quinta-feira, 30 de agosto de 2007

De Natal para o TJ-SP

Não é Adriano Gomes, tampouco Clodoaldo Silva. O desportista natalense pivô da grande polêmica do momento é o meio-campista de 24 anos do São Paulo, Richarlysson.
Tudo começou quando Richa – que dentro de campo não tem nada de raxa- comemorou um gol dançando funk com movimentos deveras duvidosos. Foi o que bastou para todo mundo alfinetar. Sua performance à la Lacraia fecundou as mais maldosas ponderações em todo meio futebolístico -machista por excelência-, culminando em insinuação do dirigente do Palmeiras, José Cyrillo Junior, no programa de Milton Neves, que o jogador seria homossexual.
Nossa Senhora, que reboliço, né?! Nada disso; o principal segmento da polêmica estava ainda por começar. Afinal, gente falando mal dos outros nunca foi novidade! Nesse bojo, embriagado de angústia, Richa prestou queixa-crime contra Cyrillo, ensejando, destarte, um processo judicial de cunho penal, o qual solucionaria o conflito através da sentença... solucionaria!!!
O juiz competente, o Excelentíssimo Senhor Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal da Comarca de São Paulo proferiu sentença determinando arquivamento do feito, na qual afirmava: "Se fosse homossexual, seria melhor que abandonasse os gramados"; "Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual"; "Homossexualismo é uma situação incomum do mundo moderno que precisa ser rebatida"; "Não poderia sonhar vivenciar um homossexual jogando futebol".
Agora sim! Os moralistas de plantão têm assunto para a eternidade. No entanto, há de se convir: Junqueira Filho aloprou! Nas minhas primogênitas lições de Direito, aprendi que este existe em decorrência da sociedade, devendo regulá-la, com o escopo axial de manter a paz social e o bem comum. A sociedade, de fato, não é só mutável, mas sim, está em constante ebulição; dessa forma, o Direito deve acompanhá-la, para que não se torne inútil, petrificado, tão-só um amontoado de papeis rabiscados. Nesse diapasão é bizarro, absurdo, quiçá revoltante, tomar ciência d’uma notícia dessa conjuntura. Poder-se-ia até admitir tal raciocínio em um matuto morador do Interior-da-casa-de-Carvalho –“transeunte do Agreste”, ou mesmo que o Sr. Junqueira pensasse de tal forma em suas reflexões matinais. Mas, representando o Estado-Juiz, revestido de poderes estatais, com o condão de analisar valores e decidir vidas alheias, Seu Manoel Junqueira jamais poderia exprimir pensamentos tão preconceituosos, conceitos tão retrógrados, valores tão retardados.
Não sou simpatizante, sequer advogado dos gays, até não contive gargalhadas ao ver a controversa comemoração, contudo tive de repulsar o Meretíssimo. Como quase-fanático por futebol e potiguar altivo, orgulho-me de ser conterrâneo do Richa. De certo, futebol é um jogo viril, mas o pivô da baderna já mostrou em campo que joga firme como homem de verdade. É um jogador desejado no plantel de qualquer time brasileiro; faz boa ligação no meio-de-campo, marca bem e só entra rasgando...
Mas, ao que parece, Richarlysson, ainda pode ter um final feliz, digno de conto de fadas. A corregedoria do TJ de São Paulo abriu uma sindicância e o Sr. Juiz pediu licença do cargo. Antes de sair, o juiz anulou a própria sentença que tinha dado no caso de Richarlysson. O processo deve agora ser julgado no juizado especial de pequenas causas. Mas a história não termina aí. Os advogados do jogador fizeram uma queixa no Conselho Nacional de Justiça, que fiscaliza os magistrados no Brasil inteiro. Se ficar provado que o juiz teve uma conduta reprovável ou criminosa, ele poderá até perder o cargo.
Inolvidável é que em todo ramo do das inúmeras áreas de trabalho, existem bons e maus profissionais. Alguns com vícios técnicos, outros com significativa falta de determinação, ausência de honestidade, e muitos com falta de ética. No Judiciário não poderia ser diferente. Enquanto temos juízes, desembargadores e ministros que dão verdadeiras aulas de vida em breves sentenças, algumas poucas vezes – e cada vez menos – temos o infortúnio de ver em lacônicas sentenças, alimentos de ignorância e regressão. C’est la vie! Porém, alegra-me o espírito a ciência da vinda de um Poder Judiciário cada vez mais jovem, mais moderno, mais atual; trazido pelos jovens sábios recém-magistrados através da bênção, que é o concurso público!
Agora, assistindo de camarote a toda essa encrenca, está Richarlysson -o Richa, que com isso pouco se lixa-, jogando muito no São Paulo, na liderança do campeonato e seguindo, como de costume, religiosamente as ordens de seu técnico Murycir Ramalho, que sempre antes do jogo o diz baixinho no ouvido: ”A-CA-BAAAA COM ELES!!!”.

