quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Por uma propaganda eleitoral de qualidade


A temporada de propaganda eleitoral no rádio e na televisão chegou ao fim. Porém, os absurdos e horrores que foram presenciados pelos poucos que se submeteram à tortura de ver o programa não passaram despercebidos. Alguns conseguem achar motivos de graça e humor, como se política fosse pura brincadeira. Para outros, contudo, política deve ser coisa séria (a frase se apresenta de forma tão absurda em nossa realidade “politiqueira” que parece até irônica).
Observando a propaganda gratuita eleitoral pode constatar-se a existência de diversos tipos de propostas e candidatos: em primeiro lugar, encontra-se o clássico, o famoso candidato de discurso apelativo de “populacho”; logo em seguida, vem os de discursos de apoio, onde o candidato titular do tempo de propaganda quase não fala (ou realmente não fala!); há os candidatos que elaboram as promessas de “mundos e fundos”, sem qualquer aparente consideração com as questões orçamentárias ou com o respeito pela crença ou inteligência do eleitor; tem, também, os candidatos do voto de protesto, e uma nova espécie a pouco identificada, o candidato das promessas absolutamente impossíveis. Esses apresentam como carro-chefe da sua candidatura, a proposta de “fiscalizar a governadora e a execução dos projetos federais”, conclamando para si, a um só tempo, as atribuições de vereador municipal, deputado estadual e federal (vejam só que super-candidato!). E não são só os vereadores. Tem também candidato a prefeito dizendo que vai aumentar o salário dos médicos municipais, quando se sabe que quem tem a atribuição para aumentar os vencimentos dos cargos e empregos públicos é a Câmara Municipal, mediante lei.
Críticas pessoais e subjetivas à parte, a conclusão objetiva a que se pode chegar é uma só: a propaganda eleitoral no rádio e na televisão não serve a sua precípua finalidade de apresentar propostas sérias e ajudar na escolha de candidatos. Concordo que existem alguns candidatos que a encaram com seriedade e utilizam-na como base de sua campanha eleitoral, principalmente os que têm poucos recursos. Contudo, o que deveria ser regra é exceção (quase imperceptível).
Uma mudança de situação requereria atitude conjunta dos Poderes Públicos, Partidos Políticos e da Sociedade em geral. O alcance de resultados em curto prazo é de difícil realização.
Parece que a nossa recente democracia ainda tem um longo caminho de conscientização e amadurecimento político a percorrer. Mesmo assim, ainda fica aqui o imediato e desesperado apelo, afinal de contas, as eleições para o ano de 2010 já estão aí. Em pouquíssimo tempo, o “show de horrores” estará de volta. Por favor, alguém faça alguma coisa!!! Ninguém agüenta mais ver.



(Eduardo Sousa Dantas - concluinte do curso de Direito da UFRN e eleitor insatisfeito)
*artigo elaborado durante as eleições para os cargos de prefeito e vereador do Município de Natal

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Vermelho-roxo, Vermelho-morto




PARTE 1 – Da Aproximação

Vermelho encardido, vermelho-roxo. Assim era o amor entre André e Liz. Muito incomum. Pessoas completamente distintas. Se conheceram no Rio de Janeiro, cidade natal de ambos. Foi amor a primeira vista... e como foi! Até hoje André poderia descrever toda a cena. Festa de baile de carnaval no clube. André havia acabado de chegar, com seu típico estilo de playboy. Na opinião dele, “o playboy”. Do alto dos seus 1,85m de altura, vestia uma camisa florida, de estampa azul com flores verdes, combinada com bermudas e sandálias brancas. Mascava chiclete. Tinha o cabelo preto, escuro e liso, penteado completamente para trás, à base de muito gel Bozzano. Era esbelto, traços longos, porém afilados. Vestia uma colônia esportiva, não tão chique, porém marcante. Andava com um ar despretensioso e bacana pelo meio da pista de dança, meio que se amostrando para todos (e principalmente, para todas), meio que já analisando e escolhendo uma dentre tantas outras mulheres que já possuiu e possuíra. Encontrou e cumprimentou alguns amigos, viu e esnobou a Carmen, uma loira gostosa com quem já havia dormido, quando ela lhe disse:
- André, você por aqui! Vamos dançar! – disse insinuando-se e tentando agarrar André pelo pescoço.
- Agora não – respondeu, retirando rudemente suas mãos:
– Não tô afim. Estava bem, no controle da situação. Foi até o bar pegar uma cerveja, até que, enquanto virava-se dando um gole da bebida, viu aquela cena. Por um momento restou paralisado, como que atordoado pelo mais forte veneno que já existiu ou pela mais pura beleza que já viu. Suas pernas tremeram, sentiu um fogo que vinha de baixo e subia, mas não saia de seu corpo. Estava em um certo tipo de êxtase.
- Só pode ser um anjo – pensou. E era. Um anjo angelical, a mais bela de todas, o conceito de beleza, Liz! Cabelos grandes, castanhos e ondulados, sorriso largo, porém discreto. Traços afilados, pele sedosa como o leite, levemente bronzeada como o cobre e sem falhas... rosto limpo e perfeitamente liso, e macio. Olhos grandes, da cor de mel, esbelta e curvilínea. Dançava com agilidade e elegância, fantasiada de Diana. Dominava o salão e o ambiente. Tinha uma energia positiva e uma vibração que irradiava para todos a sua volta. Todos os homens do salão haviam reparado nela, e todos babavam por ela, sendo que a maioria estava intimidada. Uns pela beleza ofuscante e pela imponência daquela deusa. Outros, pela presença da alta e forte da figura ao seu lado, o seu à época amado Hércules, cuja fantasia de legionário romano já deixava transparecer toda a força e o perigo que corria aquele que se metesse em seu caminho. O problema é que André não era homem de se intimidar. Para ele, que se achava um “CasaNova” dos tempos modernos, uma nova espécie de “Don Juan de Marco”, não havia mulher nem obstáculo intransponível, tudo era uma questão de tempo e oportunidade. E quanto mais difícil a conquista, mais ele se interessava e se imergia naquele jogo de sedução. Se gabava das conquistas que havia feito, e dizia-se apaixonado incondicionalmente pela farra, bebida e mulheres. Nunca se contentava com apenas uma. Eram muitas, e ao mesmo tempo. Não conhecia a fidelidade. Dizia-se um boêmio inveterado e inconcertável Foi então que logo pensou:
- Ela vai ser minha! - E então o personagem galanteador e canastrão entrou em ação. Traçou um plano e uma estratégia que definiu como infalível. Esperou o momento certo, a hora que Hércules cochichou algo no ouvido de Liz e logo saiu em direção ao banheiro. Pegou “emprestada” uma câmera roleflex e um caderno de anotações de um dos fotógrafos da festa que havia se descuidado. Se aproximou de Liz e... flash! Sacou uma foto que cegou-lhe os olhos. Liz imediatamente reagiu e respondeu:
- O que é isso?!
- Olá, moça, sou o fotógrafo da festa, vi sua bela fantasia e resolvi tirar algumas fotos para publicá-las no jornal – disse André, já direcionando seu largo sorriso que considerava como arma primeira e mortal para uma conquista. Liz, ao voltar das trevas, se deparou com aquela bela figura olhando-a e sorrindo incontinentemente, e mesmo um pouco sem graça e sentindo-se levemente atraída por André, disse-lhe:
- Ah, tá bom, mas então espere meu namorado que vem vindo para tirarmos algumas fotos. Queria que me enviasse as fotos depois, tá?! - E André:
- Sim, mas é claro, é só anotar seu nome e seu endereço nesse caderninho - “Ela mordeu a isca”, pensou, enquanto a ingênua mulher anotava seu endereço e entregava seu destino ao cupido. Depois disso, Hércules se aproximou meio que desconfiado e disse:
- O que é isso, Liz?
- Ah, não é nada, é porque esse moço...
- André, por favor - interrompeu-lhe o rapaz, pois sabia que o anonimato era desconhecido do amor.
- André... sim – Disse Liz, reparando-lhe e olhando-o com um ar de admiração e encanto.
- O André tá querendo tirar algumas fotos nossas para publicar no jornal, complementou.
- Ah, que bom! – Disse o exibido Hércules,
- Vamos fazer algumas poses então – emendou, abraçando sua namorada e posando para a câmera. Era um verdadeiro show. Hércules abraçava Liz e posava, contraindo seus músculos, esquecendo de sua namorada e pensando só em como aquelas fotos ficariam boas no jornal! Liz abraçava Hércules e tentava buscar sua atenção para ver se tirava da cabeça e da mira dos olhos aquela bela figura do sorridente fotógrafo. E André fingia que tirava fotos do casal para o jornal, sendo que só focava em Liz, sorria e lhe enchia de elogios, do tipo “Tá linda!”, e “Que bela!”, enquanto, direcionando-lhe o olhar, percebia que era tímida e vergonhosamente correspondido.
“Me dei bem” – pensou então, enquanto esvaia-se o rolo de filme e aquela ardente noite de terça-feira de carnaval.


Parte 2 – Da Conquista

No mesmo dia em que voltou do baile carnavalesco, André, apesar de exaurido, foi logo revelar as fotos que havia sacado de sua amada em seu estúdio improvisado que havia montado na parte de trás de sua casa em Copacabana. O estúdio ficava após o corredor que dava na sala de Armas e troféus. André tinha o gosto muito apurado para diferente tipos de hobbies. Gostava de fotos e de armas, de caça e de atirar. Tão logo terminado o processo de revelação, pendurou as fotos de sua nova conquista em seu quarto, para que pudesse olhar, admirar e se inspirar sempre naquela estonteante beleza. Pendurou-as, tirou sua roupa, tomou um banho quente, colocou um roupão, e ainda que exaurido e todo quebrado, lembrou-se, antes de dormir, de pegar o caderno com o nome e endereço. Olhou mais uma vez o nome dela e suspirou mais uma vez para si mesmo... “Liiiizzzz”... e apagou. Ao despertar, começou imediatamente a desenvolver o seu plano. Escreveu a primeira carta para Liz, se dirigiu ao seu endereço, depositou na caixa de correios, e se foi. A carta dizia assim:
- “Por ‘amor’, se faz loucuras. Te vi, te quis, e não sabia o que fazer. Me disfarcei de fotógrafo... fiquei muito feliz em te conhecer. Me desculpe, Liz, mas não me culpe. O meu maior pecado foi te querer”. Liz, ao ler os pequenos versos, sentiu muita raiva, sentiu-se enganada, achou que André era um idiota, mas alguma parte daquilo lhe contentava e lhe excitava. Seria a audácia daquele homem? Ou sua bela figura e seu belo sorriso? Sentiu-se um pouco confusa, mas rasgou e jogou fora a carta enviada. Passou-se um dia, dois, três, uma semana, e nada de resposta. Ainda assim, André ostentava um largo sorriso estampado em seu rosto. Sabia que isso aconteceria, conhecia os jogos do amor. Sabia que a primeira reação seria o desprezo, mas sabia que a carte afetaria Liz. André não estava disposto a desistir, e não desistiria, pois sabia que a insistência, os elogios e a ousadia, acabariam por dobrar o desprezo de Liz e transformá-lo em paixão e desejo. Escreveu uma outra carta, e outras três mais durante três semanas seguidas, até que na quarta recebeu uma resposta: “Não me escreva mais, tenho namorado. Seus versos são muito bonitos, mas não servem para mim. Como você pode gostar de mim sem sequer me conhecer?”. Liz estava insegura, e André sentia. Seu namoro já não parecia tão bom. Seu namorado já não lhe reparava mais, não lhe cortejava. O amor já não era mais cultivado. Já não sentia mais desejo, já não via mais graça, pensava se deveria acabar ou não... e pensava em André. Ele tinha tudo que ela agora tanto queria, amor, desejo, paixão, novidade, excitação. Queria conhecê-lo, mas não queria dar o braço a torcer. E André sentia isso. Após algumas outras respostas em tom de rejeição, André escreveu-lhe mais uma carta, dando a Liz um suposto ultimato:
- “Se você realmente não me quer, por que me responde? Vou estar hoje à noite, às 23:00 horas, na beira da praia, em frente ao posto, esperando por você. Se você não aparecer, pode deixar que eu nunca mais vou lhe procurar, nem você vai mais vai ouvir falar de mim”.
Tudo mentira. Ele a procuraria ainda tantas vezes quantas fossem necessárias, pois acreditava que iria acontecer. Se arrumou todo, vestiu uma calça branca, dobrada até o início da canela, com uma camisa de botão da mesma cor. Colocou uma sandália, reforçou o perfume, ajeitou o cabelo com seu inseparável gel e saiu, esperançoso. Se posicionou em frente ao local combinado com uma única rosa vermelha na mão... e esperou. Era noite de lua cheia. 22:30h... nervosismo, será que ela vêm? Será que é pontual, ou costuma se atrasar? Até que horas devo esperar? E quando ela chegar, o que fazer? Dou-lhe diretamente um beijo de matar, ou faço doce, abraço-a, entrego a rosa e espero para ver? Todas essa perguntas martelavam a cabeça de André. Quando voltou desse turbilhão de pensamentos, André se deu conta de que já era 23:30h, e nada de Liz. Desapontou-se e enfraqueceram-se as esperanças. Teve raiva. Quis despedaçar a rosa, mas esperou... ainda tinha uma pontinha de confiança no seu taco. À exata meia-noite, desistiu. Olhou uma última vez para aquela praia e aquele mar, como a eterna lembrança de uma noite que nunca acontecera, deu as costas para a paisagem e começou a caminhar. Dois ou três passos depois, escutou uma voz rouca e fraca que vinha da direção esquerda:
- Andreée... Era Liz! À meia-noite, a gata borralheira virou princesa. Estava linda, com seus lindos cabelos soltos ao vento e o seu perfeito rosto iluminado pela luz da lua-cheia. Vestia um vestido longo e solto de renda branca, e tudo parecia que havia sido preparado nos mínimos detalhes pelo cupido. André jogou no chão a rosa que lhe havia trazido e correu com ferocidade em sua direção. Ela não resistiu e entregou-se ao seu amado. Deram o maior beijo que já se viu. Forte e ao mesmo tempo delicado, instintivo e ao mesmo tempo amoroso, uma mistura entre a animalesca vontade de se possuírem e o enorme sentimento de doçura, carinho e ternura que sentiam. Enquanto davam o primeiro e mais marcante beijo de suas histórias, escutaram uma bossa, à época famosa, que vinha de um bar em frente ao local onde estavam, e que dizia assim:
Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar; Ai, que bom que isso é, meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar; Mas se a luz dos olhos teus resiste aos olhos meus só pra me provocar; Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar; Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos meus já não pode esperar; Quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus sem mais larirurá; Pela luz dos olhos teus eu acho, meu amor e só se pode achar; Que a luz dos olhos meus precisa se casar(Vinícius de Moraes)

