respondeu:
- Não, não gosto de poesia, senhora. Dê-me licença, tenho de ir agora.
Ao virar de costas João indagou ao seu ocupado Eu por que cargas d’água deu conversa a uma velha que nunca viu na vida. E mais, seria notável o turbilhão de pensamentos que o assolava? Sentiu-se despido. Subiu ao quarto, tomou um banho demorado e leu o sonífero Camões até deixar-se abater pelo sono.
Rápida e placidamente correu a noite e logo já fazia uma bela manhã de verão. João caminhava no parque em frente ao hotel enquanto alguns liam ao sol. Nada parecia fora do lugar. Reparava os alegres bancos cheios de tristes histórias quando de longe viu a velha senhora rodeada de pessoas que imóveis assistiam a algo que ele ainda não havia conseguido identificar.
- João!
Gritou ela ao vê-lo.
-Aproxime-se!
João involuntariamente ensaiou um sorriso que foi logo repreendido, mas pensou, que mal o faria aproximar-se e escutar o que ela teria a dizer, até porque seria uma ótima oportunidade de buscar explicações acerca das palavras ditas na noite anterior. Caminhou devagar em direção ao atento círculo formado ao seu redor quando ouviu as últimas palavras de um verso que a mesma recitava com uma paixão de orgulhar o poeta e a lua:
- “E mesmo ante o ódio ou o amor
Levo a vida em poesia
Pois não há dor onde há flor.”
Aquelas palavras fizeram coro no íntimo de João e até uma dama que passava descalça crivou-se de verdades e lágrimas.
Após sua aproximação a velha senhora pediu licença aos que a ouviam e convidou João para sentar-se em um banco próximo.
- Então João, percebi que a outrora desgostosa poesia chamou sua atenção. Poesias sempre evocam, com a nudez das palavras, oceanos de pensamentos e emoções. É refúgio dos corações em dor, apogeu dos enamorados. É um brinde aos amantes da beleza da vida. Por que não gosta de poesia?
João sentiu-se envergonhado, não sabia o que responder.
- Deixe de lado tanta sensatez. Não precisa achar na razão os motivos certos para me responder. Disse ela.
João então derramou sua sinceridade:
- É que para mim não faz sentido. Há tanta coisa na minha cabeça, tantas dúvidas. Devaneios líricos não parecem ajudar em concluir minhas idéias, resolver meus problemas, prefiro evitá-los.
Levando a mão ao rosto de João, a velha senhora respirou com a calma típica de quem já navegou no mar de muitos corações e disse:
- Mais longa do que qualquer viagem João, é a jornada por entre os rios que correm secos de razão e cheios de dúvida na alma. Falta poesia.
João lutou para conter os olhos que pesavam cheios d’água. Ela continuou:
- Se passarmos a vida procurando explicações para tudo, envoltos nos porquês e na falta de sentido do todo, a vida passa em branco nuvem, e sem que você chegue a conclusão alguma. O segredo é encará-la com poesia. Acredite. Os versos mais bonitos estão em todo lugar. Discretos. Ao lado da felicidade achada em horas de descuido e do equilíbrio que descansa nas desatentas horas de paz. Nada é tão complicado. É tudo belo, simples. Mitiga teu ser e lembre-se, a vida é muito mais. É poesia.
- És uma sábia mulher.
Disse João emocionado e com sincera gratidão.
- Como pode saber tanto da vida? Dissipa-me esta última dúvida.
Ela sorriu e respondeu:
- Sou estrofe. Rima. Sou aquela que toca. Eleva. Encanta. Sou vida. Amor. Poema. Neblina. Dispenso a certeza. Moro em outros céus entre a verdade e a beleza. Vivo no teu eu profundo como pássaro facundo. Sou tudo e nada ao mesmo tempo e tenho em mim todos os sonhos do mundo.
A velha senhora então levantou-se poesia e sumiu em versos pelas sombras das árvores que ouviam a tudo.




(Leandro Matias)