13 de Janeiro de 2013. Que coisas são as coincidências da vida. Era o dia seguinte ao seu aniversário. Era o dia 13. Era sexta feira. Estranhas conincidências ou destino do azar? Quem sabe... o fato é que já se passava da zero hora daquela chuvosa e tenebrosa noite de sexta-feira 13. Para Marcos, o costume, num dia como aquele, era sair do trabalho às 18:00 horas, tirar o paletó, desafogar a gravata, e ir curtir um happy-hour com os seus amigos num barzinho próximo de Petrópolis. Depois o caminho era a casa, para um rápido banho e uma troca de roupas, e outra saída para jantar, beber e se divertir com os seus pares. Às vezes um programa diferente, um cinema, teatro, show, mas a resenha com os amigos e a bebericagem era de praxe, indispensável. Porém, aquela sexta-feira era diferente...não só pelo clima chuvoso, depressivo, tenebroso, como se tivesse sido extraído de um filme de suspense de Hithcook. Pior do que isso, aquele era o dia do casamento de sua amada Liz, a mulher da vida dele, com o engomado e almofada do Breno...Que dia! A única satisfação era imaginar a ruína do casamento, da recepção à céu aberto, com todo aquele pé d’água. Por um instante, Marcos esboçou um sorriso irônico no rosto, posto que lá no fundo, numa pontinha do seu interior, ele estava se deliciando e satisfazendo com a desgraça alheia, desejando que os noivos estivessem em agonia, preocupados, que talvez discutissem! Rápida regojização...em menos de um segundo passou-se a alegria, e a tristeza e decepção já estavam estampadas novamente no rosto de Marcos. Para combatê-la, procurou no bar de seu apartamento o whisky mais velho que podia achar. Preparou uma dose, sentou-se ao sofá, observou a chuva, e deu um gole daquele malte forte, mas que naquela noite parecia amargo demais, como sua própria vida.
Marcos era um jovem rapaz de 30 anos, advogado de sucesso de um grande escritório, escritor e professor. Tinha um metro e oitenta e três de altura, olhos e cabelos castanhos, lisos e penteados duma forma que ficavam volumosamente para trás, sendo que as pontas caíam para frente e cobriam-lhe parte dos olhos. Tinha a barba por fazer, biotipo esbelto, do tipo que malhava, mas que não era rato de academia. Vivia numa bela cobertura de frente pra praia...cobertura essa que naquela noite de nada tinha de bela. Pelo contrário. Todo o espaço, a escuridão e a atmosfera daquele horrendo dia pareciam ter transformado aquele lugar numa pequena e úmida cela de hospício, tamanho era o sufoco e a decepção que apertava o seu peito. Ele era escravo em sua própria casa. Sentia-se só, mas não tinha vontade de sair. Queria tirar aquele peso do peito, mas não tinha meios ou modos para afastá-lo. Nem os amigos lhe interessavam naquela hora... nem as outras mil mulheres que tivera e ainda tinha na vida e na agenda do telefone celular. Todas elas pareciam burras, desinteressantes, fúteis e medíocres, e não era questão de descriminação, radicalismo ou intolerância, não, não se tratava disso. Era apenas falta de interesse... elas não o encantavam, não o interessavam, não mais... estava velho demais para fazer aquele jogo do ficar só por ficar. A esperança estava no futuro. Futuro de quem sabe, talvez, conhecer outra mulher que tivesse tudo a ver com ele. Que fosse inteligente e linda, interessante e envolvente, bem sucedida. Que exprimisse e demonstrasse suas vontades, que conhecesse seus desejos e compreendesse seus defeitos, que dissesse o que ele esperava ouvir, que o surpreendesse, que o ensinasse, que estivesse sempre com ele e que aproveitasse com ele seus programas, mas que também soubesse se comportar. Que não fosse mandona ou chata demais, mas também não fosse tão submissa, que o deixasse sempre com vontade de surpreendê-la e conquistá-la a cada dia, e que o fizesse ter vontade de explodir de paixão e pular de alegria. E foi aí, meditando sobre as qualidades de sua mulher ideal, que Marcos caiu na armadilha preparada por ele mesmo, e o nome dela veio à sua mente. Enquanto ele levantava o rosto e olhava o agitado mar de tempestade, escutou uma voz que veio de dentro da sua própria cabeça, e que dizia, como que sussurando... Liiiiizzzz. Pode ser que não fosse, mas pelas características apontadas por Marcos, não existia mais dúvidas, Liz era a mulher da sua vida! A esperança era olhar para frente, e a sorte é que existisse outra igual a ela, ou melhor do que ela, ou parecida com ela. Marcos tentou se alegrar. Ele tinha muitas perspectivas de ainda crescer e encontrar essa mulher. Pensou até que deveria freqüentar mais congressos jurídicos, quem sabe assim ele não encontraria alguém inteligente e parecida com ele e com o que queria. Mais uma vez, ao lembrar do que queria, a imagem da atual querida veio à cabeça, e foi aí então que se tocou da tola idéia tinha bolado, e se relembrou da história dele com Liz.