Aquela virou a música de André e Liz. Passearam por toda a praia, de mãos dadas, esbanjando uma alegria estampável e contagiante. Diz-se que, ainda depois de muitos anos, muitas pessoas que trabalhavam nos bares e freqüentavam aquela parte da praia continuavam a se lembrar e a comentar a estória e o provável destino daquele anônimo casal, que na madrugada de uma sexta-feira de lua cheia, protagonizou as mais belas cenas de amor e romance que já se vira por ali. Tudo era vermelho-paixão.


Parte 3 – Do Relacionamento

Passada a fase da conquista, tudo ia bem entre André e Liz. Jovens igualmente belos, inteligentes, divertidos, autênticos, formavam um par que reunia o melhor do que poderia existir em um homem e uma mulher. Em pouco tempo e na vanguarda de seu tempo, decidiram morar juntos, no apartamento de André, que possuía área suficiente para os dois. Destruiu-se a antiga sala de troféus e armas para aumentar o quarto e fazer uma enorme suíte. O antigo estúdio de fotografia havia se transformado em uma sala de cinema, onde passavam horas e horas abraçados, vendo diversos tipos de filmes, programas e outras coisas, na maioria das vezes comédias românticas ou escrachadas. No lugar havia agora um toque feminino que tornava-o ainda mais caloroso e aconchegante. André costumava acordar mais cedo para ir ao trabalho e frequentemente costumava deixar para Liz bilhetinhos românticos e bandejas com o desjejum (“Meia-alma reconhece quando encontra sua metade. Estou completo, já achei a minha metade!”). Juntos, eles planejavam e realizavam os mais diferentes tipos de programas. Mergulharam no Taiti, visitaram a Europa, andaram de bicicleta por Paris, fizeram amor em noite de lua na praia de Bora-Bora. Viviam um para o outro, grudados, o tempo todo juntos. Os amigos de André, principalmente Carlos, o mais radical, machista e egoísta de todos, caçoavam dele, chamavam-o de o ex-bohêmio, de dominado, e esses todos outros apelidos que os homens se tratam quando se deparam com um amigo que está apaixonado. A par disso, após seis meses de intensa paixão, André também sentia um pouco de falta de seus amigos, de conversar conversa de homem, tomar cerveja, falar putaria, trocar segredos, falar mal de quem quer ou do que quer que seja. Por mais que aquela mulher o tivesse fazendo feliz como nunca houvera sido em sua vida, começou a achar que havia mudado demais, que não se reconhecia. Pensou que isso não era correto. Assentou na sua cabeça a idéia de voltar atrás.
Vez ou outra, então, costumava tomar uma cerveja com os amigos. Primeiro avisava, depois passou a ir escondido, pois dava-lhe maior excitação e sensação de poder, liberdade e independência. Sempre dava alguma desculpa esfarrapada que Liz não comprava, mas que aceitava, porque até então ainda confiava no seu amado. Pouco tempo depois e André já havia desenvolvido uma dupla personalidade: por um lado, ainda se achava muito apaixonado, vinculado e agradecido à única mulher com quem ele conseguira ter tido um relacionamento de verdade. Amava-a, não tinha dúvidas que era a mulher da vida dele. Por outro lado, quando saia com seus amigos, despertava nele o espírito saudosista e aventureiro do antigo Don Juan de outrora. Queria aventuras, mais emoção, novas conquistas, novas mulheres, mais festas, mais bebidas, mais estórias para contar. Estava enfadado em se limitar apenas a tomar algumas cervejas e outros tragos de bebida com seus amigos, sendo que não sabia como levar a cabo o seu desejo sem ser pego ou percebido, afinal de contas, dentro do pequeno círculo da alta sociedade carioca de que participava todos se conheciam, e em reconhecendo-se o traidor, conhece-se da traição.
O plano ideal surgiu certo dia, quando André deixava a quadra de tênis do Jockey Clube do Rio de Janeiro, e veio inspirado naquilo que André conhecia melhor: as mulheres. André e seus amigos deixavam o clube quando, ao passar pela entrada, viram uma linda mulher, daquele estilo arrasa quarteirão. Era morena, de cabelos longos e pretos e vestia um vestido vermelho encardido e comprido, até os pés, que ressaltava suas perfeitas e voluptuosas curvas brasileiras. Seu batom era igualmente “rouge” e destacado, e delineava e toneava perfeitamente sua boca grande e seus carnudos lábios. Possuía tanta luz ao seu redor que todo o cenário parecia cinza, só se percebia aquela linda morena naquele destacado vestido vermelho. Ao passarem por ela, sentiram o aroma de perfumes florais. Todos seus amigos repararam na mulher e se limitaram a tecer inúmeros comentários clichês do tipo “que gostosa!”, "bixa boa"!. André, com seu olhar de caçador e mulherólogo, viu mais. Olhou para o homem que acompanhava tal mulher, pois achava que conhecendo o gosto de suas pretendentes e o estilo e as qualidades de seus concorrentes, poderia conhecer e se aperfeiçoar cada vez mais na arte de amar. Foi só bater os olhos no homem que a acompanhava que a idéia estalou. “Um gringo!”, disse André, em tom de surpresa e descoberta. O rapaz que acompanhava a bela morena era um típico estrangeiro milionário, daqueles que ninguém conhece de onde veio, nem sabe muito menos quem ele é. Sobre eles só se sabe que vêm com muito dinheiro e presentes, atraem as mulheres e possuem e têm o que querem. A partir desse estalo, consolidou-se em André a personalidade do farrista, que agora sobrepujava a do romântico apaixonado. Surgiu a figura do alter-ego perfeito; voltou-se à época do farrista e boêmio inveterado, sendo que com roupagem, sotaque e nome diferente. Diretamente dos Estados Unidos da América, surgiu o americano com a maior ginga e o melhor suingue que já se viu, “Mr. Wayne”! Para incorporar o personagem, André comprou algumas camisas de botão que vestia entreabertas sobre outros blazeres que também adquiriu. Lustrou seus sapatos, tirou do armário um velho chapéu e um par de óculos Ray-Ban. Vestia-se assim toda vida que queria farrear. É o plano era o seguinte: Carlos e seus outros amigos mulherengos faziam o papel de convidar as mais belas jovens que existia no Rio de Janeiro para uma festa fechada que acontecia em diferentes lugares da cidade. Diziam que a festa era de um milionário americano amigo deles. As reuniões ocorriam numa média de quinze dias. Em troca do trabalho de seus amigos, André custeava toda a festa, a bebida, os champagnes estourados, a música, decoração e bandas que tocavam nessas festas privadas. Duas ou três festas depois, Mr. Wayne já era o maior sucesso! Era o gringo mais brasileiro que se conhecia. Ele tinha intimidade com as mulheres, sabia fazer o jogo da sedução, era sensual, espontâneo, natural. Dançava muito bem, e falava um português tão perfeito que às vezes parecia brasileiro. Tudo isso, aliado à sua bela figura e largo sorriso, fez com que todas as mulheres se dobrassem aos seus pés. Ficou conhecido na cidade. Era uma espécie de celebridade America, um quase ator de Hollywood. Passou a colecionar mulheres, de todos os diferentes tipos: loiras, morenas, ruivas, mulatas, sempre se deitava com uma diferente e nessa hora pensava: - Isso é que é vida! Para André foram dias felizes. Achava que finalmente tinha encontrado um jeito de dosar o amor que sentia por Liz, com a paixão e a vontade incansável que tinha de farrear, beber e conhecer outras e cada vez mais mulheres. Tinha achado o equilíbrio, o meio termo, sendo que no coração e na cabeça de Liz não se passava a mesma impressão, senão o contrário. Sentia-se cada vez mais só. Assim como o seu antigo herói, Hércules, André também havia se transformado em vilão. Andava sempre cansado, de mau-humor, chateado, irritado. Não queria mais fazer programas a dois. Estava sempre sem dinheiro, e gastava tanto dinheiro não se sabia com o quê. Havia perdido a criatividade, a espontaneidade, a vivacidade que tanto encantara a Liz. Quando estavam juntos, era apenas um zumbi que pairava ao seu lado, morto de cansado pelas farras que fazia e vivo apenas para se recuperar e planejar a próxima aventura. Liz então começou a cobrar-lhe atenção. Sentia sua falta, mas André, embebecido pelo desejo despertado de farrear e fortificado na sua filosofia de vida desgarrada não notava, ou achava que era besteira. Liz remoia-se de ciúme, amargura, mal-amor, insegurança, sendo que não sabia do quê. No início achava que era melhor não procurar o que não queria saber. Certo dia, não agüentou mais.
Era mais uma sexta-feira. Nos tempos bons, seguro que iriam fazer algum ótimo programa a dois, como sair com outros casais – O Léo e a Valéria, por exemplo – ele amigo de infância de André e ela amiga de longas datas de Liz, para beber e se divertirem. Sendo que não era mais assim. As sextas-feiras, agora, eram sozinhas e solitárias, encarceradas naquela escura e sombria casa sem vida. André inventou que havia sido marcada uma reunião extraordinária com uns investidores americanos em um Hotel em uma cidadezinha próxima, e que por isso, teria que passar o final de semana fora. Prometeu recompensar a sua amada, sendo que antes de esperá-la responder ou “autorizá-lo” a ir, já foi logo pegando sua enorme mochila que carregava e foi saindo. Esqueceu até de dar em Liz um beijo de despedida, quando ela tentou agarrá-lo para se despedir. Saiu em disparada. Liz, no início, engoliu de forma seca aquela desculpa esfarrapada. Ao sentar-se no sofá, sentiu-se triste e miserável. Os seus lábios tremiam de nervosismo e solidão enquanto seus olhos já se enchiam de lágrimas. Sentiu-se a figura mais patética e neurótica do mundo. Não suportava mais aquela situação e o pior, não se suportava mais. Resolveu, então, encarar. Encarar o desconhecido, o que quer que fosse. Não agüentava mais. Tomou aquela decisão como que por impulso. Impulso que André tinha dado para que ela tivesse chegado à beira do abismo de um ataque de nervos. Tomou rapidamente as chaves do carro e saiu em disparada. Seguiu de perto André enquanto este caminhava pela orla. Observou quando ele pegou um táxi. Rodou meia cidade atrás dele, entrando e saindo por entre cantos que nunca havia imaginado estar. Viu quando André saltou em frente ao prédio de Carlos e como cumprimentaram-se felizes e animados, animados com por quê?! A enorme bolsa que André carregava ainda era o maior mistério para ela. André subiu e em questão de minutos voltou, com umas roupas estranhas, um ar bacana e um sorriso malicioso no rosto?!?! Ajeitou o blazer e saiu com Carlos. A perseguição continuava. Liz estava tão envolvida naquele jogo que sequer se deu conta que já nem mais sentia toda aquela angústia e ressentimento de tão pouco tempo atrás. Estava um pouco melhor por ter tido a coragem de ter feito algo, tomado uma atitude. Os dois amigos saíram no porsche conversível de André, que Liz não sabia o que fazia na casa de Carlos. Seguiu-se a brincadeira de gato e rato. Umas dois curvas a mais para direita, outras três esquerdas e pronto, pararam na porta de um moderno e novo clube que havia perto do apartamento de Carlos. Para Liz havia se passado uma eternidade. André e seu amigo desceram, o manobrista tomou-lhes logo o veículo. Havia uma multidão de gente esperando por eles?!?! Várias mulheres?!?! André entrava, fantasiado de gringo, enquanto as mulheres agarravam-no, e os homens o cumprimentavam. Para Liz, nada daquilo fazia sentido, e ao mesmo tempo, já fazia. No fundo do seu insubconsciente, na sua cabeça, ela já sabia do que se tratava, só o seu coração que não lhe permitia ver. Ela estacionou o carro para tirar a estória a limpo. Estava nervosa, coração a mil.