(Flávio Pinheiro)




terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sonhos, Perfeição e Realidade

Guardei meus sonhos numa caixa
para poder preservá-los
Deixando-os assim intactos
Mas ao mesmo tempo inertes inatingíveis, inalcançáveis

Aprendi que na vida, sonhos apenas são válidos
Enquanto transformado em metas, e alcançados, ou então experimentados
Mesmo que a experiência da realidade
Não corresponda à perfeição do mundo das idéias

Não adianta sonhar com a namorada perfeita
Com os amigos perfeitos, com lugares perfeitos ou com o pôr-do-sol perfeito
Isso são coisas que devem ser deixadas à arte, ao cinema
À pintura, aos livros...

Muito mais vale ter namoradas imperfeitas
Amigos imperfeitos, lugares imperfeitos
Pelo simples fato de que estes possuem uma característica
Que os perfeitos jamais possuirão:
Eles são reais!
Sim, eu não sabia, mas Platão estava errado

Além disso, dá pra imaginar o tédio que seria viver
Num mundo perfeito?
Tudo seria matematicamente igual
Como dois e dois são quatro
Não existiria a diferença entre o belo e o feio
O bom e o ruim
O bem e o mau
Sob essa ótica
Louvado seja o feio, o ruim e o mau
Eles ajudam a tornar a nossa vidaUm pouco mais “perfeita”
Se me permite o trocadilho.

Tire os seus sonhos de sua caixa
E ponha-os em prática
Para que somente assim
Se tornem reais
Ao mesmo tempo
Não se imponha limites
Não foi isso que eu quis dizer
Pois se fosse assim o homem nunca teria conseguido voar
Ou ter chegado à lua

E por fim, nunca se esqueça
Se pensares sempre assim
Terás a resposta
Para quando alguém lhe criticar
E apontar os seus defeitos
Diga-lhes, com um sorriso no rosto
É, eu não sou perfeito
E se dissesse que era perfeito
Estaria sendo falso
Ao invés de ser falso
Prefiro ser isso que você vê
Imperfeito, porém verdadeiro
E real.

(Eduardo Dantas)

Personalidade e Originalidade...

É certo que, conquanto vivemos em sociedade, estamos submetidos a um conjunto de regras morais, socais, religiosas e jurídicas que regem o nosso comportamento. Mas você não acha que esse sistema anda um pouco demais exagerado por esses tempos? O dirigismo de nossas vidas parece ter nos transformado em robôs, estátuas, sombras, qualquer coisa que você quiser usar como exemplo, desde que não tenha alma e seja repetitivo. Parece que nós nos transformamos de águias livres para papagaios treinados... e a que custo? A modo de que, como diz o matuto? De uma normalidade (leia-se ser “normal”) mórbida, insípita, virtual? A resposta eu deixo para o final... o que eu sei é que, apesar da situação parecer nova, ela me lembra bastante uma velha lição que aprendi uma vez com um grande filósofo. Pois é, simplificando Kant, o que ele queria dizer é que a vontade só é verdadeira quando você faz o certo porque acha que é certo. Ao contrário, quando você faz o “certo” porque os outros acham que é certo, e você tem medo de ser repreendido caso não o faça, aí sim há um defeito, um vício, uma falha. Atualmente, parece que é assim. A gente não faz algo com medo do que o “povo vai achar”, ou então se reprimi porque “todo mundo viu!”... e nesse contexto, aonde nós ficamos? E o que eu acho? E o que eu sinto sobre mim mesmo? Uma coisa é verdade, quando a gente olha “pros outros”, acaba fechando os olhos para nós mesmos, e assim, cegos de nós mesmos, deixamos de nos conhecer, e nos transformamos em nossos próprios estranhos, vivendo a vida realizando aqueles mesmos gestos, praticando aquelas mesmas atitudes, nos alienando naquela mesma ideologia, apenas porque não sabemos mais o que fazer, ou então não sabemos fazer outra coisa. Não quero dizer que devemos fazer tudo e tão-somente o que nos der na telha, afinal de contas, como disse no início, há um conjunto de regras que temos que obedecer para vivermos em sociedade. O que eu quis dizer é o seguinte: hoje em dia nós vivemos num mundo calcado no consumismo, na aparência, no ter, ao invés do ser, e essas tendências, de tão expressivas, criaram um modelo de conduta aonde todos querem ser “cool”, e para isso, seguem a mesma linha de comportamento, onde não existe espaço para manifestações da própria vontade ou diferentes daquela que compõe o padrão dessa “síndrome da celebridade”. Apesar disso, e correndo contra esse fluxo, acredito que o diferencial de um indivíduo, e isso vocês podem comprovar pela experiência da vida concreta, está na desenvoltura de outras características, bem mais simples e mais escassas, hoje em dia, do que aquelas anteriormente citadas, porém bem mais importantes. São elas a personalidade e a originalidade... as verdadeiras, e não aquelas que nós apenas copiamos da internet para o nosso profile! Aonde elas estão?