Marcos e Liz sempre souberam quem era um e o outro. Sempre freqüentaram os mesmos ambientes, possuíam alguns amigos em comum, mas ainda assim, nunca tinham se falado ou reparado um no outro. Isso até um belo dia, que por circunstâncias alheias às suas vontades, foram colocados frente a frente e conversaram. Logo ficaram, sendo que meio despretensiosamente para ambos. Eles não se conheciam, e tinham uma imagem totalmente errada um sobre o outro. Walter achava que Liz era besta e fútil, como a metade das mulheres que conhecera e que habitava a cidade e o mundo. Liz achava que Walter era galinha e sem futuro, como a outra metade dos homens que completava a metade das mulheres faladas. Mas eles se surpreenderam. E quando passaram a ser conhecer melhor, a primeira coisa que passou na cabeça de Walter foi: - Como é que eu nunca notei uma mulher dessas do meu lado? E Liz: - Como é que eu nunca tinha me aproximado desse homem? E assim foi, e a paixão foi aumentando, e virou amor, e Walter e Liz desconheciam esse tipo de amor, e desconsideraram o que tinham sentido até então. Apague tudo. Passe uma borracha. Isso agora era completamente diferente de tudo o que eles tinham vivido. É um outro tipo de amor. Tudo que se passou parece pequeno, quando comparado. Walter passou a achar que Liz era a mulher da vida dele, e Liz passou a achar que Walter era o homem dos sonhos dela, e eles se amavam loucamente...sendo que aí entrou o problema. Walter e Liz tinham muitas coisas em comum além do amor mútuo que sentiam um pelo outro. Eles tinham personalidades muito parecidas. Fortes, decididos. Sempre acostumados a amar mais do que serem amados. Sempre acostumados a mandar mais do que serem mandados. Sempre objetos de desejo do sexo alheio, tinham o ego e o orgulho fortes, e acima de tudo, tinham outra coisa em comum: tinham medo de amar. Não que fosse peculiar da personalidade deles, esse é medo que habita o gênero humano como um todo, e em algum momento da vida todo mundo passa por isso. E nesse momento em que todos passam por essa encruzilhada, é tempo de decidir o caminho que irá refletir no rumo do restante das nossas vidas: é melhor encarar a insegurança de amar muito, ou então se conformar com a segurança de amar pouco e ser muito amado? Geralmente, ou unanimamente, ou quase que unanimamente, todos os homens e as mulheres escolhem a segunda via, e passam a vida conformados e até mesmo felizes com suas vidas e seus parceiros, mas sempre tem um dia, sempre tem uma hora, de tempos em tempos, em que o fantasma do cupido bate à nossa porta, e mesmo que seja por alguns segundos, passa à cabeça: E se tivesse escolhido o outro caminho? E se tivesse me arriscado? Para uns isso é cruz que os persegue a vida toda, e gera problemas, frustrações, separações, e às vezes, de bom, alguns reencontros posteriores de antigos amores. Para outros, isso é besteira e momento de pequena distração, que logo é superado com o chamado de um amigo que lhe vê dormindo acordado, pelo que logo vêm a conclusão de ter feito a coisa certa, de ter trilhado o caminho correto, ou de se lembrar que na vida não existe trilha certa e que nós sempre somos levados para lugares e situações que sequer imaginamos, às vezes melhores, às vezes piores, às vezes não dá pra julgar, e por isso devemos nos conformar e ser felizes com o que temos. Conformismo ou felicidade? A resposta é de cada leitor. O que importa é contar a história de Marcos e Liz. Voltemos.