Parte 4 – Da Traição.

Liz entrou no clube, anônima e deslocada, já procurando por André. Passou por pessoas estranhas, vestidas de diferentes formas e dançando à um som frenético que não conhecia. Na caminhada de sua busca, dois estranhos tentaram agarrá-la, sendo que ela não lhes deu sequer o cabimento. Continuava focada no seu objetivo. Pouco após entrar, avistou André num canto escuro de um camarote que havia na parte de cima do clube, à esquerda. Ao tentar subir as escadas do camarote, porém, foi parada pelo segurança que lhe perguntou:
- Está com quem, com o “Mister” Wayne? - “Mr. Wayne?!?!”, pensou Liz sem entender direito.
- Sim, sou amiga do Mr. Wayne – respondeu rapidamente numa improvisação não perceptível.
- Pode subir, disse o armário preto, e Liz subiu. Aproximou-se lentamente de André... coração a mil, ansiedade, nervosismo, medo, alta dosagem de adrenalina. Estava com medo do que podia ver. Mil coisas se passaram pela cabeça dela naquele momento. Continuou aproximando-se, meio que sem jeito, ainda deslocada. Ao chegar mais perto, ouviu as risadas de umas quatro ou cinco mulheres que circulavam André e Carlos, o amigo machista. As mulheres pareciam um bando de abutres! Estavam em todos os cantos. Havia uma ao lado de André, que alisava-lhe o cabelo e dava-lhe algo pra beber; uma do lado de Carlos; uma escorada na parte de cima do sofá; uma sentada à beira de um mini-palco que havia dentro do camarote. Todas pareciam estar se divertindo... e muito! Carlos agarrava uma outra pelo pescoço, enquanto beijava-lhe o rosto incessantemente. André estava de costas. Liz chegou então numa tal distância - não tão perto porque se sentia ameaçada, e não tão longe que não pudesse ser vista e ouvida. Antes de falar, passou pela sua cabeça a idéia de desistir e voltar a sua antiga e depressiva vida, sendo que foi só uma reação involuntária de seu sistema nervoso. Já não havia mais volta. Tentou falar uma primeira vez, mas faltou-lhe a voz. Respirou fundo, usou todas as suas forças, sendo que o máximo que conseguiu foi um pequeno sussurro:
- Anddrréee. André levantou a cabeça e se virou sem sequer notar que alguém havia lhe chamado por seu verdadeiro nome. Ao virar o rosto, a mudança de reação: a um sorriso maroto e chapado que havia na sua cara sucedeu-se uma expressão de susto e aflição. Seus olhos se arregalaram. Seu chapéu caiu da cabeça. Havia uma listra de pó branco que emendava do nariz à perto de sua boca. Era mais um dos prazeres com que havia se acostumado, a cocaína. Apesar de chapado, ao ver Liz, de uma hora para outro estava sóbrio e lúcido, porém, parecia que havia visto um fantasma. Ficou tão branco como o pó que havia no seu rosto. Ele e ela permaneceram parados. Parecia que estavam em um certo tipo de transe. Não notaram mais nada do que estava ao redor, nem a música, nem as pessoas, nem a festa, e nem a imensa e densa névoa de fumaça e cheiro de cigarro que preenchia o ar que respiravam. Todos em volta repararam naquela cena e também se espantaram e se calaram. Carlos, o único que já sabia de toda a farsa e conhecia os personagens, passou a mão na cara e pensou consigo mesmo “Ih, deu merda!”. Liz continuava ali, paralisada, parada, inerte. Esperava alguma coisa, alguma explicação, por mais absurda que fosse, quem sabe até a idéia de que tudo aquilo era uma pegadinha, uma festa surpresa que tinha sido armada por André durante um forçoso e penoso trabalho de meses e meses de rejeição. Ainda queria se iludir, acreditar naquele seu amor antes inabalável. Ao voltar à realidade após o seu sonho na terra do nunca, começou a sentir raiva, angústia, abatimento. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela começava a dar os sinais de que iria chorar. Segurou o máximo que pôde, pois não queria se mostrar fraca e vulnerável na frente de outros. Era humilhação em dobro. Por um momento, sentiu muita raiva de André. Que falta de respeito! Que falta de consideração! Que traição! Queria chamá-lo de canalha, safado, cafajeste, canastrão, o que fosse, sendo que não tinha forças nem condições, não naquele momento. Ao perceber isso, voltou-lhe o abatimento, a depressão. Não segurou mais. Começou a chorar. Sua ação conseguiu despertar André de seu transe. Não disse nada, apenas pensou em ir à seu encontro. Quando André intentou se levantar, Liz se virou chorando e saiu correndo, fugindo daquela cena deplorável. Fez todo o trajeto de saída da boate chorando, desesperada e apavorada, não só com o que havia visto, mas com toda aquela cena gótica de centenas de pessoas em êxtase, com aquela música bate-estaca horrivelmente ensurdecedora, com aquelas luzes coloridas que lhe cegavam, com aquele bacanal que contrastava com sua miserabilidade e cara de choro. Ao menos extravasou. Chorou e chorou, empurrou as pessoas e lutou para sair daquele lugar que lhe dava arrepios de angústia. Voltou todo o caminho do carro chorando, dirigindo como uma louca e pensando em tudo que havia se passado, em toda a história deles. Passou-se um filme desordenado sobre os dois por dentro de sua cabeça. Buscou explicações, causas, motivos para o acontecimento daquilo tudo. Queria saber aonde é que tinha errado, o que precisava melhorar, aonde foi o seu pecado. Chegou em casa (na casa de André) exaurida. Não sabia o que fazer. Jogou as chaves do carro em cima do centro de mesa que ficava ao lado da porta, deitou-se do jeito que estava no sofá, encolheu-se toda, procurando conforto e consolação consigo mesmo e dormiu... se entregou ao cansaço. Ela não tinha para onde ir.


Parte 5 - Do Perdão e da Reincidência.

André chegou em casa ao meio-dia do dia seguinte ao ocorrido. Estava afoito, nervoso, inquieto. Não havia continuado farreando, e só não tinha chegado antes porque não sabia o que fazer e com que cara encarar Liz. Ao chegar, viu que Liz estava encaixotando suas coisas. Ao que parecia, estava saindo de casa. Desesperou-se:
- Aonde você vai?
- Estou indo embora, não está vendo? Vou voltar para a casa da minha mãe.
- Para a casa da sua mãe?!?! Não tem cabimento, Liz, você, uma mulher de 28 anos, voltar pra casa da sua mãe.
- O que não tem cabimento é você fazer o que fez comigo, André. Acabou - Aquela frase caiu como um raio no coração de Liz e de André. Em André porque sentiu que a situação estava muito ruim, e que podia ter perdido a mulher da vida dele por sua exclusiva culpa, e para Liz porque era a constatação de algo que ela não queria ver, estava despejando a frase que não queria que ter de falar.
- Como assim, acabou, você não vai nem conversar comigo?
- Não, a gente não tem nada pra conversar – disse Liz já se dirigindo à saída da casa com suas pequenas e poucas caixas e coisas. Ela aparentava portar uma força e uma frieza incríveis.
- Não, você não vai embora da minha vida assim – disse André, ao mesmo tempo que, com a mesma impulsividade que lhe levava a farrear e a fazer quase tudo na vida, trancou a porta da saída e jogou a chave pela janela.
- Seu louco! – Disse Liz. – Agora como é que eu faço pra sair daqui?!?! – completou.
- Essa é a idéia. Você só sai daqui quando a gente resolver o nosso problema, seja por bem ou por mal.
- A gente não tem mais problema, porque não tem mais nada. Você foi um cafajeste comigo, me traiu, escondeu tudo que tava passando de mim, me deixou sozinha, na lama, por tempo demais. Eu fiz de tudo por você e por nós dois, eu me esforcei para ser a namorada que você queria, escutei coisas que não queria, fingi me interessar por assuntos que não me interessavam, procurei lhe conhecer, conhecer sua família, me dei bem com todos seus amigos. Me dei e me dou bem com todo mundo. Todo mundo gosta de mim, diz que eu sou a mulher certa pra você. Que eu lhe coloco pra frente. Eu terminei um namoro por causa de você. E você, o que fez por mim? Me chifrou, me traiu, me abandonou, me magoou, só isso. Você é um filho da puta que só pensa em você. O ser humano mais egoísta que eu conheço, eu te odeio! - E então Liz, desenganada da última frase que disse, começou a chorar, e a chorar, e a chorar... Ruiu-se sua aparente força e frieza. Ela batia em André enquanto chorava, e ele abraçava-a, sentindo-se mal e sem saber o que fazer. Liz estava tão triste e tão cansada que desabou ao chão junto com André. Liz chorou por André em seus ombros. Ela não tinha mais ninguém, não tinha amigas, não falava mais dessas infantilidades do amor para os seus pais, André era seu único amigo. Horas e horas de choro depois, Liz dormiu nos ombros de André no chão da sala onde moravam. Enquanto dormia, André pensou muito e viu que não podia perder Liz, e que não deveria ter magoado-a tanto, e que estava muito errado, que iria melhorar e ser o bom companheiro que ela esperava e merecia. Estava certo e convencido de tudo que pensava e que iria dizer. Quando Liz despertou, ao olhar pra cima viu André, ainda abraçando-a e olhando para ela com uma paz e serenidade que lhe causou estranheza. Liz ameaçou falar, sendo que foi interrompida por André, que colocou-lhe o dedo sobre a boca e fez sinal para ela ficar quieta:
- Liz, meu amor, eu sei que errei com você, sei que fui infantil, imaturo, inconseqüente, impulsivo, e.t.c. Ainda assim, nunca duvide de meu amor por você. Eu sou um cara inteligente, e eu sei que se eu continuar assim, vou lhe perder para sempre, porém, eu acho que ainda não lhe perdi. Não diga que não me ama quando eu posso ver isso no seu olhar. Não diga que não vai sentir minha falta quando o que falta para nós dois é um ao outro. Não diga que quer me ver longe, quando eu sei que a sua felicidade é ao meu lado. Isso pode parecer demagogo, meloso, brega, mas é a forma que eu encontrei para tentar lhe mostrar que o nosso final não é agora. Deixe eu cuidar de você como um dia cuidei. Deixe eu tratar você como um dia lhe tratei... e não me deixe, eu sou só meio-homem sem você – Ao ouvir isso, Liz ficou um pouco surpresa, um pouco espantada, não esperava aquela reação, aquelas palavras lindas! Parecia estar de volta o cavaleiro andante e reluzente por quem Liz um dia se apaixonou. Ainda assim, ela estava muito magoada com tudo o que tinha acontecido. Não queria ir, mas também não queria dar o braço a torcer. Ela simplesmente não disse nada... e ficou.


Parte 6 – Onde a estória se inverte.

