Chovia muito. Caía um toró na, outrora puritana, cidade do Natal. Era sábado de tardezinha e as ruas estavam alagadas; um dia nada convidativo a farras ou bebedeiras. Os bares estavam secos, os shoppings desérticos. Apenas se ouvia o barulho angustiante dos pingos espessos e apressados. Era como se o dia tivesse nascido para provocar reflexões.
Záqui parecia não se importar. Apesar de sua juventude recém-chegada, aquele não seria, de qualquer forma, um dia promissor. Ele desfrutava, com regozijo único, o óscio de um dia ressacado de final de semana. Seu quarto estava num patamar quase inalcançável de conforto. O ventilador ligado no mínimo, dois travesseiros sobre a cama, a colcha de infância amassada contra seu corpo ligeiramente morno. Záqui terminava seu terceiro cigarro da tarde, enquanto fingia ouvir comentários de futebol da televisão ligada e lia os editoriais da Folha de São Paulo do dia. Ler o fazia se sentir bem, sobretudo porque o permitia expor suas críticas, através de uma embriaguês intelectual drogada; mantinha sua fama de inteligência. Tudo estava magnífico; nos moldes exatos da vida que lhe convinha.
Foi na cozinha dar alguns goles d’água para molhar a boca árida, sinal remanescente dos copos de whisky a mais que tomara na noite passada em um aniversário de família. Ao beber a água, lembrou-se do comentário de seu amigo Pedro, que há pouco o tinha telefonado: “Major, fomos a um forró ontem. Walter ficou tão bêbado, que se perdeu. Só o achamos no final da festa, arriado sobre a mesa com uma garrafa de Grapette e um caldo de ova de curimatã”. Záqui sorriu discretamente e voltou para o quarto. Uma certa inveja dos seus amigos o consumiu brevemente.
Quando já estava prestes a abrir o jornal novamente, seu celular tocou. Com leve ânimo foi atender, no afã de dar outras risadas sobre presepadas e irreverências vividas pela turma de amigos no forró da noite anterior. Ao enxergar a tela de seu telefone, como num piscar de olhos, seu semblante mudou inteiramente.
- Oi amor, disse ele.
- Amor, já são 7 horas da noite. Você não vem hoje pra cá não, é? Se lembre que hoje nós não vamos sair. Vamos só ver um filme para no domingo eu poder estudar.
- Eu sei amor. To indo. Já tomei banho - Respondeu ele com um aspecto de quem não via um chuveiro há uma semana.
- Então ta, já to esperando. Beijo. Te amo.
- Beijo.
Záqui se levantou da cama e, com uma preguiça de dar inveja a funcionário público, foi se lavar. Desta vez não ligou o som do banheiro. Abriu um pouco o chuveiro. Logo o ambiente estava inteiramente embaçado, como uma sauna. A água quente escorria por seu rosto e ele resmungava em pensamento: “Passar a noite vendo filme. Que programão”! Subitamente ele lembrou: “Mas nem sempre foi assim”. Nesse instante, correram em seu pensamento lembranças do início com Bel, sua namorada. Ela era linda. Ainda era. Tinha os cabelos castanhos com luzes loiras, daquelas feitas por cabelereiro de elite. Não eram escorridos, mas lisos de uma forma que sua combinação com o rosto remetia a pinturas iluministas. Era sempre bronzeada, tinha as marcas do biquíni sempre salientes; quando sua pele não estava vermelha do sol, estava em um tom de moreno, que levava a crer que toda manha acordava na praia. O corpo era exuberante e causava até embaraços, tamanhos eram os olhares comilões na praia. Não era muito inteligente, mas também nenhuma tapada. Parecia ter encontrado a mediania perfeita entre submissão e vontade própria. Ria e ri das mais bestas anedotas contadas por Záqui. Era tão carinhosa e cuidadosa com ele, que, não raro, Záqui a imaginava como mãe de seus filhos. Em algumas ocasiões ela esfregava pedaços de algodão molhados de álcool na sola de seus pés descalços e espojados sobre a cama, sob o argumento dele de que aquela marmota curava ressacas. Záqui saiu do banho. Estava certo de algo mudara. Todas as qualidades quase-platônicas que nela encontrara já não eram tão relevantes. Eram, inclusive, ordinárias!
Seu telefone tocou novamente. Dessa vez era Walter:
- Rapaz! Que cachaciado eu tomei ontem. Lembro de nada; foi bom demais, homem! Pense num forró invocado. Hoje tem de novo. Vamos?
- Bicho, Bel não pode ir, tem de estudar amanhã. Vou só pra lá.
- Beleza então. Quando sair de lá me ligue para, pelo menos, tomarmos uma gela.
- Fechou de cadeado.
- Abraço – despediu-se Walter.
- Valeu. - concluiu Záqui.