Pois então, Marcos e Liz, após tempos de paixão, amor e convivência, se viram completamente apaixonados um pelo outro. Eles se admiravam. Apreciavam conversar. Conversavam bem. Se entretiam, se divertiam juntos, e quando estavam juntos, o tempo voava como uma flecha. Para eles, bastava um a outro, e não precisavam de mais ninguém. Cada programa era especial. Cada saída uma estória nova, um momento de descontração, uma risada sobre um fato novo, uma aventura nova. Tudo era novo e era empolgante. Para Marcos, aquele novo tipo de mulher que não tinha medo de falar o que pensava, que se impunha, que era forte porém ao mesmo tempo doce, ríspida e ao mesmo tempo meiga... e linda! Para Liz aquele homem que era inteligente, porém não era alienado. Que gostava de estudar e tinha futuro, mas que também sabia se divertir, e principalmente, diverti-la. Mas o medo que ambos tinham do seu amor começou a se manifestar. Algumas poucas discussões, um pouco de intolerância de cada parte, se transformaram, pouco a pouco, em algo mais sério, e veio a crise. Houve a separação, meio que forçada e indesejada por ambas as partes. Nenhum deles, no fundo, queria aquilo. Por serem fortes, sabiam que ficar longe era possível, que o mundo não ia se acabar e que não iam morrer, que iam encontrar outra pessoa talvez melhor, talvez parecida, talvez pior, sendo que sabiam que nunca ia ser aquela pessoa. Por isso se afastaram, e se mantiveram forçadamente longe um do outro. Porém, havia a possibilidade de reconciliação. Era chegada a hora de Marcos e Liz passarem pela decisão que todo mundo passa uma vez na vida. Ao conversarem, expuseram todas as suas razões, motivos, contentamentos e descontentamentos. Marcos queria Liz, e Liz queria Marcos, porém eles não iriam se insistir um pelo outro. Era aquele momento ali... e pronto! Agora era a hora. Ou era, ou então não era nunca mais. Eles se conheciam e sabiam disso. Marcos puxou o assunto, liderou a conversa, e deixou a resposta para Liz. Passaram-se alguns segundos, que mais pareciam séculos dentro da cabeça de Marcos. Liz parecia pensativa e insegura, e por mais que tentasse pensar em algo, era tudo um embaralhado de idéias desordenadas que não pareciam ser possíveis de serem organizadas dentro daquele curto período de tempo. Por mais que já tivessem conversado outras cento e tantas vezes, era sempre a mesma conclusão: a que não se chega à conclusão nenhuma. Uma hora se pensa uma coisa, noutra hora se pensa noutra, para Liz, tomar aquela decisão era como estar numa estrada deserta e ter de escolher entre o caminho da direita e o da esquerda, por pura sorte, ocasião ou destino. Não haviam critérios ou opiniões suficientes para se realizar uma escolha ordenada. Era escolher um por escolher... e pronto. Enquanto Liz pensava nisso tudo, Marcos já que se arrependia de ter chegado àquele ponto, e de ter se colocado naquela posição de vulnerabilidade. Quando pensava em já desistir antecipadamente, ouviu as três letras mais sonoras e destrutivas da sua vida: - N-Ã-O. Um segundo... foi tudo que bastou para acabar com todos os planos e sonhos. Foi o necessário para modificar radicalmente o futuro dos dois, e refletir sobre o resto da vida inteira deles. Que poder tem um segundo?!?! Um segundo que valeu por uma vida inteira. Liz havia rejeitado Marcos, sem ter ao menos a menor certeza de que fazia o certo, e já se arrependendo por dentro e querendo o amado. A insegurança de sua resposta estava estampada na sua cara, assustada! Porém, mesmo assim, havia decidido, e estava decidida e acabada toda história de Marcos e Liz. Tudo isso em apenas um segundo! Marcos foi embora cabisbaixo. Tentou sentir raiva, mas não conseguiu. As inúmeras qualidades e atitudes de Liz não deixavam. Admirou a coragem da amada. Se lembrou dela uma última vez, colocou em sua cabeça que ia esquecê-la, e partiu, para nunca mais voltar. Marcos era bom em muitas coisas, e entre uma delas estava em se esquecer e excluir alguém da sua vida. Procurou não receber notícias. Não ia atrás. Evitava contato. Respeitava seu espaço e ficou bem, afinal sempre tinha seus amigos e “meios amores” por perto. Liz, de momentaneamente decidida, passou à insegura, e ficou vigiando e observando Marcos, querendo falar com ele, dizer que o amava, pedir perdão, dizer que estava arrependida e que queria voltar, que havia se precipitado e que achava que o que tinha feito era errado. Foi ela quem mais demorou mais a se “esquecer” do amado, mas esqueceu. Logo voltou a sair com suas amigas, a conhecer pessoas novas, a ter novos relacionamentos, inclusive com o afortunado e engomado Breno, que apesar de pouco amado, foi quem jogou na loto e levou o prêmio.