Passados os conflitos, tudo parecia estar bem entre Liz e André. André realmente se esforçou mais para ser um melhor companheiro. Estava mais atencioso, paciente, compreensivo, carinhoso. Estava fazendo o estilo do homem-perfeito. Liz estava satisfeita, sendo que nunca se esquecera do desenrolar dos fatos. Lá e cá sempre apontava um pouquinho de insegurança, de neura, sendo que André sempre fazia questão de acalmá-la e assegurá-la de que nada iria se repetir. Após a reconciliação e o medo da perda, a paixão voltou a bater à porta, sendo que com a estabilização das coisas, tudo ficou naquela velha e conhecida tranqüilidade-morosidade. André sabia o que havia prometido, mas a promessa já lhe parecia difícil demais de ser cumprida. Os amigos voltaram a chamá-lo para sair e farrear. No início André relutou, sendo que com um pouco mais de tempo de morosidade na relação e fogo no couro, não agüentava mais.
Como toda traição, começou no pensamento ocasional. Vez ou outra, André se pegava tentando bolar outro plano infalível, outra estratégia para conciliar seus dois amores: Liz e a Farra. Esses pensamentos ocasionais se tornaram mais freqüentes, de semanas passaram-se a dias, de minutos e segundos a horas, o tempo todo! Sempre se pegava pensando essas coisas, reparando outras mulheres, invejando jovens que passavam na rua bebendo e se divertindo. As mulheres pareciam mais bonitas, e como havia mulher bonita e solteira na cidade do Rio de Janeiro!!! Ao se acostumar e conviver com a idéia, o que antes era proibido já não parecia tão mal. Procurou argumentos para a idéia do diabo. Que isso é coisa de homem, é instintivo; que vez ou outra não faz mal; que é preciso para esquentar e manter uma relação. Toda noite André dormia com a farra que acontecia nos clubes e bares do Rio de Janeiro, que para ele se passava apenas no imaginário fértil de sua cabeça recostada no travesseiro. Ele se imaginava lá. Imaginava o que iria fazer, o que iria dizer, com quem ia ficar, o que iria beber, as estórias, as resenhas, os amigos, a música, jantares, risadas, mulheres. Esse turbilhão de pensamentos, pouco a pouco, se transformou em palavras e conversas com amigos. Voltaram as pequenas saídas e cervejadas. Liz relutou um pouco, no início, mas depois não insistiu. Aparentava confiar no companheiro. Com toda essa facilidade, não demorou para André voltar a trair, e em começando, não parou mais. Apesar de sair para farrear, André não descuidou de Liz, pois considerava ter sido seu maior erro na primeira vez em que foi pego. Continuou carinhoso, compreensivo, paciente. Achava que se proporcionasse tudo isso a Liz e não descuidasse nos detalhes, poderia realmente levar tudo no papo. A primeira farra que fez foi na casa de uns amigos. Bebeu muito e dormiu com a Carmen, a mesma loira gostosa de anos antes. Da primeira farra para a segunda teve um intervalo de dois meses. Da segunda para a terceira um mês. Da terceira em diante, quinze dias, dez dias, e a partir daí toda semana. Tudo voltou à mesma. Era o reinício de um ciclo, sendo que sem os blazeres brancos e o sotaque americano. Certo dia, após muitas e muitas semanas de farra, veio o deslize, inevitável quando se possui uma vida dupla. André deixou o celular à mostra e havia esquecido de apagar uma mensagem que recebera de Carmen e que dizia: “Foi muito gostoso passar a noite inteira com você”. Mensagem típica de biscate. Liz, em mais um de suas crises de insegurança, fuçou o celular de André e achou o que queria, ou o que não queria ver. Foi um escândalo! Baixaria, gritaria, briga, xingamentos, arremesso de copos e de pratos quebrados, e.t.c:
- Seu cachorro, você não toma jeito!!! – e lá se iam meia dúzia de copos e pratos.
- Você é um safado!!! Eu nunca mais quero olhar na sua cara de novo – Quebra o vaso do centro de mesa que haviam comprado juntos.
- Eu sou é muito burra de confiar num safado farrista como você!!! – lá se ia o cinzeiro.
- Eu ainda vou abandonar você, você vai ver – e... (silêncio) não se quebrou nada. Liz havia parado em frente a André, perto da porta. Não estava mais descontrolada, desequilibrada. Possuía feição e aspecto de fúria contida, de vingança guardada e já prometida. Não havia mais descontrole, só raiva canalizada. Não pareciam mais amantes, e sim inimigos. Após ameaçar André, Liz pegou sua bolsa e saiu de casa batendo forte a porta que ficava atrás. Nesse momento André sentiu muito medo. A promessa de sua amada não parecia obra do calor da emoção, mas de profecia anunciada. Sentiu-se só.



Parte 7 – Sonhos e segredos secretos

Ao desesperar-se, André fez novamente uso de sua infalível lábia, lágrimas e carinho. Liz voltou à casa na manhã do dia seguinte. André já havia preparado algumas surpresas e linhas infalíveis para conseguir o perdão de sua amada. Estava realmente arrependido. Não do que havia feito, mas por causa da sensação de perda e solidão que sentia. Estava inseguro pela imagem daquela última cena de sua amada ameaçando-lhe tão seriamente. Acreditou nas palavras que balbuciaram de sua boca, e tinha razão para tanto. Ao deparar-se com Liz, ela estava visivelmente chateada, porém estava calma e tranqüila, segura. Mal André começou a pronunciar o seu discurso de recuperação e ela já disse:
- Tá tudo bem, André, eu entendo e lhe perdôo e a gente vai resolver isso. André, como não era burro, não acreditou em nenhuma palavra que saíra da boca de sua amada, mas na sua concepção – como na maioria dos amantes, era melhor estar perto, ainda quando não querido, do que definitivamente longe e esquecido. Achava que com o tempo e com seus truques, com seu traquejo com as mulheres, poderia reconquistá-la. Ainda se confiava, sendo que Liz estava muito mudada. Já não ligava mais para as saídas de André, ou para as “reuniões” até tarde. Estava menos ciumenta. André procurou algumas vezes causar-lhe sensações de ciúme, para ver se abalava ou reacendia o fogo da paixão que ele via que andava quase apagado. Lá e cá dizia que alguma mulher tinha dado em cima dele, que tinham lhe elogiado, mas Liz não reagia, dizia-lhe apenas um simples:
- Foi mesmo?! Tome cuidado.
Ela continuou a portar o ar de indiferença que adquiriu naquela noite em que saiu de casa. Andava sempre com a sombra suspeita da vingança sobre sua cabeça. Não prestava mais atenção em André. Passou a descuidar dos cuidados da casa, que ficou um pouco abandonada. André, contudo, manteve-se no papel de marido-perfeito-atencioso e agora, caseiro. Ficava sempre em casa, preparando uma surpresa para sua mulher. Continuava a sentir-se ameaçado, mal-querido, só. Ligava muito para Liz, queria sua atenção, sendo que ela nem sempre atendia o celular. Quando demonstrava muita atenção, perguntava para onde André estava indo, e dava-lhe alguma recomendação do tipo “Não vá beber muito”, ou “Cuidado com a vida”, emendado por um chocho “Eu te amo”! André se animava com aquele pouco de misericórdia que lhe era dado. Era a esperança que necessitava para pensar que as coisas poderiam mudar. Pobre amante, como qualquer outro, somente enxerga o que quer ver.
No próximo passo, Liz não passou a sequer perguntar algo, e por fim, já não estava mais em casa quando André estava de saída. Havia arranjado um grupo de amigas para se divertir, ao invés de se limitar à antiga e velha rotina de ficar em casa preocupada e neurótica. Seu “grupo” geralmente se reunia nas “sextas-feira”. André só percebeu isso quando havia planejado um jantar romântico para o dia apontado. Chegou em casa do trabalho e chamou por Liz, sendo que ela já não mais estava lá:
- Liz... meu amor, eu já cheguei e tenho surpresas... (silêncio) Liz, cadê você?!... Ta se escondendo ou ta dormindo?!?! ... Liz?!... Lizinha... Amor da minha vida?!?!... Após inúmeros apelos, percebeu que todas as luzes – menos a do quarto – estavam apagadas. Ao se dirigir ao cômodo, viu por entre a frecha de claridade que saia da porta entreaberta do banheiro, que havia um monte de roupas reviradas em cima da cama. Ao que parecia, Liz havia passado a tarde procurando algo para vestir à noite. Ao constatar isso, André novamente sentiu-se desprezado. Parecia que não havia mais ninguém que se preocupasse com ele, que sentisse sua falta e lhe quisesse ao seu lado. Se morresse ali, naquele dia e naquela hora, era capaz que as pessoas só notassem sua falta dois ou três dias depois, quando o cheiro insuportável de carne putrefada mandasse o recado aos vizinhos. Sentiu-se mal, mas não desistia, iria até o fim.
O ritmo das saídas de Liz continuava a aumentar na mesma proporção em que diminuía a atenção e o carinho que dispensava à André. André começou a reparar que sempre que saía, bebia, e chegava em casa, no mínimo, um pouco alterada. Algumas vezes chegou em casa realmente bêbada, do tipo de que necessitava da ajuda de André para poder entrar em casa, tomar um banho e deitar na cama. André fez isso por ela todas às vezes. Tomava-lhe pelo braço e apoiava-lhe no ombro, dava-lhe um banho e deitava-lhe carinhosamente na cama, de robe, enquanto ela imergia num estado incrivelmente profundo dos seus sonhos e pesadelos secretos. No outro dia, André não lhe perguntava nada nem ela lhe esclarecia. Fingiam que nada havia acontecido. Certa vez, enquanto colocava a sua amada Liz para dormir, ela, num súbito e repentino surto de lucidez, puxou-lhe contra o seu corpo seminu, coberto apenas por seu robe, e disse-lhe:
- Venha, eu quero você!
André ficou surpreso e animado, pois fazia muito tempo que não transavam, e respondeu-lhe:
- Meu amor, Liz, eu também te quero, você vai ser para sempre ser a minha Liz, e eu, para sempre o seu André.
- André?! André, não, você não, André – emendou, empurrando o seu desafeto e imergindo em seu profundo sono, enquanto acordado, e triste e só, ainda restava um André. Tristeza.



Parte 8 – Tempos de solidão.