E assim se foi a noite. Záqui saiu de casa tinindo, cheirava mais do que filho de barbeiro. Desta vez não fora à casa de Bel de bermuda e chinelos, mas todo nos trinques. Nesse dia o cabra estava até mais carinhoso. Cheirava e beijava Bel, mas sexo que é bom, nada. Ela estava indisposta demais para uma farra dessa natureza. Záqui, então, não contou conversa; acabando o filme, ele se foi, ligeiro como quem rouba. Logo chegou no bar, para encontrar Walter e a meninada. Retocou o perfume no carro e entrou no bar, quase que em câmera lenta; parecia coisa de cinema – o galã da noite natalense.
Algumas doses do “barbudinho” foram goela adentro e toda a turma, dentro de pouco tempo, já estava dançando com a muléstia. Záqui era o mais serelepe, parecia que tinha uma pilha enfiada por detrás. Foi quando Walter alertou:
- Moçada, já é uma hora da matina. Tá na hora de capar o gato.
Todos concordaram.
- Záqui, vamos, homem! Saia da jaula hoje. Bel não descobrirá – resolveu insistir Walter pela última vez.
Dessa vez, com Záqui já bicado, poderia até surtir efeito.
Záqui pensou por breves instantes e concluiu, perguntando:
- É, né? Pois to dentro.
Pegaram o rumo. Záqui, Walter, Pedro e Toquinho. Foram todos no mesmo carro. Logo estavam no forró. Záqui entrou na casa de shows. Sentiu a música – forró de primeira -, deu uma olhada nas mocinhas. Admirou-se. Aquilo era o paraíso: moças em bandeja, música de rear tudo e ponche a fole. Foi como se estivesse passando por um déjà-vu.
As músicas passavam despercebidas. Quando a segunda banda começou a tocar, Záqui já estava encangado com uma jovem lindinha, Carla. Não chegava nem ao chulé de Bel, mas para os padrões da festa era uma deusa. Cheirosa, bem-feitinha, e quente feito sovaco de menino com febre. Dançava demais. Tudo estava muito bom, quando de repente Záqui se lembrou de Bel. Aquilo não estava certo. Na verdade, ele não poderia estar nem naquele lugar.
Largou a menina e disse-lhe que precisava ir ao banheiro. Mas ela retrucou:
- E eu? Vou ficar aqui sozinha?
- Eu volto já – respondeu o jovem fugitivo.
- Deixe de besteira. Vá depois.
- Não, é melhor ir agora.
- Venha aqui – Carla o puxou para perto, e numa quase-emboscada, tascou-lhe um beijo daqueles. Záqui nem relutou. É que nem enchente morro abaixo, fogo morro cima. Pr’uma mulher que quer dar, cristão nenhum no mundo consegue evitar. Depois de algumas dezenas de longos beijos, o súbito romance estava assumido. Záqui estava que nem pinto em beira de cerca. Era um contentamento só. A segunda banda acabou, logo a terceira também. Záqui voltou com os amigos, sem Carla. Muitas estórias eram contadas às gargalhadas no carro. Somente Walter dormia; estava desmaiado. Havia bebido todas.
No domingo, o relógio marcava duas horas da tarde, quando Záqui criou coragem para se levantar e almoçar. Pensou no que havia feito na noite anterior e sentiu um mal-estar horrível. Era como se tivesse cometido o mais repugnante dos crimes. Quando seu celular tocava, ele tremia dos pés às pontas, pensando que poderia ser Bel, já ciente de tudo. Os dias foram se passando, e com eles, a culpa e o medo também foram se exaurindo.
Logo Záqui tinha se esquecido de tudo e só pensava em sair mais e mais. Após poucas semanas assim, ele, em um surto de honestidade, concluiu: “Não posso continuar com isso. Tenho de acabar esse namoro”. Tudo era muito diferente entre ele e Bel. O sexo quase não existia, e quando ocorria era sempre igualzinho: o mesmo processo formal – um pouco de sexo oral, papai-e-mamãe e pronto. Os dois pareciam ter perdido o tesão, mas nunca uma palavra fora dita a respeito. Ir a casa de Bel havia se tornado uma tortura desumana; a meia-hora cotidiana de conversa no telefone parecia interminável. Até o costumeiro perfume da jovem começara a lhe causar náuseas. Não havia sobre o que refletir. Era, definitivamente, o momento do fim.
Dito e feito. Záqui foi à casa de Bel e, com muita objetividade, disse-lhe tudo. A coitada ficou devastada. As lágrimas escorriam por se rosto bochecha abaixo, quase que ininterruptamente; eram jatos de lágrimas. Qualquer ser humano se sensibilizaria. Záqui, também. Ao ver aquela cena ele chorou, de verdade, abraçou-a – afinal tinha um carinho enorme por ela – mas manteve-se irredutível. Bel ligou-o algumas vezes nos dias seguintes, mas ele mal a atendia.
Os finais de semana iam se passando e Záqui era só libertinagem. Tirou todo o atrasado. Não podia ter um forró lá na casa-de-carvalho, que lá estava o jovem. Nas boates e barzinhos a cena se repetia: Záqui era presença certa; sempre muito bonito, perfumado e arrumado, esbanjando saúde e apetite sexual. Comeu várias mocinhas. Nesses dias, xota já não é algo difícil de se conseguir na alta-sociedade natalense. Muito no entanto, não se apegava a ninguém. Sempre achava um defeito repugnante em com quem ficava. Ou a menina era burra, ou chata, ou mesmo fedorenta. Assim as semanas se passavam, e, aos poucos, Záqui começara a sentir falta de Bel.