De repente a chuva parou. E Marcos voltou daquele estado de transe que o havia tomado. Viu que o céu estava mais aberto, tomou o último gole do seu whisky mais forte, pegou a chave do carro e saiu. Foi se encontrar com seus amigos Pedro e Carlos, que o divertiam muito. Foram todos jantar num excelente restaurante da cidade, e enquanto acompanhados de outros colegas, e de mulheres, regaram-se de vinho e de piadas e estórias engraçadas de ontem e de hoje, e se entreteram. Marcos passou a pensar na grande bobagem que tinha tomado sua cabeça horas antes. Que isso é coisa da vida, e que não existe esse negócio de mulher da vida de alguém, que é tudo questão de ocasião, tempo, momento, e fase de vida. Que ninguém é insubstituível, e que ele ia encontrar alguém bacana e especial para ele, e que ele iria fazer essa mulher a mulher mais feliz do mundo. Enquanto isso, se divertia com as bonitinhas nem tão especiais, que nessa noite se chamava Cláudia, e que apesar de não ser excepcional, tava acima da média. Até pensou que podia ter algo mais com ela, que podia valer a pena tentar. A noite havia sido boa, e o final dela ainda guardava mais umas surpresas. Após se despedir de todos, Marcos saiu com Cláudia para deixá-la em casa. Por coincidência, ou não, a bela loira morava perto da casa dele. Ao entrar na rua de Cláudia, Marcos passou por cima de um buraco que estava acobertado pela água da chuva e furou o pneu quase em frente à casa da jovem moça, que com seus 25 anos, recém formada, ainda morava com os pais. Ao descer para trocar o pneu, de camisa azul e calça social, a chuva retomou, Marcos se molhou todo e a moça entrou para chamar seu pai para ajudá-lo. Que situação! Marcos, que não entendia nem ligava muito pra coisas de carro e mecânica, havia esquecido o macaco, e não podia trocar o pneu. Todo molhado, ainda teve que conhecer os pais da moça, que de robe e pijama tentavam ajudar o pobre rapaz. Conheceu os familiares, e mesmo vendo-se naquela situação, estava de bom-humor e achou tudo engraçado. Era o efeito do vinho e da ótima noite que tivera. Resolveu então deixar o carro na casa de Cláudia para pegá-lo no outro dia. Quis ir a pé para casa, até mesmo para curtir um pouco aquela chuva forte e gostosa que caia naquela noite quente de verão. Despediu-se da moça, com quem já havia fortemente simpatizado, e seguiu para casa a pé, andando. Enquanto andava entretido pensando nas estórias da noite, nos amigos, no jantar, no vinho e naquela mulher até interessante que havia conhecido, mal notou a passagem de um carro diferente pelo seu lado, limusine preta e grande. Continuou seu caminho. Dentro do carro, um coração palpitou. Era o de Liz, ex-amada de Marcos, que se dirigia ao aeroporto para sua lua de mel, e já enfadada com seu novo marido, havia prestado atenção e notado a passagem de seu ex-amado na calçada ao lado, andando na chuva com as mãos no bolso e um sorriso bobo e largo na cara, tão característico de si, como em que se lembrando de alguma coisa. Ela olhou o amado, tomou um susto, como se tivesse visto um fantasma... o seu Marcos, àquela hora, no meio da rua e da chuva?!? Virou-se para frente e olhou reto, tentando evitar e encarar o objeto do seu desejo. Também tentou se conformar. Se lembrou que seu marido era um homem bom, que era aprovado pelos seus pais, que se dava bem com todos, que era bem sucedido... se lembrou também inúmeras outras pessoas já tinham feito escolha parecida com a dela, e que por isso, ela não era a única a carregar essa mea culpa. Tentou se apegar a tudo isso, porém, viu que não havia como negar o fato: Ela amava Marcos e havia casado com Breno! Breno a amava loucamente. Breno fazia tudo por ela. Ela tinha segurança em Breno, mandava em Breno, não brigava com Breno. Breno era filho de empresário bem sucedido, rico, bem apessoado. Porém, Breno não tinha a pegada de Marcos, que quando a agarrava, a fazia ficar fraca das pernas, tonta do juízo e com o coração explodindo de paixão. Breno não tinha o sorriso de Marcos, a alegria de Marcos. Ele não conversava como Marcos. Não a entendia como Marcos. Não a divertia como Marcos. Não era carinhoso como Marcos... lógico, ele não era Marcos! Ao se lembrar disso, e se arrepender amargamente do que havia decidido anos atrás numa pequena fração de segundos, Liz entortou o corpo e virou a cabeça afim de ver seu amado pelo menos mais uma última vez... e viu: Marcos, ou melhor, a sua silhueta, sob a escuridão da noite e da água da forte chuva, andando exatamente no meio da rua, com as mãos no bolso, levemente iluminado pela luz de dois postes que se encontravam diametralmente em lados opostos da calçada. Ao ver essa cena, Liz pensou consigo mesma “Aí vai o homem da minha vida...” e começou a ter o seu momento de retrocessão e de transe, até ser interrompida pelo seu marido, Breno, que a puxou para desentortá-lhe e para lhe dar um beijo. Nesse momento, sentindo a maior tristeza que jamais poderia sentir uma alma, Liz fechou os olhos com bastante força, pensou em seu amado e beijou o seu marido, sendo que uma pequena e leve lágrima caiu-lhe dos olhos e rolou-lhe o rosto. Enquanto isso, no fim da Rua, Marcos continuava com sua tranqüila e deleitosa caminhada sob a chuva.
(FIM)
(Eduardo Dantas)