No dia 26 de abril do ano corrente André e Liz completariam cinco anos de relacionamento e desentendimentos. A data deveria ser especial para ambos, sendo que naquele momento, só a André importava. Era capaz de Liz nem sequer se lembrar, se não fosse as constantes lembranças e avisos por parte do seu ex-amado. André estava tentando a sua cartada final: havia programado uma viagem a dois para uma ilha deserta e paradisíaca na Tailândia; ia ser somente os dois, numa ilha deserta, durante o tempo necessário para resolverem os seus problemas e reacenderem-se os seus amores. Não seria possível que num local deserto, onde estivessem apenas os dois, que não conversassem. Nem que fosse primeiro para brigar, se matar, chorar, uma hora ou outra iam ter que se comunicar de verdade. Era isso ou a loucura, e era o plano de André. Conseguiu convencer Liz, a duras penas, a embarcar nessa furada. Já havia preparado e arrumado tudo, inclusive as malas. O avião saía à meia noite da virada do dia 25 para o dia 26. No dia do aniversário do casal, André havia planejado um jantar romântico na varanda do resort que dava de frente para a fantástica vista da praia. Havia sido combinado o seguinte: André sairia do trabalho às 19:00 horas, iria em casa rapidamente para pegar as malas do casal e se dirigiria ao aeroporto. Liz, que também trabalhava até tarde, apenas teria o trabalho de se encontrar com André no saguão, e depois disso, vôo.
André saiu um pouco mais cedo do trabalho, às 18:50h. Correu em casa, pegou as malas alegremente, chamou um táxi e saiu. Ostentava o mesmo sorriso de tempos atrás. Estava alegre e confiante em seu plano. Chegou ao aeroporto às 19:30, rapidamente tirou as malas, fez o check-in e às 20:20 estava tudo pronto... “pronto, agora é só esperar Liz”, pensou. 20:30... nada... André já estava ansioso, porém não preocupado... 21:00... “Cadê ela?! Deve ter se atrasado no trânsito”... 21:30... “Poxa, que demora da porra, eu acho q vou ligar”... 22:00h... não atendeu o telefone. “Não atendo o telefone, como assim?!?!”. André buscou se informar no aeroporto para ver se tinha acontecido algo, se havia um grande engarrafamento ou se bloquearam alguma rua... nada. 22:30... “Ela não vem!”... 23:00h, ele ligou novamente e nada dela atender, “O embarque já é agora!”. André se desesperou. Já previa o resultado dos acontecimentos. Mas porque ela não viria?! Porque?!
André se iludia e ainda não via o que estava o tempo todo escancarado à sua cara. Em um momento de lucidez, ou então de mais humilhação, teve a idéia de ligar para Liz de outro número. Poderia dar certo. Foi rapidamente à banca de jornais que havia no aeroporto, comprou algumas moedas e tentou. Primeiro toque... nada; segundo toque... não responde; Terceiro toque:
- (Muito barulho) Alô?! Alô?! – “Ela atendeu!!! Safada, não queria me atender! Rapariga! Puta!”. Só em seus pensamentos André proferia aqueles xingamentos que tanto queria dizer, pois sua boca ainda pronunciava as palavras de desespero e submissão de quem não queria perder aquela mulher e ainda por cima, ter de viajar só.
- Liz, cadê você, Liz?!?! Já está na hora do embarque... venha embora logo!!!
- (barulho e silêncio por alguns eternos- segundos)... Quem é?!?! (Voz alterada).
- É o Andr... (telefone desligado).
- Desligou?!?! Eu não acredito nessa rapariga, rampeira!!!! Sua puta safada e vazia!!! - Finalmente teve coragem de falar o que sentia, não para Liz, mas para o telefone mudo e fora do gancho, e para as dezenas de pessoas que passavam pelo telefone público e se espantavam com aquela cena de desequilíbrio e descontrole.
- Eu vou ligar para ela e vou dar uma mega esculhambação! – E ligou novamente... telefone desligado. André teve um acesso de raiva e loucura. Bateu o telefone no gancho, ligou outras vinte e cinco vezes, e em todas elas, ouviu a secretária dizer que “esse telefone está temporariamente desligado ou fora da área de serviço”. Depois da vigésima quinta vez, desistiu. Às 23:45 do dia 25 de abril do corrente ano, embarcou sozinho, puto da vida e doido para fazer algo. Se prometeu que quando chegasse lá iria tomar a maior cachaça que já havia tomado em sua vida, e que iria fazer a maior farra de todos os tempos, nem que para isso tivesse que gastar todo o seu dinheiro. Colocou na cabeça a idéia de que, quando voltasse, já iria ter esquecido Liz. Mais um pouco de tempo de espera e de vôo, e sua raiva e recente determinação já haviam passado. Sentou-se sozinho numa cadeira na janela, encolheu-se, recostou a cabeça no vidro do avião e ficou lá. Enquanto voava, sua vida inteira se passava pela sua cabeça... o que tinha feito, o que havia almejado e alcançado. Se lembrou da trajetória que havia elaborado para sua vida, e teve a infeliz constatação de que o rumo da sua vida havia se desvirtuado de seus planos. Em todos os seus pensamentos estava Liz, desde os mais remotos tempos de sua infância até a mais alta idade de sua velhice. Era como se ela fosse desde sempre um personagem que habitasse a sua vida e seus pensamentos. Suas vidas pareciam indissociáveis, e por mais que tentasse, não conseguia sentir raiva dela. Em várias oportunidades chorou, porém discretamente, para não ser percebido e notado. Queria manter a sua imagem de homem forte.
Ao chegar à ilha, a expressão de loucura e frenesi havia sido substituída por a de um homem deprimido e acabado. Já havia passado muito tempo pensando sobre si mesmo no avião. Quatorze horas de vôo. Estava cansado. Parecia um morto-vivo, não modificava a expressão de desânimo e pesar. Recolheu suas malas e saiu, carregando-as com aqueles braços esticados, aquela postura ereta e o seu olhar e sua expressão fugaz e fugitivo. Mirava sempre o horizonte, e nunca mirava nada. Ao chegar no resort, mal falou. Ao perguntarem-lhe pela reserva apenas disse: - André Camacho. Levaram-no até o quarto, e que suíte! Era uma mistura do moderno com o exótico. Ao entrar, podia-se ver uma sala de estar redonda, que ficava ao centro e abaixo do nível do restante do imóvel, toda coberta por plantas e flores tropicais. Um pouco à direita, uma enorme cama de casal feita toda em bambu e fibra de carnaúba, e ao seu lado, um enorme banheiro duplo de porta de vidro transparente, no qual na parte de trás havia uma sauna. Lembrava um pouco um quarto de motel. A vista da suíte era formada por uma enorme parede de vidro trabalhado e transparente, que emergia do chão e chegava até o teto. Do alto dessa enorme e imponente parede de vidro e do quarto do resort, que ficava sobre uma enorme falésia que existia, podia-se ver, lá embaixo, um agitado mar quebrando-se em ondas sobre as pedras, e a paisagem formada por pedras, falésias e vegetação nativa. Parecia-se estar diante de um precipício. Bem perto da janela de vidro, colocada a seu lado e de forma paralela, havia uma pequena mesa redonda feita de fibra de coqueiro trabalhada, e duas cadeiras ovais, do mesmo material, viradas uma de frente para a outra. Do lado esquerdo da cadeira esquerda havia um suporte metálico onde havia um balde de gelo e uma bela e grande garrafa de champagne Chadornay. Sob a toalha branca que cobria a mesa havia duas velas, já acesas, e dois pratos quentes e recém-chegados de massa e especiarias tailandesas. Ao ver toda aquela cena que havia ordenado, André largou as malas, tirou uma roupa e foi tomar um banho, com muita calma e serenidade. Parecia estar em um outro tipo de transe, mais forte do que o de anos atrás, permanente. Tomou seu banho e trocou a roupa. Colocou uma camisa branca de manga longa, listras finas azuis e gola armada, junto com uma calça jeans clássica e um sapato preto, combinando com o relógio que havia comprado. Sentou-se calmamente à mesa. Puxou a cadeira, sentou-se, recolocou-a em seu lugar, puxou o guardanapo que estava à frente e posicionou-lhe calmamente em seu colo. Estourou a garrafa de champagne e preencheu pela metade as duas taças que havia. Antes de apanhar seus talheres, tirou algo do bolso, uma caixinha preta e pequenina que havia guardado. Colocou-a de frente ao lugar vazio que havia no outro lado da mesa e abriu-a. Dentro, um lindo e enorme anel de brilhantes que direcionava o lugar vazio que não havia sido ocupado. André levantou sua taça, fez um brinde com o vazio, recolocou a taça em seu lugar, abaixou a cabeça e comeu, tranquilamente, mas sem parar sequer um segundo. Pairava no ambiente um silêncio sepulcral. Não se escutava nada, nem mesmo o barulho dos garfos se batendo ou das deglutições de André. Após terminar o jantar, bebeu toda a garrafa de champagne que havia pedido, e outras três mais que acabou por pedir. Bebeu até apagar, com roupa e tudo, na enorme cama que havia em seu quarto. Acordou no outro dia com calor – não havia ligado o ar condicionado. A claridade que entrava pela enorme janela incomodava-lhe os olhos e doía-lhe a cabeça – não havia fechado as cortinas. Sua boca estava seca e amarga. Estava todo suado. Sua pele e seus cabelos estavam oleosos. Estava com a maior ressaca e dor de cabeça que já havia experimentado. Sentia-se mal.


Parte 9 – Do final dessa estória.

A semana inteira que André passou na Tailândia não significou nada. Parecia sempre estar num estado de transe, num limbo constante aonde a vida não passava nem se acabava, era como o “nada”. Não conheceu nenhuma praia famosa, não visitou os pontos turísticos, não foi a festas, não mergulhou nem farreou o quanto queria. Não saiu do hotel, senão um dia em que se dirigiu ao maior e mais isolado monte que havia na ilha. Chegando lá, virou-se à direção onde mais ou menos achava que estava o Brasil, e de lá, sozinho, gritou como um louco
- “Raaaaapppaaaaarrrriiiiiiiiigaaaaaaaaaaa” - bateu no peito, como que querendo arrancar de dentro de si o seu coração podre e inservível, consumido pela angústia e pela dor. Chorou muito, soluçou tanto que chegou a engasgar-se. Sofreu e clamou todas as mágoas que guardava por sua doce inimiga. Cantou algumas músicas e declamou alguns versos em tons tão melancólicos que poderia fazer chorar e entristecer até a mais alegre alma que passasse por ali naquele momento. Voltou para o hotel quando já era bem tarde da noite. Desceu o caminho da serra, por entre a mata fechada e a estrada de barro, sozinho, somente acompanhado pelos vaga-lumes que iluminavam a noite e pelo barulho das cigarras que cantavam a sua marcha fúnebre. Ao chegar no hotel, já postava novamente o seu ar de desânimo e melancolia. Após Alguns dias, se socializou à noite e saiu para beber no bar, sendo que não falava nem respondia à ninguém, e geralmente, se embebedava até dormir, sozinho e deprimido, apoiado no balcão, sendo o último a sair, sempre carregado por funcionários do hotel. Na maioria das noites, se limitava a beber e curtir a sua dor sozinho, em seu quarto, bebia sempre até apagar. Não conheceu nenhuma mulher, a maioria achava estranho aquele homem sozinho e com cara de maluco, e as poucas que tentavam aproximação eram afastadas pela ignorância – no sentido de não falar. Muitos não se esqueceriam nunca daquele hóspede de estranha figura e olhar fugaz. O mais esquisito que já havia ido passar férias na Tailândia.
No vôo de volta, André já nem pensava mais nada, só vez ou outra que o nome e a imagem de Liz lhe vinham à cabeça, mas na maioria do tempo, estava com seus pensamentos vazios. Um pouco antes de chegar, quis mais uma vez se iludir, e pensou, “quem sabe ela vai estar lá no aeroporto, e vai me pegar?!”. Não estava. Não havia ninguém, como não queria supor. Ao chegar em casa, percebeu pela entrada que sua residência havia sido abandonada durante todo o tempo em que esteve viajando. Ao entrar, viu a grama da entrada alta e as plantas secas e murchas – não haviam sido regadas. Entrou na sala e estava quase tudo vazio. Os móveis maiores, o sofá, a poltrona, a estante, estavam lá, mas a decoração, as fotos, os presentes, os quadros, haviam sumido. Aquela sala estava tão vazia quanto a cabeça e o coração de André. Largou as malas, se dirigiu ao quarto. O guarda-roupa estava escancarado, e igualmente vazio. Liz havia levado tudo. Não havia deixado sequer uma camisa, uma calcinha, era seu sinal de que realmente havia ido para nunca mais voltar. A profecia então se cumpria. André não procurou saber notícias suas. Nunca realmente compreendeu o que ocorreu, e nem queria saber mais. O mais importante, já sabia. Vez ou outra, alguma notícia dela chegava até os seus ouvidos quando alguns de seus amigos lhe ligavam para animá-lo. De acordo com alguns, ela o havia traído com o mesmo Hércules de anos antes, que tinha voltado para dar o troco e fugir com Liz; outra versão é que Liz havia desenvolvido o vício pelas drogas e pelas festas, como seu ex-marido; outros, ainda, juravam que, por desilusão amorosa, Liz havia se revoltado e se prostituído. Juravam que a viam pela Avenida de Copacabana, toda emperiquitada e maquiada, transformada, irreconhecível. Liz virou uma lenda urbana, e sua estória com André se transformou, de um lindo romance, para o drama, e André nem sequer ligava mais. Não ligava para mais nada. Esqueceu o trabalho – havia mil e uma mensagens em sua secretária de seu escritório, mas não respondia. Os amigos ligavam, mas não, não queria sair, nem mais farrear. Sua casa estava uma bagunça, e à mesma medida que ela se deteriorava, o seu dono afundava junto. Parecia estar atolado numa areia movediça que puxava-o para baixo, e ele sequer reagia. Sua barba havia crescido, seu cabelo estava desgrenhado, desajeitado. Sua cabeça continuava vazia. Vez ou outra, bebia, e quando bebia demais, chorava, pensando na sua vida e numa outrora e já tão distante alegria. Carlos, seu amigo machista ligou certa vez, e lhe disse:
- Ô major, você tem que reagir, seja homem porra, mulher é assim, vai uma, vem outra, você pode pegar toda hora. Tentativa falha. Já não mais adiantava, não queria, e como já se dizia, “a cabeça vazia é a oficina do diabo”.
Certo dia, após meses e meses de depressão, acordou muito melancólico e saudosista. Já não tinha vontade de fazer mais nada, sua vida não valia. Era um lindo e ensolarado dia de verão, mas para ele, só mais um dia de trevas e escuridão. Resolveu beber logo cedo, pegou um velho whisky que ainda sobrara no seu bar já seco e desgarrado, e começou a beber, dose “cowboy”. Colocou uma cadeira de frente à porta de vidro que separava a sala da área de lazer e da piscina. Bebeu uma, duas, três doses, quando que pela fragilidade de seu fígado sempre etilizado, já estava bêbado. Pegou uma antiga caixa de cartas e lembranças do passado. Colocou sua antiga vitrola de vinil para tocar. Viu fotos do passado. Depois, passou a ler alguns papéis. Reconheceu-os. Eram as inúmeras cartas e poesias que havia escrito para Liz, sendo que agora, já não mais existiam cartas, versos e poesias de amor; eram apenas um amontoado de palavras sem qualquer significado, expressão ou sentimento. O que era eterno teve um fim, o infinito se acabou, como uma pequena e frágil chama. Sentiu-se triste mais uma vez ao se relembrar do amor que havia acabado de forma tão trágica. Tinha tudo para ser tão bonito. Se arrependeu mais uma vez, e amargamente, de não ter dado valor à sua mulher, de ter se entregado à farra, de ser assim. O seu jeito, a sua essência, havia sido sua tragédia e o seu coveiro. Lágrimas rolaram pelo seu rosto. Expressão de abatimento total. Pensamentos e expressão de loucura, desespero. Havia chegado ao seu limite, não agüentava mais tanta dor e tanto sofrimento por tanto tempo. Continuou a ver os documentos que havia. Deu outro gole na sua forte bebida e reparou a música que tocava. Ao ir passando os papéis, uma surpresa final: no fundo da caixa de presentes ainda havia uma antiga arma calibre .38 que guardara dos tempos em que se interessava por caça, armas e munição. Um impulso veio à sua mente. Abriu o tambor: havia apenas uma velha e corroída bala que provavelmente já não era mais servível. Se lembrou que havia guardado aquela arma para eventual necessidade, para segurança própria e de Liz. Fechou a arma, olhou-a por alguns segundos. Escutou algo que vinha da vitrola, uma música conhecida. Nesse momento, chorou forte, fez expressão de dor, posicionou a arma sobre a sua cabeça e disse, com a mesma expressão fugaz e fugitiva e o olhar fixo para o horizonte que já portava por tempo demais:
- Vamos ver que fim o destino reservou para mim. Disparou.
Por um momento, viu-se um enorme clarão e um ensurdecedor estrondo que preencheram toda aquela sala escura, protegida pelas cortinas e portas bem fechadas. Um segundo depois, silêncio... um corpo ao chão, e um rio de sangue. O néctar da vida esvaia-se do corpo semi-morto de André na mesma medida em que aquele rio de sangue se encorpava de seu líquido viscoso e vermelho-negro. O que antes era vermelho-roxo, vermelho-paixão, agora era vermelho-morto. Silêncio total... e ao fundo, apenas o baixo som de sua antiga vitrola que tocava uma música que dizia: “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar... Ai, que bom que isso é, Meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar... Mas se a luz dos olhos teus resiste aos olhos meus só pra me provocar... Meu amor, juro por deus me sinto incendiar...”
...
Dias depois, a morte de André foi anunciada aos seus vizinhos pelo cheiro podre e putrefato de sua carne em decomposição, como havia previsto anos antes. A polícia e os bombeiros foram chamados ao local. Uma nota saiu no jornal. Quilômetros e quilômetros de distância, em alguma parte do imenso Brasil, uma pessoa leu aquela pequena nota no jornal e não demonstrou qualquer tipo de reação. Nada sentiu. Era como se fosse um desconhecido.