(Eduardo Dantas)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Tá na moda

Dizem por aí que restam poucos - homens e mulheres - que ainda resguardam sua intimidade (lê-se dignidade) o suficiente para que sejam considerados alvo de investidas mais sérias do sexo oposto. Na verdade, esse é o assunto da moda. Mas (minha) verdade seja dita.
Os nobres valores há muito caíram em desgraça. Ser? Que nada de ser, o negócio é ter. Lê-se pouco, conversa-se menos ainda, mas falar, ah, todo mundo fala muito.
Mulheres saltam de bar em bar, pois, nos dias de hoje, já fica-se muito só, melhor não ficar sóbria.
Homens cada vez mais imbecis se acotovelam covardemente para conquistar o que chamo de direito de achar – sim, de achar - que tem mais que o outro, pegou mais que o outro, objetivando só Deus sabe o quê. Talvez o status da vaga de síndico no futuro.
Mas o fato é esse. Como diria o transeunte do agreste: - A coisa ta braba!
A esperança do que o acaso poderia trazer ao virar da esquina parece esvair-se tão rápido quanto nossos distantes 15 anos. As pessoas andam descrentes - e ao desavisado aviso - não é de crença que estou falando.
As uniões preguiçosas são as mais comuns hoje. Não tem tu vai tu mesmo. Está então formada uma família feliz.
Talvez pela precocidade, o transpor de etapas, entedia-se mais cedo, arrepende-se mais tarde.
Mas não vim aqui tentar dar respostas, tampouco sou crédulo da minha razão, aliás, nem sei porque escrevi isso, acho que só porque ta na moda mesmo.

(Leandro Matias)

O barco

Pode ser que o barco vire
O acaso dirá
Ou quem sabe o amanhã

Mas o doce o mar dos teus braços
O calmo estar do teu colo
Me diz que não

É certo que a chuva cairá
Mas tanto faz

Com você
Deixo estar.

(Leandro Matias)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Não tão perverso

“Todos sentem uma ponta de felicidade com a desgraça alheia”. Casta insanidade!? Uma observação dessa natureza provoca estupefação generalizada. Mas o que afirma meu avô, com a vivência dos 90 e a lucidez de um senhor ainda amante da literatura, ou vice-versa, acendeu-me, além de breves instantes de irresignação, delongados lapsos temporais de reflexão. Felicidade com a desgraça de todos? Todos?! Não sei se somos tão perversos assim...
Certamente, até o modernista francês Jean-Paul Sartre se sacode dentro da tumba com uma universalidade realista-existencial dessa dimensão. Será que realmente nos satisfazemos, lá no íntimo, com a consternação alheia? Ou será que meu avô quer apenas ser um Nelson Rodrigues do comportamento humano, com frases de sei lá... “O homem como ele é”?
Na verdade, sou descrente na irrestrita bondade humana. Tampouco acredito na absoluta transparência de personalidade. Os exíguos 23 anos foram se passando e a vida se encarregou de desmascarar esta ilusão. Ainda em um eventual início de vida, já tenho legiões de desapegos e perenes mal-grados. Não gosto deles e se fosse eles também não gostaria de mim!
Mas como abraçar a todos com esse suposto regozijo pela tristeza e frustração alheias? Tendências à parte, elejo por ficar em cima do muro e seguir analisando, levando em frente apenas o método experimental. Talvez, quando montar à lucidez dos 90, eu atinja à ilação. Por enquanto, com o cansaço dos 23, não sei nem quanto a mim, se realmente me aformoseia o interior a tristeza alheia, mas, sem buço de dúvidas, não a causo propositalmente. E isso já me torna bem menos perverso que a maioria...

(Flávio Pinheiro)

Apenas Sonho

Esse sonho não acaba
A angústia que me enlaça
Sinto o frio de outros corpos
Não és tu que me abraça!

Imagino, sorrio
O sonho, ainda tenho
Durmo consciente
Lembro e venho

Acordo, mas ainda sonho
É o lapso da consciência
Vivo entre ilusões;
Sonhar é minha penitência!


(Flávio Pinheiro)