Três meses se passaram e Záqui já pensava em Bel todos os dias. Queria ligar, mas não tinha coragem. Naquele bendito sábado haveria uma vaqueijada próxima a Natal. Záqui foi, mas não mais com todo aquele entusiasmo. Lá no fundo ele bem que já queria um filminho e um sexo formal. Foi ao bar comprar o litro. De repente viu aquela morena esbelta. Era linda, cabelos castanhos com luzes loiras, daquelas feitas por cabelereiro de elite. Não eram escorridos, mas lisos de uma forma que sua combinação com o rosto remetia a pinturas iluministas. Era bronzeada e seu corpo, exuberante. Era Bel.
Naquele exato momento o jovem farrista morreu; sentiu um frio no espinhaço e um disparo no coração; parecia um infarto. Pensou em ir conversar com ela, mas se restringiu a cumprimenta-la. A festa toda se passou e eles não dançaram juntos. Záqui não via mais a mínima graça naquilo tudo. Estava decido: “Amanhã vou ligar para ela”. Voltou para casa com os amigos de farra. Walter dormia e o restante conversava as mesmas irreverências de sempre; engraçadas, mas repetidas.
No outro dia, Záqui ligou para Bel e contou-lhe de seus íntimos sentimentos e de seu devaneio em estar com ela novamente. Bel negou. Não fora ríspida, mas assustadoramente certa do que fazia. Záqui insistiu:
- Bel, dê-me mais uma chance. Eu te amo e você também ainda me ama.
- Eu te amei, Záqui. Mas já não mais. Aprendi a viver sem você e estou melhor assim – afirmou com veemência. E concluiu:
- Não se engane, nem crie falsas expectativas. Digo-lhe isso porque tenho um grande carinho por você. É melhor você seguir em frente. Tenho de desligar. Beijo.
- Bei... – terminaria Záqui.
Os dias seguintes foram de pura dor e sofrimento. Záqui chorou, fumou, bebeu e chorou. Todas as noites escutava “The blowest daughter” de Damien Rice, enquanto via suas dezenas de fotos com Bel. Chorava, escrevia poemas de amor, dor e chorava mais. Ele realmente sofria muito; comia o pão que a besta-fera amassou. Não agüentava mais tanto sofrimento. Agora tudo estava muito claro: Bel era a mulher de sua vida, a mulher que ele queria para ser mãe de seus filhos, para passar o resto de seus dias na saúde e na doença. Todas as outras eram apenas xotas ambulantes, e agora, xotas ambulantes sem-graça. Ele queria Bel e não poderia desistir. Era sexta à noite, mas ele não sairia. Estava cansado de tudo aquilo e muito explicitamente triste para sair em público. Há uma semana seu olhos não desinchavam de tanto chorar. “Tentarei mais uma vez”, pensou. Mandou uma mensagem de celular, a qual continha: “Bel, preciso falar com você. Por favor, me ligue”.
Bel recebeu. Estava em casa se arrumando para sair. Estava mais linda do que nunca; a expressão do seu rosto e a empolgação com que cantarolava as músicas tocadas no som faziam crer que ela acabara de avistar um passarinho verde. Leu a mensagem de Záqui, mas optou por não responder. Caso contrário ele jamais desistiria. Tornou a se maquiar e a cantar, ensaiando discretos passos de dança. Logo seu celular vibrou de novo. Nova mensagem. Aquele Záqui parecia incansável. “Oh moleque insistente” pensou a bela da noite. “Oi Bel. E aí? Vai à boate hoje? Estarei lá. Gostaria que você fosse também. Um beijo”. Dessa vez não era Záqui. Este estava novamente de fronte ao computador, vendo fotos e se lamentando pelas farras culpadas de todo o ocorrido. Chorava copiosamente. Soluçava e devora cigarros.
Dessa vez a mensagem era de Clóvis, um bonitão do pedaço. Bel, ao ler o texto, de pronto respondeu: “Vou sim. Nos encontraremos lá então. Beijos”. Deu pulos de alegria. Deixou o som bem baixinho. Fechou a porta do quarto. Masturbou-se, retocou a maquiagem e saiu de casa, exuberante.
(Flávio Pinheiro)
sábado, 22 de dezembro de 2007
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Só isso
Furtivo
Intempestivo e estranho
Cândido
Simples e cabal
Livre
Haverá sentido?
Sigo
Crédulo da descrença
Omito
Insensato como a vida
Surto
Condenado por mim mesmo
Grito
Alto como o que sinto
Deve haver sentido!
E tudo mais é nada
E nada mais importa
É findo
Clamo, ensaio e digo
Meu pensamento é teu
E nada além disso.
(Leandro Matias)
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