FIM.
(Eduardo Dantas)

“Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais

Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar

Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar”

(Vinícius de Moraes)




sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Trecho de "Vago"


Em sua primeira nota do dia, o sol resolvera sair em mi menor, refletia na já penosa geladeira uma cor ferrugem que parecia corroê-la ainda mais. Eu arrotava o vinho vagabundo da noite anterior enquanto tentava alcançar um copo d’água. Havia passado dos limites como de costume e era acometido por uma sequidão sem igual na boca. Minha vontade era de não levantar, por mim dormiria para acordar alguns anos depois, quando talvez ela já tivesse esquecido meus tropeços. Sem mais grandes objetivos – ou nenhum mesmo – perdi o que considerava ter de mais importante. Sentia-me abjeto. Meu pai costumava falar que o simples fato de escolher sair de casa com essa ou aquela roupa, já mudava toda a seqüência de acontecimentos do universo e  por óbvia conseqüência, da vida de todos. Escolhas, ora. Pena que só entendi isso depois. Hoje sozinho, lembro dela com saudade dolorosa. Só de pensar me dá vontade de não viver, e só não desisto mesmo por medo de agulha, arma e altura. Tinha tudo que queria e mesmo assim vaguei pela vida achando estar sempre faltando algo – típico – hoje sinto que tudo me falta. Falta ela.

 

Leandro Matias

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Meus agradecimentos

Uma data de soberana estima se avizinha. Minha formatura está chegando. Em breve deixarei o status de acadêmico de Direito e ingressarei na vida real, o tão temido mundo forense. No entanto, por mais amedrontador que pareça, o sentimento que me compõe é de puro fascínio. Dentre incertezas e alegrias, livros e bebidas, desfruto o gozo do dever cumprido.
No decorrer desta etapa, fui agraciado com prezados amigos, e - por que não dizer? – leitores preciosos. Diante da impossibilidade de oferecer o convite formal a todos eles, venho aqui expor minha mensagem final, no afã de homenagear aqueles que me escoltaram à primeira conquista.


Eis meu primogênito triunfo! Recebo o diploma de bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No entanto, não serei apenas mais um corpo coberto de terno e gravata em meio a um arsenal forense. A vitória que conquistei e hoje comemoro não se perfez em um instante; é fruto de um processo delongado e deveras aprazível.
Ao longo da jornada universitária, fui vítima de uma surpreendente metamorfose psíquica. Aprendi que meu papel é vigiar em prol dos valores do Humanismo e do Estado Democrático de Direito. Tive agredados à minha personalidade valores que fazem de mim um jurista mais eqüitativo, um homem mais ético, um ser humano mais digno.
Com muito regozijo, exprimo que não logrei tal êxito sozinho. Fui abençoado com companhias sublimes. Agradeço a Deus, que diariamente me enche de fé para que eu siga sempre em frente; à minha mãe, Sara, a personificação do amor, exemplo divino de educação e afeto, que, com sua incomensurável dedicação aos filhos e inigualáveis lições práticas de determinação, estimulou-me a buscar com perseverança; ao meu pai, Absalão, em quem me espelho, o homem mais honesto que conheço, que com sua admirável sociabilidade e notória inteligência, fez-me enxergar os desvios obrigatórios na estrada da vida; à minha irmã, Albinha, meu anjo terreno, minha melhor amiga, o coração da casa, que, com sua fragorosa vivacidade e preleções cotidianas de amizade, enche os meus dias de alegria e da certeza de que nunca estarei só; à minha namorada, Rafaela, por fazer meu coração pulsar amor; e aos meu amigos, pelas gargalhadas dadas
.



Flávio Pinheiro

quarta-feira, 9 de julho de 2008


Havia acordado arredia. Nesse dia nem os sapatos calçou. Chorou, xingou e nada. Nada adiantava. Na sala, a TV ligada ignorava o dia, tentava a salvar do breu que se esparramava folgado no sofá. Escolhera ficar só ali com seus botões, dividindo a cama com a solidão. A janela fechada sugeria, com o pouco de luz que lhe fugia, outras saídas. Mas como estava, assim ficou a menina. Sombra tomada de desesperança, flor sem senso de humor, refugiada no que lhe restava de bons pensamentos, pessoas, danças. Podia, mas não queria. No abandono de si mesma, em seu silêncio telepático, as recordações frondosas de um amor que há tempos, a tempo partira.


Leandro Matias

domingo, 8 de junho de 2008

Pensamento do dia: o burguês e o aristocrata

Argumentavam o rico burguês e o sábio aristocrata acerca do que os fariam mais importantes: o poder econômico ou o intelectual, até que o astuto e inteligente homem disse que cada dom era o mais importante sob a perspectiva e os valores de quem estivesse observando, sendo que o dele o ajudava a convencer pessoas, reverter valores, e trazer para o seu lado a opinião do senso comum, a do seu adversário inclusive. Nesse instante, sem se tocar que havia caído na armadilha que havia sido a pouco enunciada, o "fraco" burguês se convenceu das razões do sábio aristocrata, e da teoria da supremacia das idéias. Inteligência ou oratória? Talvez ambas.
Eduardo

domingo, 1 de junho de 2008

Perigo: FOFOCA!

De uns tempos para cá, o mundo mudou em demasia. Evoluções colossais foram empreendidas nos mais diversos âmbitos do mundo contemporâneo. Medicina, transporte, comunicações... De e-mails a células-tronco, não resta buços de dúvidas que a mudança mais gritante, sob o meu prisma, foi o comportamento das mocinhas!
E que ninguém se engane; não usarei metáforas, nem tampouco eufemismos. A mudança de que falo concerne a sexo. Ora mais ta, há alguns poucos anos, as mocinhas deste estado demoravam para transar. Apenas o faziam depois de vários anos de namoro fixo, e ainda assim, não raro, eram taxadas de modernas. Hoje, a coisa está debandada. As jovens, de modo geral, transam em banda de lata. Pouco importa tempo de relacionamento, ou sentimento. E se a porteira já estiver aberta, aí é que é só deixar passar a boiada. As mulheres se comportam como os caras, e acham bonito; sinônimo de independência. Alguns adoram, outros, nem tanto. Mas todos preferem as menos sambadas!
Meu escopo não é criticar, sequer julgar, até porque fico bastante satisfeito com a tal evolução. Mas, elementar, meu caro; tanto benefício teria de trazer alguma desvantagem. E é aí onde reside todo o perigo: a fofoca feminina.
Ora, mulher fofoca por natureza; comenta sobre tudo mesmo. É inegável que acerca de sexo não seria diferente. Elas, com suas listinhas, empreendem debates de deixar qualquer um estupefato. Não dispensam um detalhe: intensidade pentelhal, freqüência dos batimentos (não-cardíacos) e tamanho da madeira.
Foi aí que complicou! Com tanto comentário, o homem tem de fazer bonito; sua responsabilidade aumentou; cada trepada é uma auto-propaganda. E ai daquele que despombalecer... depois tem de correr atrás para se redimir.
As mulheres que não pensem que nossa tarefa é fácil como a delas. Temos que estar sempre alertas, trepar regularmente e ter o timing da explosão. Tem muito cabra aí pelo meio do mundo consultando sexólogo para melhorar as performances. Aqui, num estado como nosso Rio Grande do Norte, apenas se ouve do acontecido.
Em um interior muito longe, lá onde o peido perdeu a catinga, tinha um camarada chamado de Chico Tripa. Ele era só o pavil, magro que só traveco em final de carreira. Mas o infeliz adorava se empabular das trepadas que dava; segundo ele, impotência era invenção da mídia. Pois bem, um certo dia, depois de muito forró, dançando mijador com mijador, ele conseguiu levar Shirlinha, a jovem mais fogosa da cidade, para o motel. Foi o caminho todinho taiado. Chagando lá, ela se despiu – boa que só uma porra! Ele ficou tão nervoso com a gostosura da nega que seu pau amoleceu. Fez de tudo, o coitado – bomebeou, arregalaçou, sacudiu – mas não tinha jeito daquela macaxeira endurecer. Já ciente que seu pau tinha dado pra trás, Chico Tripa apagou a luz do quarto e fez o serviço de outros modos. Depois de 20 minutos, já com o xibiu engilhado, Shirlinha deu um berro das arábias e gozou. Chico Tripa sorriu; pagou a conta do motel de foi embora conformado. Levou consigo o que dizia o velho poeta: “Em homem com língua e dedo, mulher nenhuma mete medo”. Shirlinha, como era de se esperar, arregaçou; contou a estória pra Deus e o mundo. Já Chico Tripa, depois desse dia, nunca mais abriu a boca para falar de pau mole.
Em um outro interior, vizinho de onde Judas perdeu as botas, tinha um rapaz abonitado; cabelos lisos, rosto alvo, dentes brancos e feições afiladas. Era Medeirinhos. Medeirinhos era comedorzinho de gente; comia as menininhas todas daquela região. Chegava no forró, perfumado e sacudindo relógio no pulso. Logo as negas ficavam doidas. Ele tomava seu goro, e se encangava com alguma jovem. Forrrozinho daqui, forrozinho dali, e ele convidava a jovem pra tomar um ar fresco. Era só o que bastava. O sarrabuiado começava ali mesmo no estacionamento, e Medeirinhos, com um tesão do jumento bolinha, tirava direto para motel. Chegando lá, ele não perdia tempo: tirava a roupa da jovem e lambia até o útero. Quando o gemido estava acima de 100 decibéis, ele tirava sua própria roupa e botava aquele mangará de 30 cm pro lado de fora. Geralmente, a jovem não sabia se ria ou se chorava. No entanto, ele não a dava tempo pra pensar, botava-lhe logo pra dentro. E aí era que dava problema: se Medeirinhos não estivesse envernizado, o negócio era ligeiro. Ele dava uma, dava duas, na terceira ele já estava se tremendo, na quarta, o tiro era grande. O moleque era rápido no gatilho. Assim num tinha trepada que prestasse.
Medeirinhos já muito preocupado com suas gozadas, fez de tudo: arrancou o cabresto da chiola; tomou viagra; batia duas bronhas antes de sair de casa. Mas não tinha jeito, o negócio com ele era bateu-levou.
Um certo dia, conversando com uma turma de papudinhos, ele contou de seu mal. Foi quando um deles disse: “Homem, isso é muito fácil de se controlar”. E acrescentou: “Você toma um viagra e passa um gelolzinho nos ovos. É tiro e queda!”. Medeirinhos ficou meio assim, mas resolveu tentar. No forró da sexta, ele chegou naquela mesma bossa. Saculejou o relógio no pulso e pegou uma mocinha. Maciota daqui, maciota dali, ele levou-a pro motel. Já tinha tomado o viagra no forró. Tava com o mangará que parecia um cacetete. Despiu Kátia e foi ao banheiro. Tirou o tubo de gelol do bolso, estirou dois dedos e passou uma pataraca de gel nos ovos. Imediatamente seus ovos começaram a queimar. Ele rebolou a calça pra cima e fez carreira pra o quarto, com os ovos congelando. Chegando na cama, Kátia estava de costas e ele não contou conversa: lascou-lhe a madeira. Até que demorou mais a gozar, mas foi a sensação mais esquisita que sentiu na vida. No outro dia, disse ele no bar: “Homem, pelo amor de Deus. Foi estranho demais. Eu fechei os olhos e lasquei-lhe a peia; era quente por dentro e gelado por fora. Eu jurava que tava comendo o cu d’um pingüim!”. Depois desse dia, Kátia caboetou a estória para todas a meninas da cidade, e Medeirinhos que era só bossa, agora era motivo de chacota. Onde chegava, gritava um gaiato: “Ovo de pinguimmmmm”!
E assim foram as estórias tristes de dois cabras da terra, que sofreram com a homérica evolução comportamental das mulheres locais. Nem tudo são flores. Os homens não entram em detalhes sobre sexo, mas as mulheres não pararão de falar. E é assim que o mudo gira. Para quem quiser se aventurar, a diversão está ai em toda esquina, bares e boates. Quem se garante, que bote seu boneco, e quem, nem tanto, vá com mais calma, pois já dizia o velho poeta: “Passarinho que come pedra, sabe o cu que tem”!


