sábado, 22 de setembro de 2007

Incerto dilema

Essa poesia, atipicamente, merece uma breve introdução, em virtude de sua peculiar criação.
Estávamos quatro amigos na famosa praia de Pipa: eu, Leandro, Daniel e Diego. Era véspera de um grande concerto em Natal. Não saímos para a badalação nesta véspera. Muito no entanto, fizemos nossa badalação. Bebemos em demasia e coversamos sob um céu extraordinariamente estrelado. Cada um, com seus sonhos e frustrações, dúvidas e certezas, filosofou um pouco sobre a vida, em, por que não, sobre o amor e a paixão. Abruptamente, pedi a Leandro para que pegasse uma caneta - que o fez rápido como quem rouba -, e sobre um guardanapo engilhado escrevemos, nós quatro, uma poesia que diz a little something like this:


E o que mais importa senão o que se esconde?

Quatro almas se encontram
Cervejas à mesa
Histórias conformes
O que muda é somente a letra
A música é a mesma
Conversas boêmias
Desaparecem na profundidade das filosofias

Felizes com a tristeza
Vivemos incerto dilema
O que realmente vale a pena?
Ouvimos, mas os rostos não transparecem

Procuramos nas estrelas
A resposta está além
Deixemos como está
A conclusão não vem

Nossa amizade basta
Unidos pela mesma emoção
Sabemos que nos confortamos com o amor
Mas somos apaixonados pela paixão.


Flávio/Leandro/Diego/Daniel.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Ausência

Sabe aqueles dias em que você acorda reflexivo, falando menos do que o normal, meio chato mesmo?
Não?
Bom, eu tenho dessas.
Eram quase seis e meia de uma morosa manhã de segunda-feira, o claro céu aberto dava plena passagem para um sol ainda a despertar.
E assim, sendo levado pelo marasmo da rotina universitária, me apanhei em meio a pensamentos vagos, numa irônica e incansável busca por alguma explicação do vazio discreto e lúgubre que insistia em se acomodar no meu âmago. Indagava-me sobre a completude do ser humano e mais ainda sobre a sua - mais comum - ausência interior.
Que saco! - alguns podem pensar - mais um texto qualquer de alguém tentando mostrar como tudo anda indo de mal a pior no que diz respeito à conduta humana.
E a quem pensou assim peço perdão pelos devaneios, mas tive que colocar no papel para que até eu mesmo começasse a entender melhor.
Muitos ou pelo menos alguém já deve ter percebido em análise mais profunda do seu ser, que ao saciar ou alcançar um desejo, outro, pouco tempo depois é criado por nós mesmos e posto em seu lugar. Conclusão ou confusão: Será que viveremos sempre ansiosos por aquilo que não temos?
Lendo um dos fabulosos ensaios de Pablo Capistrano conheci Epicuro, filósofo grego do período helenístico cujo grande objetivo da vida era a busca pela tranqüilidade da alma e pela saúde do corpo. Mas para Epicuro, para se chegar a esse estado seria necessário enfrentar o desejo. E assim Capistrano despiu Epicuro:
Desejar é sofrer diante da ausência. Quando eu quero aquela Toyota, aquele apartamento com vista para Ponta Negra, ou aquela bolsa Prada, ou aquela modelo gostosa da propaganda de cerveja, eu quero o que eu não tenho e isso me leva a um estado de ansiedade e intranqüilidade que me tira do eixo.
Por isso é tão importante para o consumo em um grande Shopping que o desejo das pessoas seja ativado mediante um conjunto de mecanismos artificiais de produção de necessidades. Diante da ansiedade do desejo, seu comportamento se transforma e você; usa mais, fala mais, olha mais, bebe mais, corre mais, come mais, gasta mais e pensa menos. Sua vida se torna um ciclo sem fim de desejo, ansiedade e consumo, em busca da blusa perfeita, do computador mais moderno e do namorado ou namorada mais fashion. Diante desse estado de coisas você se prende a um mundo de necessidades forjadas e perde o sono à noite pensando que perdeu seu celular e que, por isso, sua vida não faz sentido.

Talvez o desejo seja mesmo filho da ausência, um tipo de prazer diante daquilo que não se tem. E seria ela, a ausência, a responsável por condicionar todo tipo de “necessidade” à nossa serenidade.
Não sou hipócrita. Tendo chegado a esse ponto do arriscado e controverso tema confesso me sentir vazio, cheio apenas de idéias êmulas. Mas a verdadeira vitória nos chega através da luta que travamos dentro de nós mesmos. Tenho a frente uma longa estrada de evoluções e revoluções pessoais para trilhar nesse campo. E a quem leu até aqui e não viu nenhum sentido nessa sã loucura, quem sabe em uma dessas morosas manhãs de segunda-feira você não acorda reflexivo, falando menos do que o normal, meio chato mesmo e começa a se perguntar o que será isso. Pode ser ressaca ou quem sabe, talvez, ausência.

(Leandro Matias)