Flávio Pinheiro

terça-feira, 29 de abril de 2008

Eterna Lembrança

O carinho deixou marcas
Sentimento não será corrigido
Não se trata de ferimentos
São apenas doces lembranças
De um feliz amor vivido

Primorosos encantamentos pueris
Convertem um peito frívolo e umbroso
O vazio estava coalhado
Era momento de romance deleitoso

Flecha acúlea penetrara a muralha
Personalidade de mulher e sorriso infantil
Beleza estonteante com uma fala apressada
Inédito amor meu coração esculpiu

Tardes poderiam ter parado
Estava ao lado dela
Em bares ou em carros
A fascinação era externada
Através de rimas, as mais singelas

A imensa plenitude do amor
Só é concebida pela imaginação e fantasia
Nosso amor era obra de ficção
Éramos personagens da nossa alegria

Bochechas molhadas
Choro sua partida
Ao mesmo tempo que fumo da certeza
De que nossa paixão não será dissolvida

Agora, restam fotografias e noites
Que recordarão um amor infinito
Serão as doces lembranças
D’um feliz amor vivido.

julho/2006

(Flávio Pinheiro)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Alguns Segundos



13 de Janeiro de 2013. Que coisas são as coincidências da vida. Era o dia seguinte ao seu aniversário. Era o dia 13. Era sexta feira. Estranhas conincidências ou destino do azar? Quem sabe... o fato é que já se passava da zero hora daquela chuvosa e tenebrosa noite de sexta-feira 13. Para Marcos, o costume, num dia como aquele, era sair do trabalho às 18:00 horas, tirar o paletó, desafogar a gravata, e ir curtir um happy-hour com os seus amigos num barzinho próximo de Petrópolis. Depois o caminho era a casa, para um rápido banho e uma troca de roupas, e outra saída para jantar, beber e se divertir com os seus pares. Às vezes um programa diferente, um cinema, teatro, show, mas a resenha com os amigos e a bebericagem era de praxe, indispensável. Porém, aquela sexta-feira era diferente...não só pelo clima chuvoso, depressivo, tenebroso, como se tivesse sido extraído de um filme de suspense de Hithcook. Pior do que isso, aquele era o dia do casamento de sua amada Liz, a mulher da vida dele, com o engomado e almofada do Breno...Que dia! A única satisfação era imaginar a ruína do casamento, da recepção à céu aberto, com todo aquele pé d’água. Por um instante, Marcos esboçou um sorriso irônico no rosto, posto que lá no fundo, numa pontinha do seu interior, ele estava se deliciando e satisfazendo com a desgraça alheia, desejando que os noivos estivessem em agonia, preocupados, que talvez discutissem! Rápida regojização...em menos de um segundo passou-se a alegria, e a tristeza e decepção já estavam estampadas novamente no rosto de Marcos. Para combatê-la, procurou no bar de seu apartamento o whisky mais velho que podia achar. Preparou uma dose, sentou-se ao sofá, observou a chuva, e deu um gole daquele malte forte, mas que naquela noite parecia amargo demais, como sua própria vida.


Marcos era um jovem rapaz de 30 anos, advogado de sucesso de um grande escritório, escritor e professor. Tinha um metro e oitenta e três de altura, olhos e cabelos castanhos, lisos e penteados duma forma que ficavam volumosamente para trás, sendo que as pontas caíam para frente e cobriam-lhe parte dos olhos. Tinha a barba por fazer, biotipo esbelto, do tipo que malhava, mas que não era rato de academia. Vivia numa bela cobertura de frente pra praia...cobertura essa que naquela noite de nada tinha de bela. Pelo contrário. Todo o espaço, a escuridão e a atmosfera daquele horrendo dia pareciam ter transformado aquele lugar numa pequena e úmida cela de hospício, tamanho era o sufoco e a decepção que apertava o seu peito. Ele era escravo em sua própria casa. Sentia-se só, mas não tinha vontade de sair. Queria tirar aquele peso do peito, mas não tinha meios ou modos para afastá-lo. Nem os amigos lhe interessavam naquela hora... nem as outras mil mulheres que tivera e ainda tinha na vida e na agenda do telefone celular. Todas elas pareciam burras, desinteressantes, fúteis e medíocres, e não era questão de descriminação, radicalismo ou intolerância, não, não se tratava disso. Era apenas falta de interesse... elas não o encantavam, não o interessavam, não mais... estava velho demais para fazer aquele jogo do ficar só por ficar. A esperança estava no futuro. Futuro de quem sabe, talvez, conhecer outra mulher que tivesse tudo a ver com ele. Que fosse inteligente e linda, interessante e envolvente, bem sucedida. Que exprimisse e demonstrasse suas vontades, que conhecesse seus desejos e compreendesse seus defeitos, que dissesse o que ele esperava ouvir, que o surpreendesse, que o ensinasse, que estivesse sempre com ele e que aproveitasse com ele seus programas, mas que também soubesse se comportar. Que não fosse mandona ou chata demais, mas também não fosse tão submissa, que o deixasse sempre com vontade de surpreendê-la e conquistá-la a cada dia, e que o fizesse ter vontade de explodir de paixão e pular de alegria. E foi aí, meditando sobre as qualidades de sua mulher ideal, que Marcos caiu na armadilha preparada por ele mesmo, e o nome dela veio à sua mente. Enquanto ele levantava o rosto e olhava o agitado mar de tempestade, escutou uma voz que veio de dentro da sua própria cabeça, e que dizia, como que sussurando... Liiiiizzzz. Pode ser que não fosse, mas pelas características apontadas por Marcos, não existia mais dúvidas, Liz era a mulher da sua vida! A esperança era olhar para frente, e a sorte é que existisse outra igual a ela, ou melhor do que ela, ou parecida com ela. Marcos tentou se alegrar. Ele tinha muitas perspectivas de ainda crescer e encontrar essa mulher. Pensou até que deveria freqüentar mais congressos jurídicos, quem sabe assim ele não encontraria alguém inteligente e parecida com ele e com o que queria. Mais uma vez, ao lembrar do que queria, a imagem da atual querida veio à cabeça, e foi aí então que se tocou da tola idéia tinha bolado, e se relembrou da história dele com Liz.


Marcos e Liz sempre souberam quem era um e o outro. Sempre freqüentaram os mesmos ambientes, possuíam alguns amigos em comum, mas ainda assim, nunca tinham se falado ou reparado um no outro. Isso até um belo dia, que por circunstâncias alheias às suas vontades, foram colocados frente a frente e conversaram. Logo ficaram, sendo que meio despretensiosamente para ambos. Eles não se conheciam, e tinham uma imagem totalmente errada um sobre o outro. Walter achava que Liz era besta e fútil, como a metade das mulheres que conhecera e que habitava a cidade e o mundo. Liz achava que Walter era galinha e sem futuro, como a outra metade dos homens que completava a metade das mulheres faladas. Mas eles se surpreenderam. E quando passaram a ser conhecer melhor, a primeira coisa que passou na cabeça de Walter foi: - Como é que eu nunca notei uma mulher dessas do meu lado? E Liz: - Como é que eu nunca tinha me aproximado desse homem? E assim foi, e a paixão foi aumentando, e virou amor, e Walter e Liz desconheciam esse tipo de amor, e desconsideraram o que tinham sentido até então. Apague tudo. Passe uma borracha. Isso agora era completamente diferente de tudo o que eles tinham vivido. É um outro tipo de amor. Tudo que se passou parece pequeno, quando comparado. Walter passou a achar que Liz era a mulher da vida dele, e Liz passou a achar que Walter era o homem dos sonhos dela, e eles se amavam loucamente...sendo que aí entrou o problema. Walter e Liz tinham muitas coisas em comum além do amor mútuo que sentiam um pelo outro. Eles tinham personalidades muito parecidas. Fortes, decididos. Sempre acostumados a amar mais do que serem amados. Sempre acostumados a mandar mais do que serem mandados. Sempre objetos de desejo do sexo alheio, tinham o ego e o orgulho fortes, e acima de tudo, tinham outra coisa em comum: tinham medo de amar. Não que fosse peculiar da personalidade deles, esse é medo que habita o gênero humano como um todo, e em algum momento da vida todo mundo passa por isso. E nesse momento em que todos passam por essa encruzilhada, é tempo de decidir o caminho que irá refletir no rumo do restante das nossas vidas: é melhor encarar a insegurança de amar muito, ou então se conformar com a segurança de amar pouco e ser muito amado? Geralmente, ou unanimamente, ou quase que unanimamente, todos os homens e as mulheres escolhem a segunda via, e passam a vida conformados e até mesmo felizes com suas vidas e seus parceiros, mas sempre tem um dia, sempre tem uma hora, de tempos em tempos, em que o fantasma do cupido bate à nossa porta, e mesmo que seja por alguns segundos, passa à cabeça: E se tivesse escolhido o outro caminho? E se tivesse me arriscado? Para uns isso é cruz que os persegue a vida toda, e gera problemas, frustrações, separações, e às vezes, de bom, alguns reencontros posteriores de antigos amores. Para outros, isso é besteira e momento de pequena distração, que logo é superado com o chamado de um amigo que lhe vê dormindo acordado, pelo que logo vêm a conclusão de ter feito a coisa certa, de ter trilhado o caminho correto, ou de se lembrar que na vida não existe trilha certa e que nós sempre somos levados para lugares e situações que sequer imaginamos, às vezes melhores, às vezes piores, às vezes não dá pra julgar, e por isso devemos nos conformar e ser felizes com o que temos. Conformismo ou felicidade? A resposta é de cada leitor. O que importa é contar a história de Marcos e Liz. Voltemos.


Pois então, Marcos e Liz, após tempos de paixão, amor e convivência, se viram completamente apaixonados um pelo outro. Eles se admiravam. Apreciavam conversar. Conversavam bem. Se entretiam, se divertiam juntos, e quando estavam juntos, o tempo voava como uma flecha. Para eles, bastava um a outro, e não precisavam de mais ninguém. Cada programa era especial. Cada saída uma estória nova, um momento de descontração, uma risada sobre um fato novo, uma aventura nova. Tudo era novo e era empolgante. Para Marcos, aquele novo tipo de mulher que não tinha medo de falar o que pensava, que se impunha, que era forte porém ao mesmo tempo doce, ríspida e ao mesmo tempo meiga... e linda! Para Liz aquele homem que era inteligente, porém não era alienado. Que gostava de estudar e tinha futuro, mas que também sabia se divertir, e principalmente, diverti-la. Mas o medo que ambos tinham do seu amor começou a se manifestar. Algumas poucas discussões, um pouco de intolerância de cada parte, se transformaram, pouco a pouco, em algo mais sério, e veio a crise. Houve a separação, meio que forçada e indesejada por ambas as partes. Nenhum deles, no fundo, queria aquilo. Por serem fortes, sabiam que ficar longe era possível, que o mundo não ia se acabar e que não iam morrer, que iam encontrar outra pessoa talvez melhor, talvez parecida, talvez pior, sendo que sabiam que nunca ia ser aquela pessoa. Por isso se afastaram, e se mantiveram forçadamente longe um do outro. Porém, havia a possibilidade de reconciliação. Era chegada a hora de Marcos e Liz passarem pela decisão que todo mundo passa uma vez na vida. Ao conversarem, expuseram todas as suas razões, motivos, contentamentos e descontentamentos. Marcos queria Liz, e Liz queria Marcos, porém eles não iriam se insistir um pelo outro. Era aquele momento ali... e pronto! Agora era a hora. Ou era, ou então não era nunca mais. Eles se conheciam e sabiam disso. Marcos puxou o assunto, liderou a conversa, e deixou a resposta para Liz. Passaram-se alguns segundos, que mais pareciam séculos dentro da cabeça de Marcos. Liz parecia pensativa e insegura, e por mais que tentasse pensar em algo, era tudo um embaralhado de idéias desordenadas que não pareciam ser possíveis de serem organizadas dentro daquele curto período de tempo. Por mais que já tivessem conversado outras cento e tantas vezes, era sempre a mesma conclusão: a que não se chega à conclusão nenhuma. Uma hora se pensa uma coisa, noutra hora se pensa noutra, para Liz, tomar aquela decisão era como estar numa estrada deserta e ter de escolher entre o caminho da direita e o da esquerda, por pura sorte, ocasião ou destino. Não haviam critérios ou opiniões suficientes para se realizar uma escolha ordenada. Era escolher um por escolher... e pronto. Enquanto Liz pensava nisso tudo, Marcos já que se arrependia de ter chegado àquele ponto, e de ter se colocado naquela posição de vulnerabilidade. Quando pensava em já desistir antecipadamente, ouviu as três letras mais sonoras e destrutivas da sua vida: - N-Ã-O. Um segundo... foi tudo que bastou para acabar com todos os planos e sonhos. Foi o necessário para modificar radicalmente o futuro dos dois, e refletir sobre o resto da vida inteira deles. Que poder tem um segundo?!?! Um segundo que valeu por uma vida inteira. Liz havia rejeitado Marcos, sem ter ao menos a menor certeza de que fazia o certo, e já se arrependendo por dentro e querendo o amado. A insegurança de sua resposta estava estampada na sua cara, assustada! Porém, mesmo assim, havia decidido, e estava decidida e acabada toda história de Marcos e Liz. Tudo isso em apenas um segundo! Marcos foi embora cabisbaixo. Tentou sentir raiva, mas não conseguiu. As inúmeras qualidades e atitudes de Liz não deixavam. Admirou a coragem da amada. Se lembrou dela uma última vez, colocou em sua cabeça que ia esquecê-la, e partiu, para nunca mais voltar. Marcos era bom em muitas coisas, e entre uma delas estava em se esquecer e excluir alguém da sua vida. Procurou não receber notícias. Não ia atrás. Evitava contato. Respeitava seu espaço e ficou bem, afinal sempre tinha seus amigos e “meios amores” por perto. Liz, de momentaneamente decidida, passou à insegura, e ficou vigiando e observando Marcos, querendo falar com ele, dizer que o amava, pedir perdão, dizer que estava arrependida e que queria voltar, que havia se precipitado e que achava que o que tinha feito era errado. Foi ela quem mais demorou mais a se “esquecer” do amado, mas esqueceu. Logo voltou a sair com suas amigas, a conhecer pessoas novas, a ter novos relacionamentos, inclusive com o afortunado e engomado Breno, que apesar de pouco amado, foi quem jogou na loto e levou o prêmio.


De repente a chuva parou. E Marcos voltou daquele estado de transe que o havia tomado. Viu que o céu estava mais aberto, tomou o último gole do seu whisky mais forte, pegou a chave do carro e saiu. Foi se encontrar com seus amigos Pedro e Carlos, que o divertiam muito. Foram todos jantar num excelente restaurante da cidade, e enquanto acompanhados de outros colegas, e de mulheres, regaram-se de vinho e de piadas e estórias engraçadas de ontem e de hoje, e se entreteram. Marcos passou a pensar na grande bobagem que tinha tomado sua cabeça horas antes. Que isso é coisa da vida, e que não existe esse negócio de mulher da vida de alguém, que é tudo questão de ocasião, tempo, momento, e fase de vida. Que ninguém é insubstituível, e que ele ia encontrar alguém bacana e especial para ele, e que ele iria fazer essa mulher a mulher mais feliz do mundo. Enquanto isso, se divertia com as bonitinhas nem tão especiais, que nessa noite se chamava Cláudia, e que apesar de não ser excepcional, tava acima da média. Até pensou que podia ter algo mais com ela, que podia valer a pena tentar. A noite havia sido boa, e o final dela ainda guardava mais umas surpresas. Após se despedir de todos, Marcos saiu com Cláudia para deixá-la em casa. Por coincidência, ou não, a bela loira morava perto da casa dele. Ao entrar na rua de Cláudia, Marcos passou por cima de um buraco que estava acobertado pela água da chuva e furou o pneu quase em frente à casa da jovem moça, que com seus 25 anos, recém formada, ainda morava com os pais. Ao descer para trocar o pneu, de camisa azul e calça social, a chuva retomou, Marcos se molhou todo e a moça entrou para chamar seu pai para ajudá-lo. Que situação! Marcos, que não entendia nem ligava muito pra coisas de carro e mecânica, havia esquecido o macaco, e não podia trocar o pneu. Todo molhado, ainda teve que conhecer os pais da moça, que de robe e pijama tentavam ajudar o pobre rapaz. Conheceu os familiares, e mesmo vendo-se naquela situação, estava de bom-humor e achou tudo engraçado. Era o efeito do vinho e da ótima noite que tivera. Resolveu então deixar o carro na casa de Cláudia para pegá-lo no outro dia. Quis ir a pé para casa, até mesmo para curtir um pouco aquela chuva forte e gostosa que caia naquela noite quente de verão. Despediu-se da moça, com quem já havia fortemente simpatizado, e seguiu para casa a pé, andando. Enquanto andava entretido pensando nas estórias da noite, nos amigos, no jantar, no vinho e naquela mulher até interessante que havia conhecido, mal notou a passagem de um carro diferente pelo seu lado, limusine preta e grande. Continuou seu caminho. Dentro do carro, um coração palpitou. Era o de Liz, ex-amada de Marcos, que se dirigia ao aeroporto para sua lua de mel, e já enfadada com seu novo marido, havia prestado atenção e notado a passagem de seu ex-amado na calçada ao lado, andando na chuva com as mãos no bolso e um sorriso bobo e largo na cara, tão característico de si, como em que se lembrando de alguma coisa. Ela olhou o amado, tomou um susto, como se tivesse visto um fantasma... o seu Marcos, àquela hora, no meio da rua e da chuva?!? Virou-se para frente e olhou reto, tentando evitar e encarar o objeto do seu desejo. Também tentou se conformar. Se lembrou que seu marido era um homem bom, que era aprovado pelos seus pais, que se dava bem com todos, que era bem sucedido... se lembrou também inúmeras outras pessoas já tinham feito escolha parecida com a dela, e que por isso, ela não era a única a carregar essa mea culpa. Tentou se apegar a tudo isso, porém, viu que não havia como negar o fato: Ela amava Marcos e havia casado com Breno! Breno a amava loucamente. Breno fazia tudo por ela. Ela tinha segurança em Breno, mandava em Breno, não brigava com Breno. Breno era filho de empresário bem sucedido, rico, bem apessoado. Porém, Breno não tinha a pegada de Marcos, que quando a agarrava, a fazia ficar fraca das pernas, tonta do juízo e com o coração explodindo de paixão. Breno não tinha o sorriso de Marcos, a alegria de Marcos. Ele não conversava como Marcos. Não a entendia como Marcos. Não a divertia como Marcos. Não era carinhoso como Marcos... lógico, ele não era Marcos! Ao se lembrar disso, e se arrepender amargamente do que havia decidido anos atrás numa pequena fração de segundos, Liz entortou o corpo e virou a cabeça afim de ver seu amado pelo menos mais uma última vez... e viu: Marcos, ou melhor, a sua silhueta, sob a escuridão da noite e da água da forte chuva, andando exatamente no meio da rua, com as mãos no bolso, levemente iluminado pela luz de dois postes que se encontravam diametralmente em lados opostos da calçada. Ao ver essa cena, Liz pensou consigo mesma “Aí vai o homem da minha vida...” e começou a ter o seu momento de retrocessão e de transe, até ser interrompida pelo seu marido, Breno, que a puxou para desentortá-lhe e para lhe dar um beijo. Nesse momento, sentindo a maior tristeza que jamais poderia sentir uma alma, Liz fechou os olhos com bastante força, pensou em seu amado e beijou o seu marido, sendo que uma pequena e leve lágrima caiu-lhe dos olhos e rolou-lhe o rosto. Enquanto isso, no fim da Rua, Marcos continuava com sua tranqüila e deleitosa caminhada sob a chuva.


(FIM)

(Eduardo Dantas)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Em outros céus


O céu laranja esvaia-se apressado com o passar dos segundos, pelo menos isso parecia certo. A noite calada chegava rápido como se quisesse surpreender os mais reflexivos sentados à praia, como João.
Era um dia qualquer de janeiro em algum lugar da Oceania. Longe, muito longe de casa. João caminhava de volta para o hotel perseguido pelos mais diversos pensamentos, daqueles insistentes que nunca calam e vem acompanhados de desmedido estado de inquietude. Tinha como refúgio das suas próprias idéias inconclusas, a singela reflexão sobre a despretensiosa mudança sobrevinda a cada nova viagem. Tomou um susto quando uma voz terna exclamou não muito longe:
- Licença! Tem um minuto?
Era um velha senhora de aparência simples, suas vestimentas indicavam que mesmo não sendo indigente não tinha lá muitas condições. Mas seu olhar era doce, inofensivo e mesmo hesitante João caminhou em direção a ela.
- Pois não senhora.
Disse tomando uma certa distância que o fazia sentir-se mais seguro. A velha senhora de pronto respondeu:
- Notei que o jovem caminhava como se quisesse entender o mundo ou quem sabe que o mundo o entendesse, há tanta dúvida em seu olhar.
- Qual o seu nome rapaz?
Tudo aquilo era muito estranho para João, não fazia o menor sentido para ele ser abordado no meio da rua de um país longínquo, por uma senhora cujo interesse seria sabe lá Deus qual. Mas ainda assim respondeu em complacente tom:
- João, meu nome é João, senhora.
E assim, meio que por impulso e embaraço foi dando as costas e seguindo de volta seu caminho quando ouviu:
- Você gosta de poesia João?
João parou, aquilo soava ainda mais impróprio, voltou o olhar para a senhora que sorria o desarmando e respondeu:
- Não, não gosto de poesia, senhora. Dê-me licença, tenho de ir agora.
Ao virar de costas João indagou ao seu ocupado Eu por que cargas d’água deu conversa a uma velha que nunca viu na vida. E mais, seria notável o turbilhão de pensamentos que o assolava? Sentiu-se despido. Subiu ao quarto, tomou um banho demorado e leu o sonífero Camões até deixar-se abater pelo sono.
Rápida e placidamente correu a noite e logo já fazia uma bela manhã de verão. João caminhava no parque em frente ao hotel enquanto alguns liam ao sol. Nada parecia fora do lugar. Reparava os alegres bancos cheios de tristes histórias quando de longe viu a velha senhora rodeada de pessoas que imóveis assistiam a algo que ele ainda não havia conseguido identificar.
- João!
Gritou ela ao vê-lo.
-Aproxime-se!
João involuntariamente ensaiou um sorriso que foi logo repreendido, mas pensou, que mal o faria aproximar-se e escutar o que ela teria a dizer, até porque seria uma ótima oportunidade de buscar explicações acerca das palavras ditas na noite anterior. Caminhou devagar em direção ao atento círculo formado ao seu redor quando ouviu as últimas palavras de um verso que a mesma recitava com uma paixão de orgulhar o poeta e a lua:
- “E mesmo ante o ódio ou o amor
Levo a vida em poesia
Pois não há dor onde há flor.”
Aquelas palavras fizeram coro no íntimo de João e até uma dama que passava descalça crivou-se de verdades e lágrimas.
Após sua aproximação a velha senhora pediu licença aos que a ouviam e convidou João para sentar-se em um banco próximo.
- Então João, percebi que a outrora desgostosa poesia chamou sua atenção. Poesias sempre evocam, com a nudez das palavras, oceanos de pensamentos e emoções. É refúgio dos corações em dor, apogeu dos enamorados. É um brinde aos amantes da beleza da vida. Por que não gosta de poesia?
João sentiu-se envergonhado, não sabia o que responder.
- Deixe de lado tanta sensatez. Não precisa achar na razão os motivos certos para me responder. Disse ela.
João então derramou sua sinceridade:
- É que para mim não faz sentido. Há tanta coisa na minha cabeça, tantas dúvidas. Devaneios líricos não parecem ajudar em concluir minhas idéias, resolver meus problemas, prefiro evitá-los.
Levando a mão ao rosto de João, a velha senhora respirou com a calma típica de quem já navegou no mar de muitos corações e disse:
- Mais longa do que qualquer viagem João, é a jornada por entre os rios que correm secos de razão e cheios de dúvida na alma. Falta poesia.
João lutou para conter os olhos que pesavam cheios d’água. Ela continuou:
- Se passarmos a vida procurando explicações para tudo, envoltos nos porquês e na falta de sentido do todo, a vida passa em branco nuvem, e sem que você chegue a conclusão alguma. O segredo é encará-la com poesia. Acredite. Os versos mais bonitos estão em todo lugar. Discretos. Ao lado da felicidade achada em horas de descuido e do equilíbrio que descansa nas desatentas horas de paz. Nada é tão complicado. É tudo belo, simples. Mitiga teu ser e lembre-se, a vida é muito mais. É poesia.
- És uma sábia mulher.
Disse João emocionado e com sincera gratidão.
- Como pode saber tanto da vida? Dissipa-me esta última dúvida.
Ela sorriu e respondeu:
- Sou estrofe. Rima. Sou aquela que toca. Eleva. Encanta. Sou vida. Amor. Poema. Neblina. Dispenso a certeza. Moro em outros céus entre a verdade e a beleza. Vivo no teu eu profundo como pássaro facundo. Sou tudo e nada ao mesmo tempo e tenho em mim todos os sonhos do mundo.
A velha senhora então levantou-se poesia e sumiu em versos pelas sombras das árvores que ouviam a tudo.




(Leandro Matias)